Episódio 2: A Travessia Perigosa

796 Words
Dover, maio de 1814 O porto de Dover fervilhava de atividade quando Anne chegou após dois dias de viagem. Soldados britânicas retornando da guerra, comerciantes ansiosos para retomar negócios com o continente, e famílias procurando entes queridos se misturavam num caos organizado. Anne segurou firme sua bolsa enquanto caminhava pelos cais molhados. O cheiro de peixe, alcatrão e sal do mar invadia suas narinas, tão diferente do ambiente protegido do colégio que a fez sentir um ligeiro enjoo. "Miss Wright?" Um homem de aparência respeitável se aproximou. "Capitão Robert Henley. Recebi instruções para transportá-la até Calais com segurança." Anne examinou o homem cuidadosamente. Sister Margaret havia lhe ensinado a ser cautelosa, especialmente viajando sozinha. O Capitão Henley parecia confiável - uniforme impecável, postura militar, olhos honestos. "Sim, sou Anne Wright. O senhor conheceu meu pai, Sargento Arthur Thomas?" "Servi sob seu comando na Península," Henley sorriu. "Um homem honrado. Fique tranquila, Miss, cuidarei da senhorita como se fosse minha própria filha." O navio era menor do que Anne havia imaginado - um brigue mercante adaptado para transporte de passageiros. Henley a conduziu até uma pequena cabine. "Mantenha-se aqui durante a travessia," ele aconselhou. "Há outros passageiros menos... refinados a bordo. É melhor não atrair atenções desnecessárias." Anne concordou, guardando suas malas no pequeno espaço. Pela janelinha, observou Dover se afastando lentamente. Era sua primeira vez no mar, e a sensação de balanço constante a deixava inquieta. Durante as primeiras horas, tudo correu tranquilo. Anne leu um dos livros que trouxera, tentando acalmar os nervos. Mas quando anoiteceu, começou a ouvir vozes altas do convés - homens discutindo, bebendo. Uma batida na porta a assustou. "Miss Wright?" Era a voz do Capitão Henley. "Preciso falar com a senhorita." Anne abriu a porta cautelosamente. O rosto de Henley estava tenso, preocupado. "Houve uma mudança de planos. Não poderemos desembarcar em Calais. Piratas franceses foram avistados na costa. Teremos que seguir até Ostende, na Bélgica." "Ostende?" Anne franziu a testa. "Mas isso não vai me atrasar?" "Um pouco, mas é mais seguro. De lá a senhorita pode pegar uma carruagem até Bruxelas." Ele hesitou. "Miss, há algo mais. Alguns dos homens a bordo... começaram a fazer perguntas sobre a senhorita. É melhor manter-se trancada até chegarmos." Um frio percorreu a espinha de Anne. "Que tipo de perguntas?" "Nada com que se preocupar. Apenas... não saia desta cabine até eu vir buscá-la." Durante a noite, Anne m*l conseguiu dormir. O navio balançava violentamente devido a uma tempestade, mas não era isso que a mantinha acordada. Eram as vozes - homens passando pelo corredor, sussurrando coisas que ela não conseguia entender completamente, mas que a faziam sentir um medo instintivo. Na manhã seguinte, acordou com gritos do convés. Olhando pela janela, viu terra à distância. Deviam estar chegando a Ostende. Mas algo estava errado. Os gritos não eram de alegria pela chegada - eram de alarme. "Piratas! Navios piratas pela proa!" Anne sentiu o sangue gelar. Pela janela, conseguia ver duas embarcações menores se aproximando rapidamente. Bandeiras negras tremulavam no vento, e mesmo à distância, podia ver homens armados nos conveses. O navio de Henley tentou manobrar, mas os piratas eram mais rápidos. Em questão de minutos, Anne ouviu o som de madeira se chocando contra madeira, gritos de luta, tiros de mosquete. Ela se encolheu no canto da cabine, abraçando seus joelhos. As portas do colégio St. Catherine nunca pareceram tão distantes, tão seguras. A porta de sua cabine foi escancarada violentamente. Um homem sujo, com roupas esfarrapadas e uma cicatriz que cortava seu rosto da testa ao queixo, apareceu na entrada. Seus olhos percorreram Anne da cabeça aos pés de uma forma que a fez sentir nua. "Bien, bien... qu'est-ce que nous avons ici?" ele murmurou em francês, aproximando-se. Anne se encolheu ainda mais. "Por favor... eu... eu só quero encontrar meu pai..." O homem riu, um som c***l que ecoou pela pequena cabine. "Ton père? Ah, ma petite... tu ne le reverras jamais." Outros homens apareceram atrás dele. Anne ouviu alguém mencionar "esclavage", mas seu francês do colégio não a preparara para entender completamente o que estavam dizendo. Só sabia que o tom era ameaçador. "Capitão Henley!" ela gritou, esperando que seu protetor aparecesse para salvá-la. O homem da cicatriz riu novamente. "Le capitaine ne peut plus t'aider, ma belle." Foi então que Anne viu, através da janela, o corpo do Capitão Henley flutuando na água. Seus olhos honestos agora estavam fechados para sempre. Mãos rudes a agarraram, puxando-a para fora da cabine. Anne gritou, lutou, mas era inútil. Enquanto era arrastada pelo convés, viu corpos de outros passageiros espalhados pelo navio. O último pensamento coerente que teve antes de desmaiar de terror foi da promessa que fizera ao pai: "Prometo, papai." Agora, parecia que nunca conseguiria cumpri-la.
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