Órfã
A chuva caía com violência sobre a matilha, impulsionada por um vento forte e cortante. O som das gotas batendo contra as janelas de vidro contrastava com a música suave que saía da vitrola dentro de uma pequena casa cercada pela floresta.
No chão da sala, uma menina de pouco mais de quatro anos brincava com sua boneca de pano.
— A senhorita Margaret não pode sentar no chão molhado, Constance — disse a mãe, divertindo-se enquanto mexia uma panela na cozinha.
Constance sorriu para a boneca e a acomodou melhor sobre o tapete.
O aroma da comida espalhava-se pela casa, trazendo uma sensação acolhedora. Era uma noite comum.
Ou pelo menos parecia.
— Constance, vá lavar as mãos. Seu pai já deve estar chegando para o jantar.
A menina levantou-se imediatamente.
Correu até o pequeno banheiro e esfregou as mãos com dedicação, exatamente como a mãe havia lhe ensinado.
Ainda sacudia os dedos molhados quando voltou para a sala.
Então parou.
A mãe estava imóvel.
Parada no centro da sala.
Os olhos fixos em algum ponto distante.
Os lábios tremiam.
O rosto perdera completamente a cor.
Constance sentiu um aperto estranho no peito.
— Mamãe?
Cindy piscou.
Como alguém despertando de um pesadelo.
Seu olhar encontrou o da filha e imediatamente foi tomado pelo desespero.
Sem responder, ela correu para um canto da sala.
Afastou um pequeno tapete.
Levantou uma tábua do piso.
Revelando um compartimento escuro sob a madeira.
— Venha, Constance. Rápido!
A menina aproximou-se assustada.
— O que aconteceu?
Cindy segurou seu rosto com as duas mãos.
Os olhos estavam marejados.
— Escute com atenção. Você vai entrar aqui e ficar quietinha.
— Não quero.
— Constance.
A firmeza da voz fez a menina se calar.
— Não importa o que aconteça. Não faça barulho. Não saia daí. Só saia quando eu, seu pai ou alguém da matilha chamar você pelo nome. Entendeu?
— Quero ficar com você.
A mulher fechou os olhos por um segundo.
Como se aquilo lhe causasse dor.
— Minha filha... meu amor... confie em mim e me obedeça. Você ficará segura.
Constance sentiu vontade de chorar.
Mas a mãe lhe pediu silêncio.
E, praticamente a empurrando para dentro do compartimento, fechou a tábua.
Logo em seguida, arrastou o sofá para cima do esconderijo.
Constance ficou imóvel.
Abraçada à boneca.
Sem entender.
Então ouviu a porta da casa se abrir.
O som foi tão brusco que a fez estremecer.
Logo depois vieram tiros.
A menina arregalou os olhos.
Então uma voz feminina ecoou pela sala.
Assustadoramente tranquila.
— Boa noite, Cindy... viemos trazer o seu companheiro.
Constance sentiu todo o corpo arrepiar.
Tentou espiar pelas frestas da madeira.
Viu apenas sombras se movendo.
O sofá bloqueava quase toda a visão.
— Filhos da p**a! — gritou Cindy. — Acônito não fará diferença! Já avisei a matilha!
Uma risada respondeu.
Uma risada que Constance jamais esqueceria.
Passos ecoaram pela casa.
E então ela ouviu a voz do pai.
Fraca.
Sufocada.
Ferida.
— Mate a mim... ela não tem culpa...
Outra risada.
— Eu irei me deliciar dos dois.
Um trovão explodiu nos céus.
O som seguinte misturou-se ao rugido da tempestade.
Gritos.
Rosnados.
Objetos quebrando.
O som de algo pesado atingindo o chão.
Constance apertou a boneca contra o peito.
Tapou os ouvidos.
Mas continuou ouvindo.
Continuou ouvindo tudo.
E aqueles sons a acompanhariam pelo resto da vida.
Quando tudo silenciou, ela permaneceu onde estava.
Chorando baixinho.
A chuva havia passado.
Mas uma tempestade continuava rugindo dentro dela.
Não sabia quanto tempo havia se passado.
Minutos.
Horas.
Talvez uma eternidade.
Então ouviu novas vozes.
Muitas vozes.
Pessoas entrando na casa.
Passos apressados.
Exclamações horrorizadas.
— Luna tenha piedade...
— Minha Deusa...
— Só estão eles dois aqui.
— Foram dilacerados...
— Há sangue por toda parte...
— Não deixem ninguém entrar.
Constance ficou imóvel.
A mãe mandara ficar quieta.
Ela obedeceria.
Escutava tudo.
As vozes.
Os murmúrios.
O choro.
A revolta.
Alguém vomitou.
Outro amaldiçoou os vampiros.
E ela continuou esperando.
Esperando que alguém a chamasse.
Mas ninguém chamava.
Até que ouviu:
— Alguém já voltou da caçada?
— Encontraram algum rastro?
Uma voz masculina respondeu com pesar:
— Não. Ninguém voltou ainda. Mas a lobinha já deve estar morta.
— Isso é terrível...
— O que essa criança deve ter sofrido nas mãos desses demônios...
— Ela pode estar viva. Procurem melhor.
Então tudo silenciou.
Uma loba ergueu a mão.
— Esperem.
Todos ficaram quietos.
Batidas.
Muito fracas.
Vindas de algum lugar da sala.
A loba aproximou-se do sofá.
— Estão ouvindo?
Novas batidas.
Desta vez mais rápidas.
— Vêm daqui!
Outros correram até ela.
Empurraram o sofá.
A loba ajoelhou-se.
Então seus olhos se arregalaram.
— Debaixo do piso!
Ela bateu na madeira.
— Constance?
A menina começou a chorar.
— Estou aqui...
O alívio que tomou conta da casa foi imediato.
Vários lobos se emocionaram.
As tábuas foram arrancadas.
E quando a luz finalmente entrou no esconderijo, revelou uma pequena menina encolhida, agarrada à sua boneca de pano.
Alguns choraram.
Outros sorriram em meio às lágrimas.
— Ela está viva!
— Avisem ao alpha!
— Constance foi encontrada!
O funeral aconteceu dois dias depois.
Toda a matilha compareceu.
O pesar era visível.
A revolta também.
A pequena órfã tornara-se símbolo de uma tragédia que ninguém conseguia compreender completamente.
Uma criança que assistira à destruição da própria família.
Uma criança que sobrevivera escondida debaixo do chão.
Muitos diziam que a própria Deusa Luna havia fechado seus lábios e escondido sua presença para protegê-la.
Mas Constance não falava.
Não chorava.
Não sorria.
Apenas observava.
Assustada.
Arredia.
Distante.
Os dias passaram.
Nada mudou.
Por mais carinho que recebesse.
Por mais atenção que tentassem lhe dar.
Ela permanecia em silêncio.
Às vezes ficava olhando para o vazio.
Então, repentinamente, encolhia-se.
Levava as mãos aos ouvidos.
Fechava os olhos com força.
Como se ainda escutasse os gritos daquela noite.
Mas não emitia um único som.
Aquilo preocupava profundamente os membros da matilha.
Principalmente o alpha Thiago.
Um lobo experiente e respeitado.
Ele já havia localizado uma tia de Cindy.
A única parente viva conhecida.
Era dever da matilha informar a família.
Mas Thiago suspeitava que o problema de Constance fosse além do trauma.
Uma mente tão jovem podia não suportar tamanha dor.
Por isso decidiu fazer mais.
Chamou uma velha conhecida.
Uma bruxa chamada Marry.
A tia chegaria no dia seguinte.
Mas Marry chegou antes.
Marry possuía muitos dons.
Lia linhas das mãos.
Interpretava folhas de chá.
Conhecia feitiços antigos.
Mas seu verdadeiro talento era outro.
Ela era uma médium audiente.
Enquanto bruxos comuns comunicavam-se apenas através dos próprios mentores espirituais, Marry podia ouvir qualquer espírito.
Aprendera ao longo dos anos a controlar aquele dom.
Nem toda voz merecia atenção.
Algumas pertenciam a espíritos perturbados.
Outras a obsessores.
Outras simplesmente gostavam de brincar e confundir os vivos.
Ela aprendera a reconhecer cada um deles pela vibração.
E a ignorar a maioria.
Naquela manhã caminhava ao lado de Thiago.
Mas não seguiam para onde Constance estava.
Primeiro iriam à casa do m******e.
Marry queria ver o local antes de conhecer a menina.
Enquanto caminhavam, Thiago contava o que sabia.
Apenas aquela casa havia sido atacada.
Não existiam sinais de uma invasão maior.
Tudo indicava vingança.
— O pai da menina se chamava Arthur — explicou Thiago. — Era um guerreiro respeitado.
Marry escutava em silêncio.
— Anos atrás, em outro continente, ele matou o parceiro de uma vampira antiga.
— Uma mestra?
— Não. Mas alguém muito influente dentro do covil.
A bruxa continuou ouvindo.
— Pouco tempo depois ele encontrou sua companheira e veio para cá.
— E acreditou ter escapado.
— Sim.
Marry observou a estrada.
— Vampiros não costumam esquecer.
— Não.