Quando Marry entrou na casa principal da matilha, Thiago a conduziu até a antiga sala de convivência dos lobos.
O lugar estava silencioso.
Quieto demais.
A matilha inteira estava de luto e todos sabiam que a pequena órfã permanecia ali desde a noite do m******e. Por respeito, os lobos evitavam movimentações excessivas na casa principal. As refeições coletivas haviam sido transferidas para o salão de festas e até as crianças estavam sendo mantidas longe dali.
O silêncio parecia envolver tudo.
Marry entrou no recinto e seus olhos encontraram imediatamente a lobinha.
Constance estava sentada no sofá.
Imóvel.
Os longos cabelos dourados desciam pelos ombros como fios de seda pálida enquanto uma loba jovem acariciava sua cabeça delicadamente, sussurrando palavras doces que pareciam não alcançar a criança.
Outra loba, sentada ao lado dela, insistia para que comesse alguma coisa.
O prato permanecia intacto.
Mais afastada, uma loba mais velha observava a cena em silêncio, tomada por pena.
Thiago pediu mentalmente que todas se retirassem.
As três obedeceram imediatamente.
Assim que ficaram sozinhos, o alpha aproximou-se da menina.
— Constance... esta é Marry.
A lobinha sequer levantou os olhos.
O silêncio que veio em seguida foi pesado.
Marry trocou um olhar discreto com Thiago antes de sentar-se ao lado da criança.
Thiago acomodou-se numa poltrona próxima.
Mas sua mente estava distante.
As palavras da bruxa ainda ecoavam em seus pensamentos.
Arthur sabia.
Sabia do perigo.
Sabia que a vingança viria.
E ele, como alpha, não percebera nada.
O remorso apertou seu peito novamente.
Falhara.
Falhara em proteger uma família da própria matilha.
Falhara em perceber os sinais.
E se outros descobrissem?
O que diriam?
Que tipo de alpha permitia que um guerreiro vivesse anos esperando a própria morte sem perceber?
A vergonha começou a corroê-lo lentamente.
Até que a voz de Marry interrompeu seus pensamentos.
— Alpha...
Thiago ergueu os olhos.
A bruxa observava-o calmamente.
Então balançou a cabeça devagar.
— Não faça isso consigo mesmo.
O alpha espremeu os lábios.
Marry indicou Constance discretamente com os olhos.
— Nem tudo está perdido.
Thiago respirou fundo.
Assentiu.
Então percebeu que Marry falava com a menina.
— Estou dizendo à pequena Constance que nós dois estaremos aqui sempre que ela precisar.
Constance permaneceu imóvel.
Marry continuou suavemente:
— Não importa quanto tempo passe.
Ela tirou um cordão do próprio pescoço.
O pingente de quartzo branco brilhou suavemente entre seus dedos.
— Quando precisar de mim, coloque isto no pescoço e me chame.
Pela primeira vez, Constance reagiu.
Levantou lentamente os olhos.
Marry colocou o amuleto em seu pescoço com delicadeza.
A menina segurou o quartzo entre as mãos pequenas.
Mas não disse nada.
Thiago observou a cena em silêncio.
Então murmurou:
— Eu deveria ter chamado você antes.
Marry desviou os olhos para a criança.
— Não teria mudado o que precisava acontecer.
Antes que Thiago respondesse, passos ecoaram no corredor.
O beta Raul surgiu na porta.
— Alpha... a tia da filhote chegou.
Thiago levantou-se imediatamente.
— Sozinha?
— Veio acompanhada do beta Louis. Enviado do alpha Cameron.
Thiago assentiu.
Marry permaneceu sentada.
— Vá recebê-los — disse calmamente.
O alpha hesitou por um instante antes de sair acompanhado de Raul.
Assim que ficaram sozinhas, Marry voltou-se para Constance.
A menina parecia ainda mais retraída.
Os braços pequenos apertavam o próprio corpo.
Ela tremia quase imperceptivelmente.
— Você não conhece sua tia... conhece?
Nenhuma resposta.
Marry suspirou suavemente.
— Sua mãe falava pouco sobre ela.
Constance permaneceu imóvel.
A bruxa observou a menina por alguns segundos antes de continuar:
— Ela não substituirá sua mãe.
A voz tornou-se mais baixa.
Mais gentil.
— Ninguém pode fazer isso.
Os dedos de Constance apertaram o pingente.
— Mas você será cuidada.
Marry inclinou levemente a cabeça.
— E será amada também.
Então sorriu de maneira quase melancólica.
— Até demais.
A criança permaneceu em silêncio.
Mas Marry sabia.
Constance ouvia cada palavra.
A dor apenas era grande demais para permitir qualquer reação.
Aquela filhote tinha um coração valente.
Mesmo quebrado.
E um dia aquela dor se transformaria em força.
A bruxa sabia disso.
Também sabia que os caminhos daquela criança seriam sombrios.
Difíceis.
E que muitas vidas dependeriam dela no futuro.
Pouco depois, passos suaves ecoaram pelo corredor.
Uma loba loira entrou na sala acompanhada de Thiago.
Era bonita.
Delicada.
Mas havia inquietação em seus olhos.
Quando viu Constance, sua expressão vacilou.
Pareceu genuinamente tocada pela imagem da criança encolhida no sofá.
Olhou para Thiago.
O alpha assentiu discretamente.
Então Camélia aproximou-se devagar.
Com cautela.
Como se temesse assustar ainda mais a menina.
Ajoelhou-se diante dela.
— Olá, Constance...
Sua voz saiu baixa.
Incerta.
— Sou sua tia Camélia.
Constance não reagiu.
Camélia tentou sustentar um sorriso.
— Sua mãe deve ter falado de mim alguma vez.
Nada.
O silêncio voltou a dominar a sala.
Enquanto Camélia insistia em pequenas tentativas de aproximação, Thiago aproximou-se discretamente de Marry.
— Diga que ela cuidará bem da menina.
Marry observou Camélia em silêncio por alguns segundos.
Então respondeu:
— Ela oferecerá o que é capaz de oferecer.
Thiago franziu a testa.
— Não gostei dessa resposta.
A bruxa suspirou.
— Camélia é uma loba solitária.
Olhou novamente para a fêmea.
— Carrega frustrações demais dentro de si.
Havia certa tristeza em sua voz.
— Não é c***l. Mas pessoas emocionalmente famintas raramente sabem amar da maneira correta.
Thiago fechou a expressão imediatamente.
— Então não deixarei Constance ir com ela.
— Não pode impedir isso.
O alpha voltou-se para Marry.
A bruxa sustentou seu olhar calmamente.
— Lembre-se do que eu disse. A jornada dessa criança não transformará apenas a própria vida.
Ela fez uma breve pausa.
— Todos que cruzarem seu caminho serão afetados por ela.
Thiago olhou para Camélia novamente.
Seu instinto continuava desconfortável.
— Ainda assim... isso me parece sofrimento.
Marry sorriu de leve.
Um sorriso cansado.
— O amor também pode nascer do sofrimento.
Thiago permaneceu em silêncio.
Mas não parecia convencido.
Camélia passou o restante do dia tentando alguma aproximação.
Sem sucesso.
Constance não sustentava seu olhar.
Não respondia.
Parecia ainda mais retraída perto dela.
Mesmo assim, Camélia insistia.
Porque sabia que o alpha observava.
Precisava parecer uma boa tutora.
Precisava mostrar que era capaz.
Talvez aquilo finalmente lhe rendesse algum reconhecimento dentro da matilha.
Mas, quando a noite chegou, nem mesmo ela sabia mais se suas tentativas eram apenas interesse.
Porque, ao deitar-se ao lado da menina horas depois, ouviu o choro baixo e sufocado de Constance na escuridão.
Um choro pequeno.
Dolorido.
Camélia hesitou.
Então, quase sem jeito, aproximou-se devagar e abraçou a sobrinha.
Constance acabou adormecendo assim.
Somente de madrugada.
E enquanto observava a criança dormindo entre seus braços, Camélia encarou o teto escuro do quarto.
A sensação que cresceu dentro dela foi amarga.
Pesada.
Aquela menina mudaria completamente sua vida, talvez lhe trouxesse vantagens.
Mas, naquele momento, tudo o que conseguiu pensar foi:
Constance seria um fardo.