Gosto da Trégua.

1470 Words
A madrugada em Chicago sempre trazia um silêncio sintético, interrompido apenas pelo zumbido distante da eletricidade da metrópole. Dentro da fortaleza de Kenji Sato, esse silêncio era absoluto, filtrado por camadas de vidro blindado que separavam o luxo da brutalidade. Uma fresta estreita na cortina de veludo pesado permitiu que um feixe de luz pálida, o primeiro sinal do amanhecer acinzentado da cidade, cortasse a escuridão do quarto principal. Hana despertou aos poucos. Seus olhos abriram-se devagar, as pálpebras pesadas como se carregassem o peso de todo o trauma do dia anterior. Por um breve segundo de confusão onírica, ela desejou que tudo aquilo fosse apenas a arquitetura de um pesadelo c***l; que, ao se virar, encontraria o teto de sua antiga casa e que Haru estaria à sua espera no altar, pronto para um futuro de promessas coloridas. Mas a realidade, ácida e implacável, dissolveu a fantasia. O teto acima dela era de um cinza industrial elegante, e o lado oposto da cama King Size estava vazio, embora o lençol ainda guardasse o vinco da presença silenciosa de Kenji. Ela estava em uma gaiola de vidro. Estava casada com o homem que representava tudo o que ela deveria temer. Hana suspirou, um som que pareceu ecoar pelo ambiente vasto. Mentalmente, ela sentia-se exaurida, como se tivesse corrido uma maratona através de um campo minado. Levantou-se, os pés descalços encontrando o chão aquecido por um sistema de calefação radiante. Para uma mulher comum, o lugar seria apenas uma demonstração de riqueza; para Hana, a gênia da tecnologia, cada painel de parede, cada sensor de presença embutido e a interface holográfica discreta perto da porta eram objetos de um fascínio quase hipnótico. Kenji não tinha apenas dinheiro; ele possuía o estado da arte em segurança cibernética e automação. Enquanto caminhava pelos corredores amplos da cobertura, sua mente técnica tentava decodificar os protocolos de segurança, mas seu corpo físico tinha outras prioridades. O aroma começou a envolvê-la, não era o cheiro industrial de comida de restaurante ou o odor gorduroso de fast-food. Era algo fresco, complexo e profundamente reconfortante. Era o cheiro de casa, de cuidado, de algo preparado com uma precisão que beirava o ritualístico. Seu estômago deu um sinal doloroso de vida. Fazia quase dois dias que ela não conseguia manter nada no organismo; a náusea do abandono no altar e a repulsa pela comida texturizada da festa de casamento a haviam deixado debilitada. Ela seguiu o rastro aromático até a cozinha gourmet, um espaço de aço escovado e mármore n***o onde o design moderno encontrava a funcionalidade de um chef profissional. Kenji estava lá. Ele não vestia o terno impecável do dia anterior, mas sim uma camisa de algodão escuro com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando o início das tatuagens que serpenteavam por seus antebraços, dragões e ondas de tinta n***a que pareciam ganhar vida com seus movimentos. Ele mexia algo em uma panela de ferro fundido com uma concentração serena. — Bom dia. Dormiu bem? — Ele perguntou, sua voz mantendo a gravidade habitual, mas sem a aresta gélida que ele usava para comandar seus homens. — Bom dia — Hana respondeu, encostando-se na bancada de mármore. — Poderia ter dormido melhor se a realidade fosse outra, mas descansei, pelo menos. A resposta veio carregada de um veneno sutil, uma pequena dose do ódio que ela cultivava como um mecanismo de defesa. Kenji apenas assentiu, recebendo a farpa com a paciência de quem entende que o tempo é o único remédio para feridas daquela magnitude. Se ele quisesse alcançar o afeto daquela "Kitsune", teria que desarmar as armadilhas dela uma a uma, começando pelas necessidades mais básicas. — Deve estar com fome — ele disse, desligando o fogo. — Preparei algumas opções. Não sei exatamente quais são suas preferências matinais, mas tentei diversificar. Posso me atentar melhor às suas escolhas da próxima vez. Hana olhou para a mesa posta e sentiu uma onda de surpresa. Não era apenas um café da manhã; era um banquete de contrastes. De um lado, o clássico americano de Chicago: panquecas de massa leve e aerada com mel puro, frutas vermelhas frescas que brilhavam como joias e torradas de pão artesanal com manteiga de flor de sal. Do outro, o que realmente capturou a atenção de Hana: o Asagohan, o café da manhã tradicional japonês que Kenji preparou para si mesmo. Havia uma pequena porção de salmão grelhado (shiozake), cuja pele estava perfeitamente crocante e a carne rosada desmanchava-se ao toque; uma tigela de arroz branco cozido no vapor, brilhante e pegajoso na medida certa; e um tamagoyaki, a omelete japonesa feita em camadas finas, amarela e macia como veludo. O aroma vinha principalmente da sopa de missô, onde pequenos cubos de tofu e algas flutuavam em um caldo límpido e fumegante. Eles se sentaram. Kenji ocupou a cabeceira, sua posição natural de autoridade. Ele esperava que Hana se sentasse na extremidade oposta, criando um abismo de mármore entre eles. No entanto, em um ato que o surpreendeu, ela puxou a cadeira imediatamente ao lado dele. O silêncio que se seguiu não era mais preenchido por gritos, mas por uma curiosidade cautelosa. Hana começou pela parte ocidental da mesa. Ela era seletiva, analisando cada textura com o olhar antes de permitir que o alimento tocasse seu paladar. Comeu uma das frutas vermelhas, apreciando a explosão de frescor que não agredia sua sensibilidade. Mas, conforme os minutos passavam, seus olhos verdes perdiam o foco nas panquecas e fixavam-se obsessivamente no prato de Kenji. Havia algo na simplicidade estética da comida japonesa dele que a atraía. Não havia molhos pesados ou misturas confusas de texturas que costumavam causar repulsa em Hana. Era tudo limpo, definido e visualmente calmo. — É boa? — Ela perguntou subitamente, quebrando o silêncio. Kenji parou o movimento dos hashis no ar, piscando em confusão. — O quê? — A sua comida — ela disse, indicando o salmão e a omelete. — Parece mais... apetitosa que a minha. Tem um aspecto mais leve. Kenji sentiu um lampejo de satisfação aquecer seu peito. Ele sabia que a seletividade de Hana não era frescura, mas uma forma de processar o mundo. — Quer experimentar? Hana hesitou por apenas um segundo antes de balançar a cabeça positivamente. O orgulho dela estava com fome, e a curiosidade era uma chama que Kenji sabia alimentar. Ele ergueu uma colher, montando uma combinação perfeita: um pouco do arroz fumegante, um pedaço pequeno do salmão suculento e uma lasca do tamagoyaki. Ele esperava que ela pegasse os talheres da mão dele ou que pedisse para ele colocar no prato dela. Mas Hana, em um gesto de entrega instintiva que fez o coração de Kenji saltar, inclinou-se para frente e abriu a boca. Ela aceitou a comida diretamente da mão dele, fechando os olhos enquanto os sabores se misturavam em sua língua. O arroz tinha uma doçura sutil que equilibrava o salgado do peixe, e a omelete derretia na boca, trazendo uma nota reconfortante de conforto caseiro. Era perfeito. Era a primeira vez em dias que uma textura não a fazia querer recuar. — É incrível — ela admitiu, a voz mais suave, enquanto limpava o canto da boca com o guardanapo de linho. Sem aviso, ela simplesmente puxou o prato de Kenji para a frente de si mesma, confiscando a refeição japonesa. Kenji deu um riso curto, uma raridade absoluta em seu semblante. Ele não se importou. Na verdade, ele assistiu com uma adoração silenciosa enquanto ela devorava o salmão e o arroz, vendo as cores voltarem às bochechas dela. Ele sentiu o coração ser esmagado por aquela paixão descontrolada que vinha guardando há anos. Ver Hana ali, em seu domínio, comendo a comida que ele mesmo preparara, trazia uma sensação de posse e proteção que nenhum acordo de máfia jamais conseguiria igualar. Ele daria cada uma de suas refeições, seu império e sua vida para garantir que ela nunca mais sentisse a fome ou a dor do abandono. Naquele momento, em meio ao vapor da sopa de missô e ao brilho do sol de Chicago que começava a iluminar a cobertura, houve uma trégua. Uma ponte de arroz e salmão havia sido construída sobre o abismo de ódio, e embora a guerra estivesse longe de terminar, Kenji soube que havia vencido a primeira batalha pelo coração de sua Kitsune. Nota da Autora: O amor não se manifesta apenas em grandes gestos heroicos, às vezes ele reside no silêncio de uma cozinha ao amanhecer e no cuidado de preparar um prato que a pessoa amada possa aceitar. Hana ainda odeia o "marido substituto", mas seu corpo começou a reconhecer a segurança que o cuidado de Kenji proporciona. A trégua é frágil, mas o sabor da comida dele será a primeira lembrança que ela não conseguirá apagar.
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