A Sombra da Dúvida.

1426 Words
O trajeto de volta para a cobertura foi uma descida lenta aos infernos. O motor do carro esportivo rugia pelas ruas de Chicago, mas dentro da cabine, o silêncio era tão denso que parecia palpável. Kenji mantinha os olhos fixos na estrada, as mãos apertando o volante com uma força que tornava os nós de seus dedos brancos como cal. A raiva dele não era explosiva; era gélida, profunda e vibrante. Hana, sentada ao lado dele, sentia a eletricidade estática da fúria dele arrepiar os pelos de seus braços. Ela sabia que havia cruzado uma linha perigosa. Durante o evento beneficente, ela transformou cada conversa em uma adaga, cada brinde em um veneno. Ela humilhou a posição de Kenji como Oyabun, zombou da ausência de Haru e pintou o marido como um usurpador diante da elite de Chicago. O público não reagiu com risos ou julgamentos abertos; o medo que Kenji inspirava era um escudo poderoso demais para que alguém ousasse se intrometer. Todos sabiam que Kenji Sato mataria um homem por um milésimo daquelas ofensas, mas, milagrosamente, Hana continuava respirando. Hana não se arrependia. Em sua mente, o sofrimento dela justificava qualquer crueldade. Se ela estava presa em um contrato de sangue, ele também estaria preso em um casamento de espinhos. Assim que o carro parou na garagem privativa, Kenji saiu sem olhar para trás. Ele não bateu a porta; ele simplesmente a fechou com uma calma aterrorizante e seguiu diretamente para o escritório. Hana entendeu a mensagem: o limite havia sido atingido. Ela subiu para o quarto, sentindo o vazio daquela fortaleza de vidro. Retirou o vestido de seda azul, que agora parecia uma armadura pesada demais, desfez o penteado e deixou que as joias de safira caíssem sobre a penteadeira com um tilintar melancólico. Após um banho demorado, onde tentou lavar o cheiro do evento e a sensação do olhar de Kenji sobre si, ela se deitou. Seu estômago reclamava, a fome de dois dias voltando a incomodar, mas a ideia de descer e encontrar Kenji, ou Yuri, era insuportável. Preferiu a fome ao confronto. Pegou o celular, a tela brilhando na penumbra do quarto. Abriu as mensagens de Haru. Uma trilha de textos não lidos, perguntas sem resposta, súplicas que agora pareciam patéticas. Onde você está? Por que me deixou? Nenhuma visualização. O vácuo digital era a confirmação de sua solidão. Com esses pensamentos amargos, ela acabou mergulhando em um sono inquieto. Seus sonhos foram uma tapeçaria de "e se". Sonhou com o altar que deveria ter sido, com o sorriso fácil de Haru e com a vida que ela planejou. Mas, no sonho, as flores brancas do casamento apodreciam conforme Haru se aproximava, transformando-se em corvos que voavam para longe, deixando-a sozinha sob uma chuva de cinzas. Acordou no dia seguinte, sentindo-se mais exausta do que quando se deitou. A mente estava turva, pesada pelo cansaço mental de quem luta contra moinhos de vento. A fome finalmente venceu a hesitação. Hana tomou um banho rápido, vestiu uma calça de linho e uma blusa de seda confortável e desceu as escadas. O aroma de café fresco e pães quentes a guiava. No entanto, ao entrar na cozinha, parou bruscamente. Kenji não estava sozinho. Sentada à mesa, elegantemente vestida e segurando uma xícara de porcelana, estava sua tia Beatriz. Kenji terminava de colocar uma travessa de frutas na mesa, movendo-se com a precisão habitual, mas com uma rigidez que Hana reconheceu como o rescaldo da raiva do dia anterior. Hana cumprimentou a tia com um aceno seco, mas evitou o olhar de Kenji. Ela se sentou ao lado dele, não por desejo, mas porque era o único lugar posto. O silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelo som dos talheres. — Vou deixar vocês a sós — Kenji anunciou. Sua voz estava plana, sem emoção, como se ele estivesse falando com um subordinado qualquer. Ele se levantou e saiu da cozinha sem lançar um único olhar para Hana. Ela revirou os olhos, soltando um suspiro de irritação. Cada ação dele a incomodava: a perfeição da comida, a cortesia fria, o martírio silencioso. — Eu soube do evento de ontem, Hana. O que deu em você? — A voz de Beatriz não era doce; era carregada de uma preocupação severa que fez Hana parar com o garfo no ar. — Eu disse que não vou aceitar isso, tia. Ele não é o Haru. Não deveríamos estar casados e eu não vou fingir que este é um conto de fadas para o prazer dos convidados do papai — Hana respondeu, dando de ombros, sua teimosia servindo de escudo. — E você acha que consegue mudar sua realidade envergonhando e desprezando seu marido em público? — Beatriz inclinou-se para frente, os olhos fixos na sobrinha. — Sabe o que ouvi das pessoas sobre você hoje pela manhã? Que você é uma louca, uma ingrata e que está completamente fora de si. Você está destruindo sua própria reputação, não a dele. Hana sentiu o sangue subir às faces. — Eu não me importo com o que os amigos mafiosos dele pensam de mim. — Deveria se importar. Porque Kenji só assumiu o altar porque o irmão dele, o "seu amado Haru", não apareceu. Ele limpou a bagunça para que você não fosse humilhada diante de todo o submundo de Chicago. Por que você fecha os olhos para as irresponsabilidades de Haru dessa forma? — A voz de Beatriz subiu de tom, a irritação transbordando. — O que me garante que não foi ele que orquestrou esse sumiço, tia? — Hana rebateu, a voz vibrando de convicção. — Kenji é audacioso, um estrategista frio. Ele é um monstro sem coração, ele faria isso sem pensar duas vezes para tomar o poder do pai e a noiva do irmão. É a cara dele. O silêncio que se seguiu foi cortante. Beatriz bateu na mesa com força, fazendo as xícaras saltarem. — Você ainda age como uma menina apaixonada e cega, Hana! — Beatriz exclamou, sua paciência esgotada. — Você é uma mulher adulta, uma gênia da tecnologia, mas está descendo de nível porque não consegue aceitar o que está bem na sua frente. Haru não é quem você pensa. Faça como quiser, continue tratando o Kenji como um lixo, mas quando a verdade vier à tona, não vá chorar pelas suas atitudes infantis. Você tem a chance de fazer diferente, de construir algo real, mas se quer tanto o Haru... saiba que ele é o único com coragem o suficiente para destruir você sem remorsos e de uma só vez. Beatriz levantou-se, pegou sua bolsa e saiu da cozinha com passos pesados. O som da porta da frente batendo ecoou pela cobertura, deixando Hana sozinha com o eco das palavras da tia. Ela ficou ali, olhando para a comida que Kenji preparou, cada detalhe pensado para não agredir seu paladar sensível. Ela estava perdida. O mundo parecia estar em um complô para transformar Kenji em herói e Haru em vilão, mas seu coração se recusava a aceitar. As pessoas falavam de verdade, mas ninguém lhe entregava provas. A tia Beatriz disse que Haru a destruiria sem remorsos. Mas como? O Haru que ela conhecia era doce, atencioso e compartilhava seus planos de fuga. Kenji era o único que lucrava com aquela união. No entanto, a semente da dúvida, plantada pela agressividade da tia, começou a germinar. "Se eles querem a verdade, eu vou encontrá-la", Hana pensou, os olhos verdes brilhando com uma determinação perigosa. Ela decidiu naquele momento que, antes de continuar seu plano de desprezar Kenji até que ele a libertasse, ela usaria suas habilidades. Ela iria atrás do rastro digital de Haru. Iria provar para Beatriz, para Kenji e para toda a sua família que Haru não era o irresponsável que eles pintavam. Se houvesse uma conspiração, ela a hackearia até que cada mentira caísse por terra. O que ela não sabia era que, ao abrir aquela caixa de Pandora, ela encontraria segredos que transformariam seu ódio por Kenji em algo muito mais complexo e doloroso: o peso da culpa por ter ferido o único homem que realmente sangrou por ela. Nota da Autora: Hana está isolada em sua própria narrativa de negação, e a tia Beatriz serve como a voz brutal da realidade que ela se recusa a ouvir. O conflito agora se torna uma investigação. Enquanto Kenji sofre em silêncio, Hana começa a cavar a própria cova emocional ao buscar uma "verdade" que pode ser seu fim. A Fortaleza de Vidro nunca pareceu tão frágil.
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