O Labirinto de Vidro.

1294 Words
A luz azulada dos monitores era a única coisa que mantinha Hana, agora operando sob o codinome CIPHER, ancorada à realidade. Fazia três dias que ela havia se transformado em um fantasma dentro da própria cobertura. O luxuoso escritório que Kenji preparou tornou-se sua cela e seu trono. Ela m*l saía para as necessidades básicas; a comida, muitas vezes levada por Yuri ou deixada na porta por Kenji, esfriava antes que ela se lembrasse de dar a primeira garfada. Sua mente era um processador em chamas. Ela estava mergulhada em camadas profundas de transações bancárias criptografadas, rastreando sinais que Haru deixou para trás como migalhas de pão digitais. No entanto, quanto mais ela cavava, mais os dados pareciam sussurrar algo que ela não queria ouvir. A obsessão pela verdade tornou-se uma droga, e Hana estava em plena overdose. A poucos metros dali, no escritório principal, Kenji Sato vivia seu próprio tipo de isolamento. Ele havia reduzido suas saídas ao mínimo absoluto. O submundo de Chicago murmurava sobre a ausência do Oyabun, mas Kenji pouco se importava com os boatos. Ele sentia a necessidade visceral de estar perto dela, de garantir que o ar que ela respirava era seguro, mesmo que ela passasse horas trancada atrás de portas duplas. Batidas rítmicas soaram na porta de Kenji. Yuri entrou, sua postura impecável, mas com um vinco de preocupação na testa que raramente mostrava. — Não, Yuri. Você recusou, certo? — Kenji disparou antes mesmo que o conselheiro pudesse abrir a boca. Ele conhecia aquela expressão. Geralmente significava que o problema vinha de dentro da família Sato. — Não consegui recusar, senhor — Yuri respondeu, aproximando-se da mesa com passos medidos. — Eles o convocaram. O tom não foi de convite, foi de ordem. Disseram que, se o senhor não comparecesse à propriedade deles neste fim de semana, eles viriam para cá e passariam uma semana inteira instalados na sua cobertura. Kenji soltou um suspiro irritado que beirava um rosnado. Seus pais eram os únicos seres humanos no planeta que sabiam como dobrar sua vontade através da insistência puramente irritante. Ele imaginou a mãe criticando a decoração e o pai questionando cada movimento de seus negócios por sete dias seguidos. — Merda. O que sugere que eu faça? — Kenji perguntou, embora a resposta já estivesse flutuando no ar entre eles. — A menos que o senhor deseje transformar esta cobertura em um campo de batalha familiar por uma semana, sugiro que faça o que pediram — Yuri disse, mantendo a voz profissional. — E eles foram bem claros sobre a necessidade irrevogável da presença da "Senhora da Yakuza". Disseram que, se o senhor aparecer sem Hana, será considerado uma afronta pessoal à linhagem Sato. Kenji fechou os punhos sobre a mesa de carvalho. Ele sabia o que aquilo significava. Seus pais queriam inspecionar o "troféu". Queriam ver se a herdeira dos Moretti era digna do nome Sato ou se Kenji havia cometido um erro estratégico ao aceitar a substituição. — Tudo bem, Yuri. Preciso conversar com Hana primeiro. Se ela não estiver em condições, enfrentarei meus pais sozinho, mesmo que isso custe minha sanidade. — Sim, senhor. Esperarei para confirmar a presença. Kenji levantou-se, sentindo o peso das responsabilidades esmagar seus ombros. Ele saiu de seu escritório e caminhou pelo corredor silencioso. Parou diante da porta de Hana, hesitando por um momento. Ele odiava interrompê-la, respeitava o santuário que ela havia criado, mas a urgência da situação não permitia atrasos. Bateu devagar, o som ecoando suavemente. A porta se abriu lentamente, revelando uma Hana que Kenji m*l reconheceu. Ela parecia um reflexo pálido da mulher vibrante de poucos dias atrás. Sua pele, normalmente cor de porcelana, estava translúcida, e olheiras profundas marcavam seus olhos verdes, que pareciam fundos demais sob a luz do corredor. O cansaço dela não era apenas físico; era mental, uma exaustão que atingia a alma. — Se continuar assim, vai acabar adoecendo, Kitsune — Kenji disse, sua voz perdendo toda a rigidez e transformando-se em pura preocupação. — Você precisa parar. O mundo digital não vai fugir se você fechar os olhos por algumas horas. Hana bocejou, um gesto pequeno que revelava o quanto ela estava no limite. — Estou tão perto, Kenji... acabei ficando obcecada. Eu não tinha intenção de parar agora, mas os códigos começaram a dançar na minha frente. Kenji sentiu um aperto no peito ao vê-la tão vulnerável. Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — Meus pais me convocaram para uma visita — ele explicou, tentando manter o tom calmo. — Eles exigiram a nossa presença. Se eu me recusar, eles virão para cá e ficarão por uma semana. E, acredite em mim, conviver sete dias com eles na mesma cobertura é uma experiência insuportável. Para surpresa de Kenji, Hana deu um leve sorriso. Foi um vislumbre de humanidade em meio ao cansaço, e Kenji sentiu seu coração errar uma batida. — Claro... eu vou com você — ela respondeu, sua voz soando frágil. — Não precisa se preocupar com isso. Eu posso fazer o papel da noiva perfeita por algumas horas se isso nos poupar de uma invasão. Ela deu um passo à frente, fechando a porta do escritório atrás de si, como se estivesse encerrando um capítulo. — Agora eu preciso ir para a cama. Com certeza não aguento mais nem dez minutos acordada. Hana começou a caminhar em direção ao quarto, mas seus movimentos eram instáveis. No terceiro passo, suas pernas, enfraquecidas pela falta de sono e alimentação adequada, simplesmente falharam. Ela cambaleou, o mundo girando em um borrão de luz e sombra. Antes que seus joelhos atingissem o chão, os braços fortes de Kenji a envolveram. Ele a segurou com uma agilidade impressionante, suspendendo-a em seu colo com uma facilidade que deixou Hana atordoada. Ela pensou em reclamar, em dizer que podia andar sozinha, mas o calor que emanava do corpo de Kenji e a segurança de seus braços eram tentações fortes demais para sua mente exausta. Ela apenas encostou a cabeça no ombro dele, fechando os olhos e deixando-se levar. Kenji a carregou pelo corredor como se ela fosse feita de cristal precioso. Ele entrou no quarto de casal, onde a penumbra convidava ao repouso, e a colocou cuidadosamente sobre a cama grande. Retirou seus sapatos com delicadeza e a cobriu com o edredom de seda, garantindo que ela estivesse aquecida. Ele não se afastou imediatamente. Ficou ali, sentado à beira da cama, observando o rosto dela suavizar conforme o sono a reivindicava. Ele estendeu a mão e acariciou levemente os cabelos ruivos de Hana, afastando uma mecha que caía sobre seus olhos. — Durma, Kitsune — ele sussurrou. Hana, já na fronteira entre a consciência e o sonho, sentiu o toque dele. Era um toque que não exigia nada, que não pedia poder ou submissão. Era apenas... cuidado. Naquele breve momento de semi-lucidez, ela se permitiu questionar tudo o que acreditava. Por que o monstro está sendo o homem mais cuidadoso que já conheci? — o pensamento flutuou em sua mente antes de sumir na escuridão do sono profundo. Kenji permaneceu ali por mais algum tempo, guardando o sono da mulher que ele amava em segredo, enquanto lá fora, o mundo da Yakuza continuava sua rota de violência. Mas, dentro daquele quarto, a única coisa que importava era a respiração compassada de Hana e a promessa silenciosa de Kenji de que, não importa o que ela descobrisse em suas telas, ele estaria lá para segurá-la quando ela caísse. A visita aos pais de Kenji seria um desafio, mas, pela primeira vez, Hana não parecia mais uma prisioneira lutando contra seu captor. Ela era uma aliada em busca de descanso, e Kenji era, surpreendentemente, o seu porto seguro.
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