O Altar das Sombras.

1733 Words
O cetim branco do vestido de noiva deslizava sobre a pele de Hana Moretti como uma carícia fria, mas ela m*l sentia a temperatura. Para ela, o mundo estava em chamas, um incêndio de euforia e expectativa que a consumia desde o despertar. O vestido, uma obra-prima de seda pura com uma cauda que se arrastava por metros como uma nuvem de neve sobre o mármore, era a materialização de um sonho. Ele abraçava suas curvas com uma delicadeza que contrastava com a ousadia latente em seus olhos verdes. Hana era uma visão: a "Princesa de Chicago", prestes a selar o destino que acreditava ter escolhido. Seu coração era um tambor frenético. O sorriso que iluminava seu rosto, de orelha a orelha, parecia imune a qualquer lógica. Dois dias. Eram dois dias sem uma única palavra de Haru Sato. Nenhuma mensagem visualizada, nenhuma ligação retornada, nenhum buquê de flores de "última hora" para acalmar os nervos da noiva. Não havia cartas, nem presentes, nem o menor sinal de vida. Para qualquer outra mulher, o silêncio seria um presságio de desastre. Para Hana, era apenas o "jeito Haru" de ser: caótico, impulsivo, talvez apavorado com a magnitude do compromisso. Ela o perdoava antecipadamente. Ela o amava o suficiente pelos dois, ou assim pensava, enquanto ajustava o véu de renda que caía sobre seu rosto como uma névoa matinal. Nada, absolutamente nada, abalaria sua estrutura naquele dia. Entretanto, do outro lado da imponente Mansão Moretti, a realidade não era feita de seda, mas de aço e pólvora. No escritório privado de Lorenzo Moretti, o ar era tão denso que parecia possível cortá-lo com uma lâmina. A luz que filtrava pelas persianas de madeira desenhava listras de sombra e ouro sobre o tapete persa. Lorenzo, o patriarca Moretti, estava parado diante de sua mesa, as veias do pescoço saltadas, o rosto vermelho de uma fúria que ameaçava explodir as paredes daquele cômodo. Diante dele, imóvel como uma estátua de granito, estava Kenji Sato. — Está me dizendo que Haru sumiu? — O grito de Lorenzo não foi apenas um som; foi um golpe. — Justo no dia do casamento? No dia em que nossas famílias devem se tornar uma só perante a cidade e o submundo? A raiva de Lorenzo era palpável, um calor opressor que Kenji absorvia sem piscar. Kenji estava impecável em um terno preto de corte sob medida, a coluna ereta, as mãos cruzadas atrás das costas. Por dentro, o Oyabun da Yakuza sentia o peso de mil ancestrais sobre seus ombros. — Sinto muito, senhor Moretti — a voz de Kenji era um barítono estável, desprovido de qualquer tremor. — Eu não imaginei que a covardia de meu irmão o levaria a não retornar. Recebi a notícia de seu paradeiro incerto hoje de manhã. Ele falhou com o clã. Ele falhou com a honra. — Honra? — Lorenzo riu, um som seco e perigoso. — Você fala de honra enquanto minha filha está lá em cima, vestida de branco, esperando por um homem que provavelmente está enterrado em algum prostíbulo ou cassino clandestino? O acordo exigia um herdeiro Sato no altar, Kenji. Se não houver casamento, haverá guerra. E a reputação de Hana será o primeiro cadáver dessa guerra. Kenji deu um passo à frente. O movimento foi lento, predatório. — Eu vou assumir a responsabilidade — afirmou Kenji, os olhos fixos nos de Lorenzo. — A reputação das famílias não será manchada. O nome Sato cumprirá sua promessa. Lorenzo franziu o cenho, o silêncio se arrastando por segundos eternos. — E como pretende fazer isso, Kenji? — perguntou o Moretti com um sarcasmo ácido. — Por acaso vai se casar com minha filha no lugar do seu irmão? Kenji não respondeu com palavras. Ele apenas inclinou a cabeça, um assentimento solene e definitivo. O choque paralisou Lorenzo. Ele esperava uma solução logística, uma desculpa diplomática, um adiamento. Mas a proposta silenciosa de Kenji era um absurdo magnífico. Kenji Sato, o temido Don de Chicago, o homem que evitava laços emocionais como se fossem veneno, estava se oferecendo para o altar. — Você entende o que isso significa? — Lorenzo baixou o tom, a incredulidade suavizando sua raiva. — Hana espera o Haru. Ela ama o Haru. — Eu sei o que ela sente — Kenji respondeu, e por um breve instante, uma sombra de dor cruzou seu olhar de aço antes de ser sufocada pela disciplina. — Mas entre permitir que ela enfrente a humilhação pública e a vergonha de ser abandonada, e fazê-la me odiar pelo resto da vida... eu escolho o ódio dela. Eu a protegerei da vergonha, senhor. É uma promessa de sangue. Lorenzo respirou fundo. Acordos eram a base de seu império. Ele não podia permitir que o nome Moretti fosse motivo de riso nas mesas de apostas da cidade. — Faça o que tiver que fazer, Kenji. Mas não manche a reputação de Hana. Não permita que ela seja envergonhada pela irresponsabilidade daquele moleque. O pai de Hana saiu do quarto batendo a porta, o som ecoando como um tiro de misericórdia. Kenji permaneceu ali, sozinho, perdido em um redemoinho de pensamentos. Ele olhou para suas mãos, as palmas suando levemente, um nervosismo que ele nunca experimentou em dez anos liderando operações da Yakuza. O pensamento de finalmente possuir a mulher que amava em segredo era uma mistura tóxica de êxtase e agonia. Aquilo era errado. Ela merecia o "amor" que imaginava ter com Haru, mas Haru não passava de uma miragem. Kenji caminhou até a janela. Lá fora, o jardim da mansão estava transformado em um cenário de contos de fadas. Convidados em trajes de gala sorriam, champanhe fluía, e a orquestra começava a afinar os instrumentos. Era uma cena de harmonia perfeita que camuflava a podridão de um contrato de máfia. — Os convidados esperam, senhor — uma voz grave veio da porta. Era Yuri, seu conselheiro e amigo mais fiel. — Tem certeza de que quer realmente seguir com isso? Não há volta depois que o véu for levantado. Kenji respirou o ar frio de Chicago que entrava pela fresta da janela. — Tenho, Yuri. Não há outra saída. Vamos. Os passos de Kenji pelo corredor até o jardim pareciam pesar toneladas. A cada metro que se aproximava do altar, o coração de Kenji aumentava as batidas, martelando contra as costelas com uma força que o terno italiano m*l conseguia esconder. Ele assumiu sua posição no altar, imóvel, uma silhueta de escuridão sob o sol da tarde. Para quem olhasse de longe, ele parecia o noivo perfeito, mas para ele, cada segundo era um roubo, ele estava roubando o lugar do irmão, mas também estava salvando o que restava da inocência dela. E então, a música mudou. As portas da mansão se abriram e Hana surgiu. De longe, envolta pelo véu de renda, ela era uma mancha branca de esperança. Ela caminhava com leveza, o sorriso ainda vibrante por trás do tecido fino. A visão dela era pouco nítida através da renda; ela via apenas a silhueta alta e escura no altar. O porte físico era semelhante, a altura era a mesma. Em sua mente cega pelo amor, aquele era Haru. Seu Haru. Hana subiu os degraus do altar com o coração batendo descompassado. Ela sentia o perfume do ambiente, flores, incenso e algo amadeirado que parecia mais intenso do que o habitual. A cerimônia correu em um borrão. As palavras do celebrante eram apenas um ruído de fundo enquanto ela focava na figura ao seu lado. Ela m*l podia esperar pelo momento do beijo, o ato que selaria sua vida com o homem que ela amava desde a juventude. Kenji mantinha o olhar fixo à frente, a mandíbula tão tensa que chegava a doer. Ele ouviu o "sim" de Hana, um som doce, cheio de uma confiança que o estraçalhava por dentro. Quando chegou a sua vez, sua voz saiu profunda e cortante: — Aceito. Hana sentiu um arrepio. A voz de Haru parecia mais... grave? Mais firme? Ela atribuiu isso à emoção do momento. Então, o celebrante pronunciou as palavras finais. O momento do beijo. Kenji moveu as mãos devagar. Ele sentiu a textura da renda sob seus dedos enquanto levantava o véu de Hana com uma solenidade quase religiosa. Conforme o tecido subia, o rosto dela era revelado centímetro a centímetro. O sorriso de Hana era radiante... até que o véu ultrapassou a linha de seus olhos. No instante em que a visão dela ficou nítida, o sorriso morreu. Hana paralisou. O brilho em seus olhos verdes se apagou, substituído por um choque tão profundo que ela pareceu esquecer como respirar. Não era Haru. Diante dela, com um olhar de uma tristeza gélida e uma possessividade implacável, estava Kenji. O irmão mais velho. O Don. O homem que ela sempre temeu e respeitou, mas nunca imaginou em seus sonhos mais íntimos como marido. O mundo ao redor de Hana se desmoronou. O silêncio que se seguiu para ela foi absoluto, embora os convidados estivessem prontos para aplaudir. Ela sentiu seu coração se despedaçar, as peças caindo como vidro moído em seu estômago. Kenji viu o momento exato em que a luz saiu dela. Ele viu o ódio nascer nas fendas de suas pupilas. Com uma calma forçada, ele a segurou pelos ombros. Ele não a beijou na boca, não queria ultrapassar aquele limite, não naquele momento de traição visual. Kenji a inclinou levemente, virando o corpo dela de modo que os convidados vissem apenas o gesto, mas não o ponto de contato. Ele encostou os lábios levemente na bochecha dela, perto da orelha, em um gesto de respeito sombrio. — Respire, Kitsune — ele sussurrou, apenas para que ela ouvisse. — Sorria para as câmeras. A honra da sua família depende desse sorriso. Hana estava gélida, uma estátua de mármore em seus braços. Ali, sob o céu azul de Chicago e diante de duas famílias criminosas, a Aliança de Sangue foi selada. O Oyabun da Yakuza havia tomado o seu prêmio, mas ele sabia que a guerra real não seria contra facções rivais, mas contra o coração da mulher que agora levava o seu nome. Nota da Autora: O casamento é o fim de uma ilusão, mas o início de uma possessão. Kenji Sato escolheu ser o vilão para salvá-la, mas o preço pode ser a própria alma de Hana.
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