O Cálice de Ferro.

1577 Words
O quarto de vestir da Mansão Moretti, que horas antes transbordava uma aura de contos de fadas, agora parecia uma câmara fria de interrogatório. Hana caminhava de um lado para o outro, o cetim de seu vestido de noiva sibilando contra o chão como uma serpente furiosa. Cada vez que ela passava diante do espelho, a visão daquela mulher vestida de branco a repelia. Ela se sentia uma fraude, uma mercadoria trocada em um balcão de negócios escuros. Onde estava Haru? A pergunta martelava em sua mente, um eco doloroso que não encontrava resposta. Por que ele a deixaria ali? Por que permitiria que seu irmão, o homem que exalava o gelo da morte, tomasse o seu lugar? Seu coração estava quebrado em milhões de pedaços, as arestas cortantes perfurando qualquer resquício de esperança que ela ainda tentava guardar. O dia que deveria ser o ápice de sua felicidade havia se tornado o epicentro de sua ruína. A porta se abriu suavemente e Bianca entrou. A mãe de Hana tinha o rosto pálido, a elegância habitual levemente abalada pelo choque do que acabara de presenciar no altar. — Querida... tudo bem? — A voz de Bianca era um sussurro cauteloso, como se temesse que qualquer som mais alto pudesse estilhaçar a filha de vez. Hana parou de caminhar e se virou. Seus olhos verdes estavam marejados, a maquiagem impecável ameaçando ceder ao peso das lágrimas que ela lutava para não derramar. — Mãe, o que aconteceu? Onde está o Haru? Por que eu me casei com o irmão dele? — As palavras saíram atropeladas, carregadas de uma desolação que partia o coração de Bianca. A mãe se aproximou, segurando as mãos geladas da filha. — Eu não sei, Hana. Sinceramente, eu não sei. Seu pai entrou naquele escritório para conversar com o Kenji e saiu com essa decisão tomada. Ele não me disse uma única palavra. Os noivos simplesmente foram trocados como se fossem peças de um jogo de xadrez. — Eu não vou voltar lá, mãe! — Hana puxou as mãos, a raiva finalmente superando a dor. — Eu não quero esse casamento! Kenji Sato nunca será meu marido. Eu o odeio com cada fibra do meu ser. Ele é frio, ele é calculista... ele não é o Haru! Eu não posso ser a esposa de um monstro. Antes que Bianca pudesse oferecer qualquer consolo, a porta do quarto foi escancarada com tamanha força que o baque ecoou como um trovão. Lorenzo Moretti entrou no recinto, o rosto transfigurado pela fúria. Ele não parecia um pai vindo consolar a filha; parecia um general vindo punir um soldado desertor. — O que pensam que estão fazendo aqui dentro? — Lorenzo gritou, a voz vibrando de uma autoridade inquestionável. — Os convidados estão esperando lá fora há quase meia hora! Vocês acham que isso aqui é um circo? Acham que podem fazer o que querem em um dia como este? Hana não recuou. O fogo ruivo de seu temperamento se acendeu diante do pai. — Eu não quero voltar, pai! Não sei o que o Kenji disse para virar sua cabeça, mas eu não vou continuar casada com ele. Vou esperar pelo Haru. Ele é meu noivo. É ele quem eu amo! Lorenzo deu um passo à frente, os olhos faiscando. — E por que, em sua infinita ingenuidade, você não consegue conceber que quem nos traiu foi o seu noivo irresponsável, e não o Kenji? — O pai rebateu, a voz carregada de um desdém amargo. — Haru sumiu, Hana! Ele nos deixou para limpar a bagunça dele. Kenji foi o único homem naquela família com honra suficiente para garantir que o seu nome não fosse arrastado na lama hoje. — Haru pode ter seus defeitos, mas ele nunca faria isso! — Hana gritou de volta, embora uma parte profunda de sua mente começasse a tremer diante da lógica c***l do pai. — Eu o amo, e não vou ser a esposa do Kenji. Nunca! — CHEGA! O grito de Lorenzo silenciou o quarto. Ele respirou fundo, tentando conter a vontade de sacudir a filha. — O erro foi meu em ter mimado você demais, Hana. Eu permiti que você acreditasse que a vida era um romance barato, mas hoje a realidade bateu à porta. Eu vou dizer exatamente o que você vai fazer e você vai seguir minhas instruções sem reclamar. Isso é uma questão de honra. É uma promessa. É uma aliança de sangue que não pode ser quebrada sem que corpos comecem a cair. Lorenzo se aproximou, sua sombra cobrindo a filha. — Retoque essa maquiagem agora. Volte para aquela festa e siga sua vida casada com o Kenji. Ele é seu marido e ponto final. Não há volta, não há anulação. Depois, se você quiser ir atrás da verdade sobre o seu precioso Haru, vá. Mas não ouse desonrar este casamento na frente daqueles homens. Se você se desfizer desse compromisso, eu mesmo serei capaz de acabar com cada rastro de felicidade que você ainda pensa que tem. Pare de agir como uma criança mimada. Você agora é a Senhora da Yakuza. Comporte-se como tal. Hana sentiu o peso das palavras do pai como se fossem correntes de ferro. Ela olhou para a mãe, buscando algum apoio, mas Bianca desviou o olhar, a aceitação silenciosa gravada em seu rosto. Hana percebeu, então, que estava sozinha. Minutos depois, Hana estava sentada à mesa de honra, sob o brilho opressor dos lustres do salão principal. Ao seu lado, Kenji Sato permanecia como uma presença silenciosa e onipresente. O salão estava repleto; a elite de Chicago misturava-se aos soldados de alto escalão do clã Sato. Hana forçava um sorriso plástico, uma máscara de porcelana que ela sentia que poderia rachar a qualquer momento. Ela tentava projetar a imagem da noiva feliz, imaginando desesperadamente que o homem ao seu lado era Haru, mas o cheiro amadeirado e a aura de poder absoluto que Kenji exalava tornavam a ilusão impossível. Ela lutava contra o choro. Recusava-se a ser vista como fraca, especialmente diante de Kenji. Ela sentia o olhar dele sobre ela, um peso constante que a fazia querer gritar. — Não vai comer? — A voz grave dele, como o som de pedras deslizando sobre veludo, quebrou o transe de Hana. Ela olhou para ele por um breve segundo antes de desviar o olhar para o prato à sua frente. Era uma iguaria francesa sofisticada, coberta por um molho denso e guarnecida com vegetais de texturas que a faziam sentir náuseas só de observar. Para Hana, que sempre lutou com uma sensibilidade sensorial aguçada, aquela comida era um campo minado de sensações desagradáveis. Ela fez uma careta quase imperceptível. — Não gostei muito — respondeu, a voz curta e seca, tentando encerrar o assunto. Kenji não insistiu. Ele observou o modo como ela apertava os talheres, os nós dos dedos brancos. Ele percebeu o desconforto dela não apenas com a situação, mas com o prato à sua frente. Sem dizer uma palavra, ele estendeu um cálice de cerâmica escura, adornado com detalhes em prata que pareciam antigos. Era visivelmente diferente das taças de cristal fino que os outros convidados usavam. — Beba um pouco — ele ordenou suavemente. Hana hesitou. Notou que apenas os homens sentados nas mesas mais próximas ao altar, aqueles que portavam tatuagens discretas no pescoço ou nas mãos, possuíam cálices semelhantes. Era um símbolo de status dentro do clã. Sem energia para lutar, ela aceitou o cálice. O líquido era um saquê de alta qualidade, quente e reconfortante, que desceu queimando suavemente sua garganta e acalmando um pouco o tremor em suas mãos. — Obrigada — murmurou, sem olhá-lo. Quando Hana levantou o olhar para observar o salão, o ar pareceu fugir de seus pulmões. Como se fosse um movimento coreografado, cada homem que portava um daqueles cálices especiais levantou-se ou inclinou levemente a cabeça em sua direção. Era um gesto de respeito ancestral, um reconhecimento de sua nova posição. Eles não estavam apenas cumprimentando a noiva de Kenji; estavam jurando lealdade à sua nova soberana. Naquele momento, a ficha caiu com o peso de uma montanha. O reconhecimento silencioso daqueles soldados, a autoridade inquestionável de Kenji ao seu lado e o peso do cálice em sua mão confirmavam a sentença. Hana Moretti não existia mais. Agora, ela era parte da engrenagem da Yakuza. O casamento era irrevogável. A gaiola de ouro havia se fechado, e a chave estava nas mãos do homem que ela jurara odiar para sempre. Kenji a observou pelo canto do olho, percebendo a percepção dela. Ele viu o momento em que os ombros dela caíram levemente, aceitando o fardo. Ele queria dizer que o Haru não valia uma única lágrima dela, mas sabia que, se falasse, ela o atacaria. Por enquanto, o silêncio e o saquê quente seriam sua única forma de proteção. A festa continuou, uma celebração de uma aliança forjada na traição de um irmão e no sacrifício de um Don. Nota da Autora: O ódio é um combustível poderoso, mas em um mundo de alianças de sangue, ele pode ser a única coisa que mantém Hana viva. Kenji sabe disso. Lorenzo sabe disso. A festa é apenas o começo da guerra fria que será o lar deles a partir de agora. O Cálice de Ferro não é apenas uma bebida, é a aceitação de um destino que Hana nunca pediu, mas que agora a define.
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