A Fortaleza de Vidro.

1543 Words
O silêncio dentro do carro blindado era mais pesado do que o metal que os protegia. Kenji Sato mantinha as mãos firmes no volante, os olhos fixos na estrada úmida de Chicago, mas sua mente era um campo de batalha. Pelo canto do olho, ele observava Hana. Ela estava sentada o mais longe possível dele, encostada na porta, observando as luzes da cidade passarem como borrões de neon. Kenji sentia a tristeza dela emanar como uma névoa gélida. Ele a conhecia desde sempre, e vê-la tentar manter aquela fachada de "noiva perfeita" durante a festa fora uma tortura lenta. O sorriso dela era uma máscara amarga; ele via a dor nos cantos de sua boca e o brilho úmido que ela se recusava a deixar escapar dos olhos. Ainda assim, em breves momentos durante a recepção, quando um convidado se aproximava e ela era forçada a segurar seu braço, Kenji sentia uma descarga elétrica percorrer seu corpo. Ele se via torcendo para que mais pessoas surgissem, apenas para que o toque dela, mesmo que falso e forçado, continuasse aquecendo o tecido de seu terno. Ele era o Oyabun, o mestre da estratégia, mas ali, naquele carro, sentia-se um prisioneiro do próprio desejo. Deveria contar a verdade? Deveria explicar que Haru a abandonara por covardia, dívidas e uma completa falta de caráter? Ou deveria permitir que ela despejasse todo o seu ódio sobre ele, servindo de escudo para a imagem do irmão que ela ainda amava? Ambas as opções pareciam venenosas. Quando os portões da residência de Kenji se abriram, o mundo lá fora deixou de existir. O lugar era conhecido no submundo como "A Fortaleza", e não era por menos. A cobertura ocupava os três últimos andares de um arranha-céu moderno, revestida por vidro blindado escurecido e protegida por uma tecnologia de ponta que faria o Pentágono parecer obsoleto. Hana saiu do seu transe. Seus olhos verdes varreram o hall de entrada, os painéis táteis e os sensores biométricos que brilhavam discretamente. As pessoas não exageravam sobre a morada de Kenji. Como uma gênia autodidata da tecnologia, Hana sentiu um lampejo indesejado de admiração. Ela conhecia aqueles sistemas; eram o ápice da engenharia de segurança. Por um segundo, sua mente de "hacker" tentou mapear as brechas da rede, mas o choque da realidade a puxou de volta. Aquela não era uma casa; era uma gaiola de vidro blindado. Kenji desceu do carro e deu a volta para abrir a porta para ela. Ele estendeu a mão, um gesto cavalheiro que buscava uma ponte, mas Hana o ignorou solenemente. Ela desceu sozinha, as costas retas, a cauda do vestido de noiva agora empoeirada pelo asfalto. Kenji ficou ali, com a mão suspensa no ar por um segundo eterno, antes de dar um riso curto e sem humor. Ela era uma raposa ferida, e raposas feridas mordiam. Eles subiram pelo elevador privativo em um silêncio absoluto. Ao entrarem no quarto principal, Hana sentiu o impacto da opulência sóbria. O quarto era vasto, decorado em tons de cinza carvão, preto e madeira escura. Suas coisas já haviam sido transferidas, exceto por uma pequena mala de mão que ela carregava como se fosse um escudo. Sem dizer uma palavra, Hana abriu o zíper da mala. Lá estava ela: a camisola de renda branca, transparente e delicada, que ela havia escolhido com tanto cuidado para Haru. O plano original era seduzir o homem que amava, entregar-se a ele em uma celebração de um futuro que agora estava morto. Um suspiro pesado escapou de seus lábios. Seu pai foi claro: a aliança de sangue estava selada. Ela teria que honrar aquele contrato, mesmo que o beneficiário fosse o homem que ela desprezava. — Vou tomar banho — ela disse, sem olhar para trás. Ela se trancou no banheiro, deixando que a água quente lavasse o cheiro da festa e o toque das mãos de estranhos. Ela usou seus produtos caros, vestiu a calcinha de renda minúscula e a camisola reveladora. Olhou-se no espelho e sentiu uma pontada de náusea. Estava se preparando para um sacrifício. Quando saiu, Kenji já estava lá. Ele havia usado o banheiro de hóspedes e agora vestia um pijama de seda escura, sentado em uma poltrona de couro perto da janela de vidro do chão ao teto. Ele tinha as pernas cruzadas, observando a silhueta de Chicago, parecendo o dono de todo o império que seus olhos podiam alcançar. Hana parou no meio do quarto. O silêncio durou minutos, até que a pressão interna se tornou insuportável. — Por que você fez isso? — A pergunta cortou o ar como uma navalha. Kenji desviou o olhar da cidade para ela. Seus olhos escuros brilharam ao ver a camisola de renda, mas ele manteve a expressão impassível. — O que exatamente eu fiz, Hana? — Não brinque comigo! — Ela deu um passo à frente, o ódio vibrando em cada palavra. — Você tomou um lugar que não era seu. Você se aproveitou da ausência do seu irmão para me prender a você. Não importa quem você seja para o resto do mundo, para mim, você é um usurpador. Eu te odeio, Kenji. E isso nunca vai mudar. Você pode ter o meu nome no papel, pode ter esse contrato de sangue, mas nunca, jamais, terá um grama do meu afeto. Você vai passar o resto da vida ao lado de uma mulher que despreza cada respiração sua. O silêncio que se seguiu foi devastador. Kenji sentiu o golpe. Ouvir aquelas palavras em voz alta era muito pior do que apenas imaginá-las. Seu coração, que ele passara anos tentando transformar em pedra, doeu. Mas ele não se moveu. Hana, em um ato de desespero e rebeldia, levou as mãos às alças da camisola. Com um movimento brusco, ela a deixou cair no chão. Ela ficou ali, quase nua, vestindo apenas a pequena peça de renda preta, os cabelos ruivos emoldurando sua pele clara sob a luz suave do abajur. Ela fechou os olhos, tremendo, sentindo-se exposta diante do "desconhecido" que agora era seu marido. — Tome os seus direitos, Kenji — ela desafiou, a voz embargada. — Faça o que quiser. Cumpra o contrato. Mas saiba que você estará tocando um cadáver emocional. Você nunca será amado por mim. Kenji sentiu o sangue ferver. A visão diante dele era a personificação de todas as suas fantasias proibidas. Hana era magnífica, uma obra de arte de fogo e porcelana, e o desejo que ele sentia por ela era um incêndio incontrolável. Ele queria se levantar, tomá-la em seus braços e mostrar a ela a diferença entre o amor infantil que ela sentia por Haru e a paixão avassaladora que ele guardava no peito. Mas ele não o fez. Ele fechou os olhos devagar, lutando contra seus próprios instintos. Kenji se levantou da poltrona com uma calma que Hana não esperava. Ele caminhou até ela, mas não a tocou da maneira que ela temia. Ele se abaixou, pegou a camisola de seda no chão e, com uma delicadeza quase dolorosa, a vestiu novamente, cobrindo seu corpo. Seus dedos roçaram a pele dela por um segundo, e o choque térmico foi quase insuportável para ambos. Ele segurou a mão dela e a guiou até a cama King Size. — Deite-se — ele disse, a voz rouca. Hana obedeceu, confusa e trêmula. Kenji deitou-se ao lado dela, mas manteve uma distância respeitosa, encarando o teto. — Eu não sei o que você pensa que eu sou, Hana — ele começou, sua voz ecoando no quarto silencioso. — Mas eu não sou um estuprador. Você não será obrigada a ter relações comigo. Eu sei que você se guardou para um momento que imaginava ser especial... e sinto muito que tudo tenha acabado desta forma. Ele fez uma pausa, respirando fundo. — Aqui dentro, atrás desses vidros blindados, você não precisa manter aparências para ninguém. Não precisa sorrir, não precisa fingir. Apenas siga sua vida. Você tem sua liberdade dentro desta casa, contanto que respeite este casamento publicamente e não me envergonhe diante dos meus homens. Fora isso, você pode agir como quiser. Hana ficou imóvel, ouvindo o som da respiração dele. Pela primeira vez em sua vida, ela estava vendo um lado de Kenji que as fofocas da máfia nunca mencionavam. O monstro gélido e impiedoso acabara de lhe conceder uma clemência que ela não esperava. Havia algo naquela nobreza silenciosa que a assustava mais do que a crueldade dele. O Kenji ditador era fácil de odiar. Mas o Kenji que a cobria com cuidado e respeitava seu luto era um perigo muito maior para as defesas que ela construíra. Ela fechou os olhos, o cheiro amadeirado dele invadindo seus sentidos, e percebeu que a fortaleza de vidro não era apenas para protegê-los do mundo lá fora, era para esconder as verdades que começavam a borbulhar entre eles. Nota da Autora: A noite de núpcias não foi marcada pelo toque dos corpos, mas pelo impacto das almas. Hana esperava um carrasco e encontrou um guardião. Kenji Sato é um mestre em muitas coisas, mas sua maior estratégia será sobreviver à tentação de amar uma mulher que jurou odiá-lo. O jogo mudou, e agora as regras são ditadas pelo silêncio da Fortaleza.
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