O Reverso da Moeda

1852 Words
O asfalto sob os pneus do carro de luxo parecia engolir a distância entre a segurança da cobertura e o peso do passado de Kenji. À medida que Chicago ficava para trás, dando lugar a estradas mais arborizadas e estreitas que levavam às propriedades privadas de elite, o ar dentro do veículo tornava-se rarefeito, saturado por um silêncio que não era apenas a ausência de som, mas uma presença ensurdecedora. Hana, sentada no banco do passageiro, observava a paisagem passar como um borrão verde e cinza, mas sua atenção estava, na verdade, focada no homem ao seu lado. Kenji dirigia com uma rigidez que ela ainda não vira. Suas mãos, que antes a carregaram com tanta delicadeza até a cama, agora apertavam o volante com uma força que evidenciava o quanto aquela visita o afetava. Para Hana, observar Kenji tornara-se um novo tipo de vício, uma investigação que ia muito além das telas de seu computador. Nos últimos três dias, submersa em seu santuário tecnológico sob o codinome CIPHER, ela havia quebrado barreiras que Haru acreditava serem impenetráveis. O que ela encontrou não foram apenas números; foram as digitais de uma traição sistemática. Ela viu mensagens enviadas por Haru a terceiros, pedidos de somas vultuosas de dinheiro em nome de Kenji, promessas vazias feitas sob o selo da Yakuza para alimentar vícios que Hana sequer sabia que ele possuía. Mas o que mais a feriu foram os registros das mensagens enviadas de Haru para Kenji. Eram textos carregados de uma crueldade infantil e uma arrogância desmedida. Xingamentos, ameaças de expor segredos de família e uma falta total de respeito pelo homem que, claramente, estava tentando manter a estrutura do clã unida. O Haru que ela conhecia, ou achava que conhecia, jamais falaria daquela forma. A imagem do "cavaleiro doce" estava se desintegrando, pixel por pixel, diante de seus olhos. — Por que você não apagou as mensagens? — Hana questionou subitamente, sua voz quebrando o silêncio do carro. Uma confusão genuína instalara-se em sua mente, nublando sua capacidade de julgamento. Se Kenji fosse o vilão manipulador que ela acreditava, ele teria apagado qualquer rastro que o humanizasse ou que incriminasse o irmão. Kenji não desviou os olhos da estrada, mas o canto de sua mandíbula tremeu levemente. — Não tenho o que esconder, Kitsune. Você disse que buscaria a verdade por conta própria. Se eu não quero que me veja como o monstro que os outros descrevem, eu não deveria esconder algo tão banal quanto as mensagens de Haru. A verdade não precisa de curadoria; ela apenas é. A resposta foi simples, desprovida de qualquer tom defensivo, e foi justamente essa simplicidade que desarmou as últimas estruturas de resistência de Hana. Ela sentiu como se estivesse tentando montar um quebra-cabeça onde as peças que ela possuía, as memórias de Haru, não se encaixavam no tabuleiro da realidade. — Por que não me contou tudo de uma vez? — ela insistiu, virando o corpo para ele, os olhos verdes brilhando com uma urgência dolorosa. — Por que esperar que eu descubra toda a sujeira sozinha, enquanto eu te tratava como se você fosse o culpado por cada desgraça da minha vida? Kenji deu um suspiro curto, um som seco que carregava anos de resignação. — Acaso você confiaria em algo dito por alguém que vê como um monstro, Kitsune? Se eu tivesse te contado sobre as dívidas e a arrogância do Haru na primeira noite, você teria dito que eu estava tentando assassinar o caráter dele para validar o meu lugar na sua cama. Você precisava ver com seus próprios olhos. Hana desviou o olhar para a janela, sentindo o peso daquela lógica. Ela percebeu que, na realidade, nunca dera a ele nenhuma brecha para que a verdade fosse dita. Ela acreditava tanto no amor cego que sentia por Haru, um amor alimentado por promessas de fuga e sonhos de liberdade, que o modo como via o noivo original era totalmente distante da realidade factual. Ela criou um pedestal para um homem que, pelo que os dados mostravam, estava usando o próprio irmão como escudo para sua covardia. Desde o início, ela tratou Kenji como um monstro. Alguém que não merecia sequer um olhar de compaixão. Mas agora, sentada ali, envolta pelo perfume amadeirado dele e sentindo a proteção silenciosa que ele emanava, ela duvidava se o "monstro" era real ou se era apenas uma ilusão conveniente criada pelas pessoas ao seu redor para justificar seus próprios erros. Lembrou-se das palavras de seu pai. Lorenzo Moretti foi explícito ao descrever Kenji Sato como o homem mais violento que já conheceu. "Impiedoso", "feio por dentro", "uma aberração sem alma". Foi assim que Hana foi ensinada a vê-lo. Uma máquina de matar que a Yakuza usava para os trabalhos que exigiam a perda total da humanidade. No entanto, o homem que preparava seu salmão com cuidado, que montou um escritório de alta tecnologia em dois dias e que a carregou no colo quando ela quase desmaiou de exaustão, não se parecia em nada com aquela descrição. Uma faísca de arrependimento, pequena mas persistente, começou a queimar em seu coração. Ela foi injusta. Foi c***l. E, pela primeira vez, a ideia de que ela poderia estar errada sobre tudo o que fundamentava sua vida a deixava em pânico. — Por que odeia tanto a ideia de ir visitar seus pais? — ela perguntou, tentando mudar de assunto para aliviar a pressão em seu peito. Kenji apertou o volante com mais força. Os nós dos dedos brilharam brancos contra a pele. — Você vai ver hoje um lado meu que ninguém conhece, Kitsune. Não espero que tenha pena de mim, mas saiba que aquele lugar... não é uma casa. É um tribunal. Você só precisa aturar isso até o fim do dia. Não precisa sequer conversar com eles se não quiser; eu vou proteger você de qualquer palavra atravessada. Hana sentiu um arrepio na nuca. A forma como ele falava de proteção, como se estivesse se preparando para um combate, era reveladora. — Eu não sou tão frágil quanto você imagina, Kenji. Pela primeira vez, ela pronunciou o nome dele sem o veneno do desprezo. Saiu de forma natural, quase íntima, como se fizesse parte de uma conversa cotidiana entre duas pessoas que compartilhavam mais do que apenas um teto. Kenji sentiu o impacto daquela mudança de tom. Ele relaxou os ombros por um breve instante, absorvendo o som do seu nome saindo dos lábios dela de forma limpa. — Até o momento, qual é a sua certeza sobre tudo o que está acontecendo? — ele perguntou, devolvendo a bola para ela. Ele queria saber se o muro dela ainda era intransponível. Hana pensou por um instante, escolhendo as palavras com o mesmo cuidado com que escolhia um quadro para sua galeria. — Hummm... A única coisa que sei até agora é que talvez você não seja tão abominável como falam por aí. Kenji soltou uma risada amarga, mas sem humor. — Mas eu sou, Hana. Talvez bem pior do que falam nos corredores da máfia. Ela o olhou, confusa. Seus olhos verdes ficaram assustados instantaneamente, buscando o perigo que ele afirmava possuir. — Meu lado humano não é mostrado aos outros, Kitsune. Só você o conhece. Eu só sou assim com você — ele disse, sua voz tornando-se densa, quase um sussurro. — Ninguém acreditaria se você dissesse a qualquer pessoa como eu ajo dentro daquela cobertura. Para o resto do mundo, eu continuo sendo a arma. Mas você... você já deveria saber que não deve acreditar em tudo o que as pessoas dizem sobre quem elas não conseguem controlar. — Por que só comigo? — a pergunta escapou antes que ela pudesse filtrá-la. Kenji permaneceu em silêncio por alguns minutos. O som do motor era o único companheiro de seus pensamentos. Ele desejou, com uma intensidade que o assustou, falar sobre tudo. Queria contar sobre o m*l-entendido do dia do baile de máscaras, anos atrás, quando ela acreditara ter sido beijada por Haru no jardim, quando, na verdade, fora ele por trás da máscara de seda. Desejou dizer que a amava desde que era um adolescente que a observava de longe. Ele queria gritar que aceitou o papel de substituto não pelo poder, mas porque a ideia de deixá-la desprotegida nas mãos de um Haru negligente era insuportável. Mas ele desistiu. Desistiu porque sabia que o coração dela ainda era um território minado, e qualquer declaração de amor agora soaria como uma tática de manipulação. A única coisa que importava era não magoá-la mais do que o necessário. — Você só precisa saber que não quero te magoar, Kitsune — ele disse finalmente, sua voz carregada de uma promessa solene. — Não importa o que descubra nessa sua busca pela verdade, ou o que ouvir dos meus pais hoje... apenas lembre de como eu sou com você. Lembre-se de que isso nunca vai mudar enquanto estivermos juntos. Hana sentiu as palavras dele reverberarem em sua alma. Cada frase de Kenji parecia um martelo golpeando as correntes que a prendiam ao passado com Haru. O que antes era uma certeza absoluta, o ódio por Kenji e a adoração por Haru, agora parecia uma tapeçaria desgastada, cheia de furos e fios soltos. Ela percebeu que a trégua que iniciou como uma estratégia de sobrevivência estava se transformando em algo muito mais perigoso: uma a******a emocional. Pela primeira vez em meses, Hana não se sentia uma prisioneira em fuga, mas uma mulher diante de um enigma que ela estava desesperada para resolver. Ao olhar para o perfil de Kenji contra o pôr do sol que começava a tingir o céu de laranja e violeta, Hana sentiu que a visita à mansão Sato seria o teste final. Se Kenji era realmente o homem que ele mostrava ser na privacidade da cozinha deles, ela teria que enfrentar o fato de que passou anos odiando o homem errado. E se ele estivesse certo sobre os próprios pais, ela estava prestes a ver as cicatrizes que transformaram um menino em uma "aberração". A estrada terminou em um imenso portão de ferro forjado com o brasão da família Sato. O carro parou por um segundo enquanto os guardas faziam a identificação. Kenji olhou para Hana uma última vez antes de entrar na propriedade. — Mantenha a guarda alta com eles, mas relaxe comigo, Hana. Eu sou o seu escudo hoje — ele disse. Hana assentiu, respirando fundo. O "ou não" que ele disse no capítulo anterior agora parecia fazer sentido. Ele não era o herói, nem o vilão; ele era apenas um homem tentando sobreviver a um destino que outros escreveram para ele. E ela, de forma irrevogável, estava agora escrita na mesma página. A mansão surgiu ao longe, imponente e fria, como um monumento a uma linhagem que exigia perfeição. Hana ajeitou o vestido, sentindo o peso da joia que Kenji lhe deu no pescoço. A trégua estava mantida, mas a guerra pela verdade estava apenas começando, e os pais de Kenji eram os generais que ela teria que enfrentar a seguir.
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