A quietude da cozinha foi quebrada pelo som rítmico de passos firmes sobre o piso de porcelanato.
Yuri, o braço direito de Kenji e a sombra constante do Oyabun, surgiu no arco da porta com a discrição de um fantasma treinado.
Ele parou a uma distância respeitosa, baixando a cabeça em uma reverência que era, ao mesmo tempo, um sinal de submissão ao seu mestre e de reconhecimento à nova senhora da casa.
Hana, que ainda saboreava o retrogosto do café da manhã japonês, sentiu a mudança imediata na temperatura do ambiente. A bolha de trégua que havia se formado entre ela e Kenji começou a evaporar diante da realidade dos negócios do clã.
— Perdão, senhor. Não queria incomodar — Yuri disse, sua voz desprovida de emoção, mas seus olhos captaram o prato de Kenji à frente de Hana.
Kenji limpou os lábios com um guardanapo de linho e levantou-se com uma elegância fluida.
A transição do "homem que cozinha" para o "líder da Yakuza" foi instantânea e assustadora.
— Preciso ir, Kitsune — ele disse, olhando diretamente nos olhos de Hana. — Temos um evento beneficente para comparecer hoje à tarde. É uma das fachadas necessárias para os Moretti e os Sato em Chicago. Se precisar de qualquer coisa, cabeleireiro, maquiadora ou profissionais para prepará-la, apenas avise ao Yuri. Ele liberará a entrada de quem for necessário.
Hana sentiu a garganta secar. O peso da vida pública como esposa de um criminoso começou a assentar sobre seus ombros.
No entanto, algo na manhã, talvez o cuidado com que ele preparou o salmão ou a forma como não questionou sua seletividade, a fez baixar a guarda por um milímetro.
— Obrigada... Pela... comida — ela murmurou.
O agradecimento saiu hesitante, quase como se ela estivesse traindo seu próprio ódio, mas ela forçou um sorriso leve, um lampejo genuíno que não via o mundo há dias.
Kenji apenas acenou, um movimento quase imperceptível de cabeça, e saiu da cozinha.
Yuri o seguiu, mas não antes de lançar um olhar curioso para a ruiva. Assim que a porta do escritório se fechou atrás deles, o conselheiro permitiu que um sorriso discreto, porém vitorioso, surgisse em seus lábios.
— Quieto, Yuri. Não há motivos para risadas — Kenji disparou, sentando-se atrás de sua imensa mesa de carvalho n***o antes mesmo que o amigo pudesse falar.
— É fascinante, senhor — Yuri comentou, ignorando a ordem com a liberdade que só uma década de amizade permitia. — Sua aura muda totalmente quando está com ela. É como se o ferro da Yakuza desse lugar a algo... mais humano. Fico feliz que estejam se dando bem. Talvez esse casamento tenha uma esperança real.
Kenji soltou um suspiro pesado, recostando-se na cadeira de couro. Ele olhou para as próprias mãos, as mesmas que haviam servido Hana minutos antes.
— Se fosse tão fácil, Yuri... — a voz de Kenji soou rouca, carregada de um cansaço que ele nunca mostrava aos inimigos. — Ela me odeia. E esse sentimento não vai mudar com um prato de arroz e peixe. Ela me vê como o homem que roubou o futuro dela.
Yuri percebeu a dor crua nas palavras do chefe e resolveu mudar de assunto. Sabia que Cutucar aquela ferida agora não traria resultados.
— Haru estava no cassino da organização rival, exatamente como o senhor previu — informou Yuri, recuperando a postura profissional. — Ele contraiu dívidas astronômicas em nome do clã. Usou seu nome como passe livre para obter créditos ilimitados e pegou dinheiro com agiotas perigosos. Ele está agindo como se o seu sangue fosse um cheque em branco.
O rosto de Kenji endureceu, as feições tornando-se uma máscara de granito.
— Espalhe a notícia em todos os canais do submundo: Haru Sato não tem mais direito a usar o nome do clã. Qualquer um que permita o uso do meu nome por ele, ou que lhe concede crédito sob o selo dos Sato, será punido com a mesma severidade que um traidor.
— Sim, senhor.
Kenji assentiu. Ele precisava ser racional. Haru não era mais apenas um irmão irresponsável; ele era uma hemorragia que ameaçava a estabilidade da família.
Ao cortá-lo, Kenji não estava sendo apenas c***l; estava protegendo a honra que restava, inclusive a honra de Hana, que ainda não sabia o quão fundo o buraco de Haru chegava.
No quarto principal, Hana estava cercada por luxo, mas sentia-se sufocada.
Ela dispensou os profissionais que Yuri ofereceu; preferia o ritual solitário de se preparar, uma forma de manter o pouco controle que lhe restava.
— Mais uma máscara — ela sussurrou para o espelho.
A ideia de desfilar como a "noiva feliz" diante da alta sociedade de Chicago e dos parceiros de negócios de seu pai a deixava enojada.
Ela escolheu um vestido de seda azul marinho, longo, com um corte que abraçava suas curvas de forma audaciosa, mas sofisticada. O contraste do azul profundo com seu cabelo ruivo vibrante e seus olhos verdes era hipnotizante. Ela parecia uma criatura saída das profundezas do oceano, bela, rara e perigosa.
Ela pegou um par de brincos simples, mas desistiu. Olhou para o relógio e percebeu que havia perdido a noção do tempo em meio aos seus pensamentos intrusivos. Kenji odiava atrasos; a pontualidade japonesa era uma de suas marcas registradas.
Hana saiu do quarto e começou a descer a escadaria de mármore. O som de seus saltos agulha contra a pedra ecoava como batidas de um metrônomo no hall silencioso. Kenji estava esperando ao pé da escada. Quando ele levantou o olhar e a viu, o mundo ao seu redor pareceu perder o foco.
Hana era uma miragem. O azul do vestido parecia ter sido feito de fragmentos do céu noturno, e a pele dela brilhava como porcelana sob a luz dos lustres.
Kenji, impecável em um terno sob medida também azul marinho, sentiu o ar falhar nos pulmões. Eles pareciam, visualmente, o par mais perfeitamente coordenado do mundo.
Ele não disse nada de imediato. Apenas pegou uma caixa de veludo preto que estava sobre a mesa lateral e a abriu.
Dentro, sobre um berço de seda, repousava um colar e um par de brincos de diamantes e safiras. O brilho das pedras era quase ofensivo de tão puro.
— Um presente — ele disse, a voz baixa. — Safiras para combinar com o oceano que você carrega nos olhos.
Hana hesitou, mas a curiosidade e o peso do dever a fizeram se aproximar. Ela virou-se de costas, afastando a cascata de cabelos ruivos para que ele pudesse prender o fecho.
Os dedos de Kenji, frios e precisos, roçaram a nuca dela, causando um calafrio que ela se esforçou para esconder. Ela mesma colocou os brincos e, ao terminar, ele ofereceu o braço.
O trajeto até o evento foi feito em um silêncio tenso. Kenji dirigia seu carro esportivo preto com uma maestria silenciosa, enquanto Hana observava o perfil dele.
Ela estava inquieta. O cuidado dele, a comida, as joias... tudo parecia bom demais para ser verdade vindo de um homem com as mãos manchadas de sangue.
— Você é um demônio, Kenji — ela soltou de repente, a voz firme, quebrando a paz do habitáculo. — Mas age como se fosse um anjo. O que pretende com esse teatro? Não precisa se esconder atrás de joias e jantares. Eu sei o monstro que você é. Eu sei o que a Yakuza faz.
Kenji não desviou os olhos da estrada, mas seus nós dos dedos ficaram brancos ao apertar o volante. Cada palavra dela era um estilhaço de vidro cravado em sua alma.
— Acredite no que quiser, Hana — ele respondeu, a voz desprovida de inflexão, escondendo a tempestade interna. — O monstro e o homem que te serviu o café da manhã são a mesma pessoa. Cabe a você decidir qual deles merece a sua atenção.
— O monstro sempre devora o homem, Kenji. Você tomou o lugar do seu irmão, destruiu o meu futuro e agora quer que eu te agradeça com um sorriso? — Ela riu, um som amargo. — Você é o substituto. Nunca passará disso.
Aquela frase, o substituto, foi o golpe final. Kenji sentiu o peso da injustiça esmagar seu peito. Ele queria gritar, dizer quem era verdadeiramente Haru. Mas o silêncio era seu código. Ele havia prometido protegê-la da verdade que destruiria a imagem de sua família.
Eles chegaram ao local do evento. O tapete vermelho estava estendido e os flashes das câmeras começaram a disparar assim que o carro parou. Kenji respirou fundo, colocando sua própria máscara de aço.
— Sorria, Kitsune — ele sussurrou antes de abrir a porta dela. — O mundo está assistindo.
Ao saírem do carro, eles eram a imagem da perfeição e do poder. Kenji mantinha a mão possessiva na cintura dela, guiando-a pela multidão de admiradores e tubarões da sociedade.
Hana sorria, um sorriso que treinou exaustivamente, mas por dentro ela sentia que estava morrendo.
Durante toda a noite, ela encontrou formas de feri-lo. Em cada brinde, em cada conversa sussurrada, ela lançava farpas sobre a ausência de Haru ou sobre a "sorte" de Kenji em ter herdado a noiva do irmão.
Ela via os olhos dele escurecerem de dor a cada comentário, e uma parte sombria dela sentia satisfação nisso. Se ela tinha que sofrer, ele sangraria com ela.
O que Hana não percebia era que, ao afastar Kenji com tanta crueldade, ela estava destruindo a única âncora que a impedia de afundar no caos que Haru e Lorenzo haviam criado.
Kenji, o homem que a amava desde a adolescência em segredo, estava sendo lentamente assassinado pelas palavras da mulher que ele jurara proteger.
A noite de gala era um sucesso para Chicago, mas para o casal Sato, era apenas mais um círculo do inferno, onde as joias brilhavam tanto quanto as lágrimas que Hana se recusava a derramar e o sangue que o coração de Kenji insistia em perder.
Nota da Autora: Visualmente, eles são deuses; emocionalmente, são destroços. Hana usa o ódio como escudo porque a bondade de Kenji a assusta mais do que a sua violência. Enquanto isso, Kenji carrega o fardo da verdade sozinho, tornando-se o mártir de uma história que Hana ainda não compreende. A safira é a pedra da sabedoria, mas aqui, ela é apenas o adorno de uma mentira sofisticada.