O processo de transformação da sala escolhida para ser o santuário tecnológico de Hana foi um exercício de eficiência absoluta.
Kenji Sato não era homem de delegar tarefas importantes sem uma supervisão minuciosa, e a montagem do escritório de sua esposa era, no momento, sua prioridade máxima.
Durante quarenta e oito horas, a ala leste da cobertura fervilhou com técnicos de rede, especialistas em hardware e decoradores que operavam sob o olhar vigilante de Yuri e, ocasionalmente, do próprio Kenji.
Kenji decidiu, por conta própria, que nenhum equipamento seria trazido da antiga casa de Hana. Para ele, aquele escritório era um novo começo; uma forma de mostrar a Hana que, na Fortaleza, ela teria o melhor que o dinheiro e a influência da Yakuza poderiam comprar.
Ele selecionou cada componente: servidores de processamento paralelo, roteadores com criptografia de nível militar e estações de trabalho que desafiavam a latência.
Enquanto os ajustes finais eram feitos, Kenji sentia uma pontada de incerteza que raramente admitia.
A mente de Hana era um labirinto de reações imprevisíveis.
Em um momento, ela o tratava com um desprezo que faria qualquer outro homem recuar; em outro, ela parecia absorvida em uma compreensão silenciosa, quase afetuosa.
Ele achava aquele humor volátil fascinante, como uma tempestade de verão em Chicago, bela, perigosa e impossível de ignorar.
O escritório ficava a apenas dez passos do seu próprio refúgio. Ele a queria por perto, sob seu alcance, não por desconfiança, mas por um instinto territorial que rugia em seu peito sempre que ela estava no mesmo ambiente.
Ao fim da tarde do segundo dia, o silêncio finalmente retornou ao corredor. Estava pronto.
Kenji caminhou até a porta do quarto principal.
Ele parou diante da madeira pesada e, em um gesto de cortesia que contrastava com sua natureza dominante, bateu levemente. Ele respeitava o espaço dela com uma reverência quase sagrada, consciente de que a i********e deles era uma ponte sendo construída sobre um abismo.
— Entre — a voz de Hana veio de dentro, desprovida da aresta cortante dos últimos dias.
Ele abriu a porta devagar. Hana estava sentada à beira da cama, perdida em pensamentos. Ao vê-lo, seus olhos verdes brilharam com uma expectativa cautelosa.
— Seu escritório está pronto — Kenji anunciou de forma natural, sua expressão mantendo a serenidade habitual. — Deseja ver agora?
A reação foi instantânea. Um sorriso enorme e radiante iluminou o rosto de Hana, mudando completamente a energia do quarto.
— Não brinca? — Ela se levantou em um salto, a euforia transbordando. — Você realmente conseguiu tudo em dois dias?
— Venha comigo.
Hana o acompanhou pelo corredor, e Kenji teve que lutar para não sorrir diante da animação dela.
Ela quase saltitava, como uma criança que finalmente recebe o presente que passou meses imaginando.
Quando Kenji abriu a porta dupla de carvalho e acionou a iluminação automática, Hana parou bruscamente, o ar fugindo de seus pulmões.
O lugar não era apenas um escritório; era a materialização de um sonho tecnológico.
Três mesas de fibra de carbono em formato de "L" sustentavam um arsenal de seis monitores ultra-wide de última geração, montados em suportes articulados que permitiam uma visão periférica total.
As torres dos computadores, com painéis de vidro temperado, exibiam sistemas de refrigeração líquida com luzes LED em tons de azul glacial e violeta. A cadeira era uma peça de engenharia ergonômica, revestida em couro legítimo, pronta para longas noites de trabalho.
A decoração era minimalista e sofisticada, com tons de cinza carvão e detalhes em aço escovado, combinando perfeitamente com a estética da cobertura, mas mantendo uma aura de laboratório secreto. Havia até uma pequena estação de café e um frigobar embutido.
— Se desejar mudar alguma coisa, qualquer detalhe, pode falar com o Yuri. Ele providenciará imediatamente — Kenji comentou, encostando-se no batente da porta, observando-a com uma devoção silenciosa.
Hana caminhou pela sala, tocando o acabamento das mesas com as pontas dos dedos, os olhos brilhando ao ver os logotipos das marcas de hardware que ela tanto respeitava.
— Não tem o que mudar, Kenji — ela sussurrou, a voz carregada de uma gratidão que ela tentava não deixar transparecer demais. — Está perfeito. Eu amei... amei cada detalhe.
A trégua estava oficialmente declarada. Pelo menos por aquela noite.
Mais tarde, o clima de harmonia estendeu-se até a cozinha. Hana sentou-se na banqueta do balcão, observando Kenji preparar o jantar.
Ela se ofereceu para ajudar, mas ele recusou com um movimento suave de cabeça. Hana se perguntava se ele a achava incompetente na cozinha, o que, tecnicamente, era verdade, ou se ele simplesmente extraía um prazer quase meditativo ao preparar as refeições para ela.
O cardápio da noite era um Unadon, enguia grelhada sobre uma cama de arroz cozido à perfeição, regada com um molho kabayaki feito do zero. Hana observava como ele se movia. Havia uma graça letal em seus gestos, uma calma que sugeria um homem em total controle de seus impulsos.
Eles comeram em absoluto silêncio, mas não era o silêncio opressor de antes. Era um silêncio de reconhecimento.
Hana percebeu que, nos últimos dias, sua dieta mudou completamente. Ela não sentia mais a necessidade de pedir pratos de Chicago ou comida italiana. A culinária japonesa de Kenji, limpa, organizada e esteticamente agradável, tornara-se seu porto seguro alimentar. Ele parou de preparar qualquer outra coisa, focando exclusivamente no que sabia que ela aceitaria.
Enquanto saboreava a refeição, a mente de Hana começou a trair sua paz momentânea.
Por um milésimo de segundo, o fantasma de Haru e do casamento forçado surgiu em sua memória. Ela se lembrou da raiva, do sentimento de ter sido uma mercadoria trocada entre famílias rivais.
Lembrou-se do "monstro" que seu pai descreveu, da "máquina de matar" que o submundo temia.
Mas então, ela olhou para o homem à sua frente.
Viu o Kenji que preparou um laboratório de ponta em quarenta e oito horas apenas para vê-la sorrir.
Viu o homem que passava horas na cozinha para garantir que ela comesse bem, sem nunca cobrar gratidão.
Viu o marido que, apesar de ter todo o poder legal e físico sobre ela, nunca tentou reivindicar seus direitos conjugais, tratando-a com uma paciência que beirava a santidade.
Sua cabeça tornou-se um emaranhado de contradições. Qual era o verdadeiro Kenji Sato? O demônio implacável da Yakuza ou o guardião silencioso da Fortaleza?
A semente da dúvida, plantada pela Tia Beatriz, começou a criar raízes mais profundas.
Hana sentiu uma pontada de ansiedade. Ela precisava da verdade. Se Kenji fosse realmente o vilão, ela precisava descobrir antes que seu coração começasse a traí-la.
Mas, se ele fosse a vítima de toda aquela trama, o peso da culpa por ter despejado tanto ódio sobre ele seria insuportável.
Ela olhou para Kenji por cima de sua tigela de arroz. Ele sentiu o olhar dela e levantou os olhos pretos, encontrando os verdes dela. Não houve palavras, apenas uma tensão vibrante que preencheu o espaço entre eles.
— O que foi? — Ele perguntou, sua voz suave como um veludo escuro.
Hana engoliu em seco, desviando o olhar para suas mãos.
— Nada. Só estava pensando no trabalho. Vou começar a usar o escritório hoje à noite.
— Não se canse demais, Kitsune. O sistema é rápido, mas você ainda precisa de sono humano.
Hana assentiu, levantando-se para levar o prato até a pia, mas ele a impediu com um gesto, pegando a louça de suas mãos.
Naquele breve toque, onde seus dedos roçaram os dele, Hana sentiu uma descarga elétrica que a fez recuar um passo.
Ela saiu da cozinha e seguiu para o seu novo escritório, fechando a porta e sentando-se diante dos monitores. O brilho das telas era familiar, reconfortante. Ela digitou seu novo codinome: NYX.
— Vamos ver quem você realmente é, Kenji Sato — ela sussurrou para a escuridão da sala.
Ela estava determinada a encontrar o rastro de Haru, mas, pela primeira vez, uma parte dela tinha medo do que encontraria. Porque se Haru fosse o culpado e Kenji o inocente, a arquitetura de toda a sua vida desmoronaria, e ela ficaria sozinha diante do homem que ela passou semanas tentando destruir, mas que passou a vida inteira tentando salvá-la.
A tensão no peito de Hana era um código que ela ainda não conseguia decifrar, mas ela sabia que, naquela cobertura, nada era o que parecia ser.
E a verdade, nua e crua, estava a apenas alguns cliques de distância.
Nota da Autora: Hana agora tem as ferramentas para destruir ou salvar Kenji. O escritório simboliza o respeito dele pelo intelecto dela, e a comida simboliza o cuidado com o corpo dela. O conflito agora é interno: Hana contra suas próprias crenças.