Uma Ciberarquiteta.

1506 Words
Hana caminhava pelo quarto de casal, seus passos sendo abafados pelo tapete de seda persa que cobria o assoalho. Seus olhos verdes percorriam as paredes frias e modernas da cobertura, mas sua mente estava a quilômetros dali, na sua antiga casa. Lá, escondidos em um compartimento falso atrás de uma estante de livros técnicos, estavam seus verdadeiros instrumentos de poder: servidores compactos de alta performance, hardware customizado com criptografia de nível militar e discos rígidos que continham o trabalho de uma vida inteira. Ela era Hana Moretti para o mundo, a herdeira ruiva de beleza estonteante e gosto apurado para as artes. Mas, nas sombras digitais, ela era uma das ciberarquitetas mais respeitadas e temidas do mercado clandestino. Ninguém sabia seu gênero, sua idade ou sua localização. Ela era um fantasma que projetava defesas impenetráveis para quem podia pagar, ou que abria fendas em sistemas corporativos apenas para provar que podia. Até então, acreditava que poderia manter essa faceta enterrada. Mas o casamento com Kenji mudou as regras do jogo. Viver sob o mesmo teto que o líder da Yakuza era como habitar uma caixa de vidro vigiada por um predador. Esconder sua atividade digital seria como tentar esconder um incêndio em uma sala de espelhos. Ela precisava de sua independência, e seu trabalho era a única forma de garantir que, quando chegasse a hora, ela teria os meios para desaparecer sem deixar rastros. Decidida, ela desceu as escadas. O silêncio da cobertura era apenas quebrado pelo som distante da metrópole de Chicago lá fora. Ela seguiu o instinto, ou talvez o olfato, e acabou encontrando Kenji na cozinha mais uma vez. A cena era, para Hana, uma dissonância cognitiva constante. Kenji Sato, o homem que comandava clãs com um olhar de gelo, estava diante do fogão. Ele manipulava uma faca de chef com a mesma precisão cirúrgica com que Hana imaginava que ele manipulava em um duelo. Ele estava preparando o almoço. Nos últimos dias, Kenji assumiu pessoalmente a cozinha. Ele sabia, com uma percepção que irritava Hana, que as cozinheiras da mansão, por mais talentosas que fossem, não compreenderiam as nuances da seletividade alimentar dela, a repulsa por certas texturas, a necessidade de pratos visualmente limpos e ingredientes que não se misturassem de forma caótica. — Sempre que te procuro, está na cozinha — ela comentou, sua voz soando mais suave do que pretendia. Sentou-se em uma banqueta atrás do balcão de mármore, observando as costas largas dele, marcadas pela tensão sob a camisa fina. — É estranho. Eu nunca imaginaria que o grande Oyabun da Yakuza passava o tempo picando legumes. Kenji não se virou imediatamente. Ele finalizou o corte de um shimeji antes de responder, sua voz mantendo aquele barítonos calmo que parecia ressonar nos ossos de Hana. — Há muito que você ainda não sabe sobre mim, Kitsune — ele rebateu. O apelido, embora fosse apenas uma referência à raposa japonesa, soou perigosamente bom na voz dele. Hana pigarreou, tentando recuperar o controle da situação. Ela precisava confessar, mas queria fazê-lo em seus próprios termos. — Preciso contar algo. Sobre um trabalho que eu faço — ela começou, as mãos entrelaçadas sobre o balcão. Kenji finalmente se virou. Ele pousou a faca e limpou as mãos em um pano de prato, dando-lhe total atenção. Seus olhos escuros eram como poços de água profunda; você nunca sabia o que estava escondido no fundo, mas sentia que ele estava vendo tudo o que havia em você. — Eu trabalho com ciberarquitetura — ela disparou, a confissão saindo como um desafio. — É uma forma de independência que tenho além da galeria. Eu projeto sistemas, busco falhas... é um trabalho anônimo e complexo. Pensei em esconder de você, mas moramos juntos. Seria inútil tentar manter as telas apagadas por muito tempo. Kenji a observou por um longo segundo, um silêncio que pareceu durar uma eternidade. No fundo, ele sentia uma satisfação amarga. Hana estava derrubando as próprias barreiras. Ao confessar seu segredo, ela estava, inconscientemente, depositando um fragmento de confiança nele, mesmo que a justificativa dela fosse o pragmatismo. — Hum — ele apenas assentiu, voltando-se para a panela. Hana franziu a testa, sentindo-se desinflada pela reação mínima. — Não está surpreso, Kenji? Eu acabei de dizer que sou uma hacker de alto nível vivendo na sua casa. Eu poderia derrubar seus sistemas de segurança se quisesse. Kenji soltou um riso curto, um som seco que não chegou aos olhos. — Eu sei exatamente com quem me casei naquele dia, Hana. Você pode ter enganado o mundo inteiro com sua fachada de herdeira distraída, mas eu sempre estive com os olhos bem atentos a você. Eu conheço o rastro da "CIPHER" na rede há pelo menos três anos. Você só nunca percebeu porque eu não queria ser encontrado. Hana abriu a boca em choque, o rosto queimando. A ideia de que ele a observava no seu refúgio mais secreto, no único lugar onde ela se sentia poderosa, era humilhante e aterrorizante ao mesmo tempo. — Às vezes é assustador o quanto você sabe sobre todos sem nenhum esforço — ela murmurou, sentindo-se subitamente pequena. — Não é sem esforço, Hana. É atenção aos detalhes — ele disse, desligando o fogo e voltando-se para ela com os braços cruzados. — Mas você não veio aqui apenas para confessar sua identidade digital. O que você realmente quer? Hana respirou fundo, recuperando sua postura de batalha. Odiava o quanto ele conseguia lê-la. — A cobertura é gigante. Tem quartos e salas que são apenas museus de mobília cara sem utilidade. Eu preciso trazer meus equipamentos da minha antiga casa. Preciso montar meu escritório, meu laboratório. Preciso de um lugar onde eu possa trabalhar sem ser interrompida. — Vou mandar providenciar hoje mesmo. Estará pronto em dois dias — ele respondeu prontamente, com uma segurança que não admitia réplicas. — Eu vou buscar a verdade, Kenji — ela continuou, a voz subindo de tom, carregada com a mágoa que Beatriz e Haru haviam plantado nela. — Haru não me abandonou por vontade própria. Ele não é o monstro irresponsável que vocês pintam. Eu vou usar minha tecnologia para provar isso. E quando eu provar, vou continuar desprezando você até o meu último suspiro. Vou mostrar a todos que você planejou esse casamento, que você o tirou do caminho. Hana estreitou os olhos, a raiva vibrando em seu corpo. Kenji a observou em um silêncio pesado. Ele viu a dor por trás dos olhos verdes dela, a necessidade desesperada de acreditar em uma mentira para não ter que enfrentar o vazio de ter sido trocada por nada. — Mesmo que você use sua tecnologia de ponta e não encontre nada, Hana... tente encontrá-lo pessoalmente — Kenji disse, sua voz perdendo a frieza e ganhando uma nota de advertência sombria. — Há coisas que não podem ser descobertas através de telas. Você merece ouvir da boca dele. Mas esteja avisada: mesmo que veja a verdade com seus próprios olhos, tenho certeza de que ainda vai duvidar. O coração humano é especialista em ignorar fatos para proteger ilusões. Hana sentiu um calafrio. O conselho dele soava como uma profecia que ela não queria ouvir. Ela estava lutando para manter sua hipótese viva: a de que Haru era a vítima e Kenji o vilão. Se ela estivesse errada, se Haru realmente fosse o homem medíocre que todos diziam, seu mundo desabaria por completo. — Obrigada pelo conselho, Kenji — ela disse, levantando-se da banqueta, o tom sarcástico voltando para esconder sua fragilidade. — Mas quando eu provar que ele é inocente e que você orquestrou tudo isso, o mundo verá quem é o verdadeiro demônio desta história. Kenji a observou caminhar em direção à escada. Antes que ela pudesse subir o primeiro degrau, ele lançou a última frase, uma que atingiu Hana como um golpe físico: — Ou não. Aquela duas palavras ecoaram na mente de Hana enquanto ela subia. "Ou não". O que ele queria dizer com aquilo? Que ele não era o vilão? Ou que o que ela encontraria seria tão terrível que o papel de vilão seria disputado por outro? Ela se trancou no quarto, o coração batendo contra as costelas. Ela estava determinada, mas pela primeira vez, a dúvida não era sobre Kenji, mas sobre o que ela encontraria no fim do túnel que estava prestes a cavar. Ela queria a verdade, mas, no fundo de sua alma de ciberarquiteta, ela sabia que alguns sistemas, uma vez quebrados, nunca mais poderiam ser reconstruídos. Hana Moretti estava prestes a iniciar a maior invasão de sua vida, sem saber que o sistema que ela estava prestes a destruir era o seu próprio coração. Nota da Autora: Kenji não a vê apenas como uma esposa, mas como uma igual. Ao dar a ela as ferramentas para investigá-lo, ele está cometendo um ato de fé suicida ou de confiança absoluta na verdade. A "CIPHER" digital agora tem um ninho na Fortaleza, e a contagem regressiva para a descoberta sobre Haru começou oficialmente.
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