O silêncio no escritório de Lorenzo Moretti era denso como fumaça. A luz fraca do abajur iluminava os papéis espalhados pela mesa de mogno, enquanto o líder da família Moretti encarava o homem sentado à sua frente: Dante Valentini.
— Por que estou aqui, Valentini? — perguntou Lorenzo, tentando soar calmo, embora a presença do rival no coração de sua casa fosse suficiente para deixá-lo em alerta.
Dante recostou-se na cadeira, o semblante inabalável. Os olhos cinzentos avaliavam Lorenzo com uma calma predatória.
— Você sabe o motivo, Moretti. Seus homens andam fazendo movimentos arriscados demais.
Lorenzo franziu o cenho.
— Não sei do que está falando.
— A guerra está a um passo de começar — continuou Dante, ignorando a negação. — Mas talvez possamos evitar que o sangue seja derramado.
Lorenzo riu, embora o som tenha soado forçado.
— E o que você sugere?
— Uma aliança.
Lorenzo piscou, confuso.
— Entre as nossas famílias? — questionou, surpreso. — Isso é uma piada?
Dante inclinou-se para a frente, o olhar cortante.
— Não estou brincando. Tenho uma proposta. Quero a sua irmã em casamento.
O ar pareceu ser sugado da sala. Lorenzo ficou em silêncio, os olhos se arregalando levemente.
— Isabela? — perguntou ele, em tom incrédulo.
— Sim, Isabela Moretti — confirmou Dante, um pequeno sorriso se formando em seus lábios. — Ela será minha esposa. Em troca, as nossas famílias terão paz e uma aliança que beneficiará a todos.
— Isso é loucura! — Lorenzo se levantou, batendo os punhos na mesa. — Isabela não tem nada a ver com a máfia, Valentini. Ela nem sequer sabe do que acontece neste mundo!
Dante não se intimidou. Ele manteve-se calmo, como um jogador de xadrez esperando o movimento do adversário.
— Melhor ela não saber, então. Isso apenas facilitará as coisas.
— Ela nunca concordaria — rosnou Lorenzo, os punhos cerrados.
— Então faça-a concordar. Caso contrário… — Dante fez uma pausa, o sorriso desaparecendo. — Vou considerar a sua recusa como uma declaração de guerra.
A ameaça pairou no ar como um trovão distante. Lorenzo sentiu o peso de cada palavra. Sabia que Dante Valentini não era o tipo de homem que blefava. Se ele queria Isabela, haveria apenas duas opções: aceitar ou enfrentar uma guerra que a família Moretti não tinha como vencer.
— Por que ela? — murmurou Lorenzo, derrotado.
— Ela me interessa — respondeu Dante, simplesmente. — Além disso, ter a irmã do líder dos Moretti ao meu lado me dá garantias.
Lorenzo esfregou as têmporas, sentindo a dor de cabeça crescer. Ele jamais queria envolver Isabela no mundo obscuro que ele habitava, mas agora não tinha escolha.
— Quanto tempo? — perguntou ele, sem encarar Dante.
— Três anos — respondeu Dante, com precisão. — Se ao final desse tempo ela não quiser continuar casada comigo, eu a deixarei ir.
Lorenzo olhou para ele, surpreso com o limite.
— Por que isso importa para você?
— Digamos que eu gosto de vencer com justiça — respondeu Dante, enigmático.
A verdade, no entanto, era muito mais complicada. Desde a primeira vez que viu Isabela no hospital, ela havia se tornado uma obsessão silenciosa em sua mente. Ela era diferente, uma mulher que não o temia nem o tratava como um rei. Dante queria dobrá-la, conquistá-la… e possuí-la.
— Aceito os termos — murmurou Lorenzo, sentindo o peso da decisão. — Mas saiba, Valentini, que se algo acontecer à minha irmã, eu mesmo irei atrás de você.
Dante sorriu, satisfeito.
— Trate isso como um acordo fechado, Moretti. Em breve, seremos uma família.
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O hospital estava em seu momento mais tranquilo na manhã seguinte quando Isabela Moretti terminou sua rodada de atendimentos. Ela havia passado a noite inteira em cirurgias, e agora seus ombros doíam e os olhos queimavam pelo cansaço.
— Doutora, há um homem esperando por você na recepção — avisou uma enfermeira, ao passar por ela no corredor.
Isabela franziu o cenho.
— Quem é?
— Não disse o nome. Mas ele parecia… perigoso.
— Perigoso? — repetiu Isabela, confusa.
Curiosa, ela caminhou até a recepção. Ao dobrar o corredor, parou abruptamente. Dante Valentini estava ali, sentado em uma das poltronas de couro, tão à vontade como se estivesse em seu escritório particular.
— O senhor novamente? — perguntou Isabela, cruzando os braços.
Dante levantou-se, os olhos cinzentos fixos nela. Mesmo sob o jaleco amarrotado e com o rosto visivelmente cansado, ela ainda conseguia parecer altiva.
— Bom dia, doutora Moretti — cumprimentou ele, com um sorriso controlado.
— Como conseguiu entrar aqui? — retrucou ela.
— Tenho meus métodos — respondeu ele, dando de ombros. — Precisamos conversar.
— Sobre o quê? — perguntou ela, irritada. — Se é sobre seu homem ferido, já disse que ele está bem. Agora, se me dá licença, preciso descansar.
Ela tentou passar por ele, mas Dante bloqueou seu caminho, embora sem tocá-la. A proximidade fez Isabela sentir o perfume amadeirado dele, e, por um breve segundo, ela se desequilibrou.
— Não estou aqui por causa dele — disse Dante, o tom mais sério agora. — Estou aqui por você.
Isabela piscou, surpresa.
— Por mim?
— Sim. Preciso que me escute com atenção. É sobre seu irmão.
A menção de Lorenzo fez Isabela sentir um frio na espinha. Ela olhou ao redor, desconfiada.
— Venha comigo — disse ela, conduzindo-o até uma sala vazia nos fundos do hospital. Quando entraram, Isabela fechou a porta e o encarou. — O que Lorenzo tem a ver com isso?
Dante observou-a por um momento, como se calculasse as palavras que diria a seguir.
— Seu irmão e eu firmamos um acordo.
— Que tipo de acordo? — perguntou ela, agora desconfiada.
— Um casamento. O nosso casamento, para ser exato.
Isabela ficou paralisada.
— O quê? — Sua voz saiu mais aguda do que ela pretendia.
— Eu serei direto, doutora. Sua família está em um momento delicado. Um passo errado e haverá guerra. Para evitar isso, fiz uma proposta ao seu irmão: você será minha esposa por três anos. Ao final desse período, se não quiser continuar casada, poderá se divorciar.
— Isso é um absurdo! — exclamou Isabela, dando um passo para trás. — Lorenzo jamais concordaria com uma coisa dessas!
— Ele já concordou — respondeu Dante, com calma. — Por você. Pela segurança da família de vocês.
O coração de Isabela disparou. Ela sentiu o chão se abrir sob seus pés.
— Isso é uma loucura — murmurou ela. — Não sou um objeto para ser barganhado.
Dante inclinou a cabeça, seus olhos cravados nela.
— Eu não a vejo como um objeto, doutora. Mas são as circunstâncias. E posso garantir uma coisa: eu cumpro minha palavra.
Isabela sentiu uma onda de raiva subir por seu corpo. Ela queria gritar, mas sabia que não adiantaria.
— Por que eu? — perguntou, tentando manter a calma.
Dante deu um passo à frente, reduzindo a distância entre eles.
— Porque você me interessa.
Ela prendeu a respiração ao ouvir aquelas palavras. Havia algo no tom de voz dele, algo que fez seu coração vacilar.
— Eu não vou me casar com você — sussurrou ela, tentando manter firmeza.
— Vai — respondeu ele, sereno. — Porque, se não o fizer, o preço será muito mais alto.
As palavras dele pairaram no ar como uma sentença. Isabela percebeu que estava presa em uma teia invisível, e Dante Valentini era o homem que segurava todas as pontas.