Coração Partido

1659 Words
Solange narrando Desço da moto, o vento da noite acariciando meu rosto, e peço a Alejandro para me deixar um pouco antes de chegarmos ao condomínio. Não quero levantar suspeitas com a nossa chegada. Ele para a moto, desce com a suavidade de sempre e, gentilmente, me ajuda a retirar o capacete. Seus dedos roçam meus cabelos, um toque leve que envia um arrepio pela minha espinha. Ele me olha nos olhos, e naquele momento, sinto a eletricidade no ar. Alejandro se aproxima, e nossos lábios se encontram pela primeira vez. O beijo é sensual e romântico, despertando um fogo e uma ansiedade que nunca senti antes. É um momento que desejo que dure para sempre, mas que também parece passar rápido demais. — Obrigada por essa noite — sussurro, minha voz entrecortada pela emoção. — Vamos repetir isso muito em breve — ele responde com um sorriso que faz meu coração disparar. — Boa noite, meu Sol. — Boa noite, Alejandro. Ele observa enquanto eu me afasto, garantindo que eu siga em segurança até minha casa. Sinto seu olhar me acompanhando a cada passo, uma presença protetora mesmo à distância. Chego ao portão do condomínio e me viro uma última vez. Ele ainda está lá, me observando, antes de finalmente dar partida na moto e desaparecer na noite. Chego em casa com o coração leve e um sorriso no rosto, lembrando da noite perfeita com Alejandro. Assim que entro, vejo meu pai, Max, me esperando na sala de estar. Ele está sentado na poltrona, braços cruzados e expressão séria. Sinto um frio na barriga, a tensão crescendo no ar. — Sei que você teve um encontro — ele diz sem rodeios, sua voz dura. Meu coração acelera e tento manter a calma, mas é difícil esconder meu nervosismo. — Pai, eu... — começo, mas ele me interrompe. — Não aceito isso, Solange. Esse lutador não é bom para você — ele diz, sua voz firme e cheia de autoridade. — Você não pode me controlar para sempre, pai! — retruco, a raiva e frustração fervendo dentro de mim. — Eu mereço fazer minhas próprias escolhas Ele se levanta e se aproxima de mim, seu olhar duro e cheio de ciúmes protetores. — Vamos ver se isso é verdade. Se você insistir nisso, eu finalizo o contrato de Alejandro. Ele ficará sem nada, então a escolha agora é sua — ele ameaça, sua voz fria. As palavras dele me atingem como um soco no estômago. Lágrimas enchem meus olhos enquanto tento processar o que ele acabou de dizer. — Por favor, pai, não faça isso. Ele não merece — imploro, minha voz quebrando. — Ele é um bom homem, e eu gosto dele. — Isso depende de você — ele responde, inflexível. — Você merece alguém melhor, alguém que possa te dar o mundo. Um príncipe de cavalo branco, não um lutador de Muay Thai. — Você não conhece ele pai, para de ser injusto — digo, a voz cheia de desespero. — Ele é mais do que apenas um lutador! — Não importa. Quero o melhor para você, e ele não é suficiente — meu pai responde, sua voz final. Eu corro para meu quarto, lágrimas escorrendo pelo rosto. Fecho a porta e deixo o choro escapar, soluçando alto na solidão. Não posso deixar que Alejandro perca tudo por minha causa. O sofrimento é esmagador, mas sei que preciso ser forte. Mesmo não concordando com meu pai, sei que tenho que me afastar de Alejandro para protegê-lo. A dor no peito é quase insuportável, e passo a noite chorando, tentando encontrar uma solução que parece impossível. [...] Na manhã seguinte, chego ao estúdio de dança com o coração pesado. Hoje é o dia da audição para o papel principal no próximo espetáculo da companhia. Tento me concentrar, mas a briga com meu pai e a necessidade de afastar-me de Alejandro pesam sobre mim. No vestiário, enquanto me arrumo, observo a alegria de meus colegas que estão animados para os testes do dia. Tento me animar, mas é difícil quando tudo dentro de mim parece desmoronar. Vejo outras bailarinas se apresentando, suas performances cheias de graça e técnica. Elas dançam com uma alegria que parece distante de mim agora. Cada pirueta, cada salto, me lembra do que estou tentando alcançar. Respiro fundo e decido que, apesar da dor, vou dar o meu melhor. Quando chega minha vez, ainda estou indecisa sobre qual peça apresentar. De última hora, decido mudar minha escolha para uma dança contemporânea ao som de "Lovely" de Billie Eilish e Khalid. Caminho até o centro do palco, sentindo o peso das expectativas e das emoções que carrego. Faço uma reverência e apresento a música que escolhi. — Vou dançar "Lovely" — digo, a voz trêmula. A música começa, e deixo as primeiras notas me envolverem. Fecho os olhos e deixo a melodia guiar meus movimentos. Meus passos são suaves e precisos, mas cada gesto é carregado de dor e sofrimento. Sinto as lágrimas começarem a escorrer pelo meu rosto, mas não tento segurá-las. Deixo que fluam, aumentando o impacto e a emoção da minha dança. "Thought I found a way, thought I found a way out" (Achei que tinha encontrado uma maneira, achei que tinha encontrado uma saída), ecoa na minha mente enquanto danço, refletindo o desespero de tentar escapar da dor. Meus braços se estendem para o alto, como se buscando algo inalcançável, antes de cair lentamente, simbolizando a perda e o desespero. Giro pelo palco, meus pés deslizando suavemente pelo chão. Sinto como se estivesse flutuando, cada passo uma liberação de dor. A música atinge um crescendo, e eu me lanço em uma série de piruetas, girando com uma intensidade que reflete a turbulência dentro de mim. Meus movimentos são rápidos e precisos, mas cheios de uma paixão crua que captura a essência da música. "Heart made of glass, my mind of stone" (Coração feito de vidro, minha mente de pedra), a letra descreve perfeitamente minha fragilidade e o peso em meu coração. Ao chegar à parte mais emocional da música, deixo meu corpo cair de joelhos, meu peito arfando com a intensidade do momento. Estendo uma mão para a frente, como se tentando agarrar uma lembrança fugaz, antes de deixá-la cair ao chão, simbolizando a aceitação da perda. A música começa a suavizar novamente, e eu me levanto lentamente, meus movimentos agora mais lentos e deliberados. Cada passo, cada gesto, é uma expressão de resignação e dor. "Isn't it lovely, all alone?" (Não é adorável, totalmente sozinho?), ressoa enquanto danço, a solidão da letra ecoando a minha própria. Fecho os olhos e deixo a música me guiar, permitindo que minhas emoções fluam livremente. Quando a última nota toca, fico parada no centro do palco, ofegante e com o coração pesado. Abro os olhos e vejo os rostos dos jurados, muitos deles com lágrimas nos olhos. O silêncio na sala é profundo, carregado com a emoção que acabei de compartilhar. — Solange, isso foi... incrível. A profundidade da sua emoção, a dor que você transmitiu... foi absolutamente cativante — diz um dos jurados, sua voz cheia de admiração. — Obrigada — respondo, tentando conter as lágrimas. — Coloquei tudo o que senti na dança. Os jurados se entreolham e sussurram entre si, e então um deles se levanta e anuncia: — Solange, você conseguiu o papel principal no nosso próximo espetáculo. Sua performance hoje foi decisiva. A autenticidade do seu sofrimento trouxe uma nova dimensão à sua dança, algo que é raro e precioso. Meu coração se enche de uma mistura de emoções. A notícia do papel principal é uma realização incrível, algo pelo qual trabalhei toda a minha vida. Mas a alegria é tingida com a dor da perda de Alejandro, e o vazio deixado por sua ausência. — Obrigada, realmente significa muito para mim — digo, minha voz trêmula com a emoção. Os colegas de dança se aproximam para me parabenizar, e cada abraço, cada palavra de apoio, me aquece um pouco mais, ajudando a aliviar a dor. Sinto-me grata por ter a dança e essas pessoas maravilhosas ao meu lado. [...] Ao final do dia, saio do estúdio com o coração ainda pesado, mas um pouco mais esperançoso. Enquanto caminho para fora, vejo Alejandro esperando por mim. Ele está de pé ao lado de sua moto, segurando um lindo buquê de margaridas brancas. Seu sorriso doce é direcionado totalmente a mim, e meu coração aperta ao vê-lo. Meus seguranças fazem sinal do carro, mas eu peço um tempo, caminhando em direção a ele. — Tenho uma nova proposta para o dia de hoje madame — ele diz, sua voz suave e cheia de emoção. — Alejandro, eu pensei ontem, e é melhor que não nos vejamos mais — digo, tentando manter a distância emocional. — O que aconteceu? Eu fiz algo de errado ontem? Me desculpe Sol— ele insiste, segurando minhas mãos. Sinto a onda de emoção me dominar, mas sei que não posso ceder. Preciso ser forte por nós dois, é o melhor. — Não podemos, Alejandro. Não daríamos certo. É melhor se não nos virmos mais — digo, minha voz trêmula. Alejandro me olha com dor nos olhos, mas não solta minhas mãos. O buquê de margaridas cai ao chão, esquecido, enquanto nos olhamos, ambos lutando contra as lágrimas. — Me diga o que aconteceu, por favor— ele diz, sua voz desesperada. — É o melhor Alejandro, nós somos muito diferentes. Me perdoe — digo, puxando minhas mãos das dele e dando um passo para trás. Com lágrimas nos olhos, viro e começo a andar, sentindo o peso de cada passo. Ao me afastar, ouço Alejandro chamar meu nome, mas não me viro. Continuo andando, tentando manter a compostura, enquanto as lágrimas escorrem pelo meu rosto. Ao me afastar, sei que estou fazendo a escolha mais difícil da minha vida, mas também a única que posso fazer.
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