- Melhora essa cara - diz Christian, fechando a porta do carona com uma força desnecessária. Sentado atrás do volante, não hesita em girar a chave na ignição e dar partida - Era por estar feliz em poder ver seus pais.
Pelo menos ele tinha razão em dizer que eu deveria estar feliz, eu deveria mesmo mas, invés disso, sentia que estava indo para outra prisão. Os carrascos que estava para enfrentar, conseguiam ser piores do que Christian e mesmo eu os colocando lado a lado, ainda não sabia qual deles era pior.
- É melhor você não nos envergonhar - diz a minha mãe certa vez, se certificando que estaria impecavelmente arrumada - Caso o contrário, sou capaz de matar você com as minhas próprias mãos - Não era apenas mais uma de suas ameaças, eu sabia que ela era capaz de me matar, já que a mesma já havia tentado uma vez.
Eu estava prestes a envergonhar ela e corria o grande risco de ser morta.
A medida que o carro avança, as casas amontoadas, fios e esgoto expostos, começam a ficar para trás. Homens armados em cima de lajes, olham atentamente o carro mas, não fazem menção alguma em atirar, com certeza já sabiam de quem aquele carro pertencia e também deveria ser normal Christian sair daquele lugar.
Disfarçadamente olho para o homem ao meu lado, sentindo algo se agitar dentro de mim. A camiseta preta que ele vestia, estava apertada em seus braços musculosos, cujo um dos braços tinha a tatuagem de uma índia, o que automaticamente me fez lembrar da namorada dele.
Havia tatuagens em todo seu braço, inclusive em suas mãos. Até mesmo em seu pescoço, tinha aqueles rabiscos, que o deixavam ameaçadoramente sexy, algo que particularmente era perturbante para mim e que poderia facilmente atribuir a síndrome de Estocolmo.
O problema é que eu conhecia o meu sequestrador, já tínhamos um certo vínculo que, agora estava tentando quebrar a qualquer custo.
Mas ali estávamos nós, repetindo os mesmos erros do passado, dessa vez com a diferença de que apesar da resposta que meus pais dariam, Christian ainda me manteria em sua posse e isso era como uma afronta para eles.
- Ela sabe? - pergunto baixo, não conseguindo fazer com que me olhasse.
- Ela quem? - Engulo em seco, olhando para ele, com meus olhos desviando para a correntinha dourada que estava sobre a camiseta.
- Sua namorada.
Ele ergue um dos cantos da boca, levando a mão do braço que estava apoiado na janela até a boca, colocando o dedo indicador sobre os lábios rosados.
- Por que está preocupada com o que a Luara pensa? - Finalmente ele me olha e a única reação que consigo ter, é sustentar seu olhar.
Então este era o nome dela. Luara. Eu deveria ter imaginado que ela teria um nome exótico, assim como ela e que serviria como uma luva para ela.
- Não estou preocupada - digo por fim - Mas é você que está em um relacionamento aqui e duvido que ela iria gostar do que você está planejando.
- Luara não se mete nos meus planos e você deveria aprender com ela e fazer a mesma coisa - diz em seu tom sério costumeiro, dando como encerrado aquela conversa que m*l havia começado.
No final das contas, Luara deveria estar apoiando ele com aquela loucura, talvez seja por isto que ela havia sido gentil em me dar suas roupas. Ela queria que eu achasse que estava confortável e que tinha uma amiga, quando na verdade ela estava do lado dele.
Não havia ninguém que eu pudesse confiar além de Rafael e até onde eu percebi, Christian não gostava muito de ver o irmão por perto, o via como uma ameaça e isto poderia acabar colocando Rafael em problemas.
O carro continua avançando sem ao menos eu indicar o caminho. Era de se esperar que o trajeto até a casa dos meus pais, ainda estivesse fresco na cabeça de Christian, já que o mesmo deveria ter percorrido aquele mesmo caminho diversas vezes.
A medida que nos aproximávamos cada vez mais, meu corpo dava sinais que iria entrar em estado de pânico. Em determinado momento, preferi estar isolada do mundo sob o poder de Christian, invés de estar indo ao encontro dos meus pais, depois de tudo que fiz. Depois de destruir o casamento dos sonhos que ambos planejaram para mim desde que nasci!
Começo a respirar pelos lábios entre abertos, segurando com força o cinto de segurança, sem saber se conseguiria me jogar para fora do carro em movimento. As portas estavam travadas e isto ficou fora de cogitação em instantes.
- Parece que nada mudou - diz Christian, quando estaciona o carro na frente do prédio de luxo que meus pais moravam. Me sinto incapaz de até mesmo olhar para o prédio com trinta andares, ainda estava naquele tempo que não conseguia mais olhá-lo de frente, não depois de tudo que aconteceu.
Christian faz menção em descer do carro, então abruptamente sem até mesmo planejar, tento o impedir.
- Eu não vou conseguir! - digo com a voz urgente, fazendo que o mesmo parasse. Ele demora dois segundos para se virar para mim.
- É os seus pais - Faz questão de ressaltar, com os olhos arregalados sustento seu olhar.
- Por favor, não - Peço baixo, esperançosa de que ele perceberia que eu estava prestes a ter um ataque do coração se ele me forçasse a entrar naquele prédio.
O rosto de Christian suaviza a medida que sustenta meu olhar, entretanto, quando ele desce de repente do carro, tenho a certeza que meu pedido não havia sido atendo. E eu não sei por quê pensei que seria, já que a função dele era me fazer sofrer de todas as maneiras possíveis.
Abrindo a porta do carona, ele se inclina sobre mim, tirando meu cinto de segurança, roçando seu corpo no meu, o que me fez
parar de respirar de imediato, anestesiada pelo cheiro que exalava de seu corpo. Era o mesmo perfume de anos atrás.
- Sem essa, Laura - diz ele de repente, fazendo com que eu piscasse algumas vezes, voltando para a realidade - Nós nos amamos e eles vão ficar felizes em nos ver - Pegando em meu braço, ele me puxa com força para fora do carro, batendo a porta em seguida, colocando por último seus óculos-escuros.
Christian segura a minha mão com força, me força a andar em direção da portaria e sorrindo de forma gentil, cumprimenta o porteiro que já me conhecia e que não hesita em permitir nossa entrada. A medida que avançavámos para o interior do prédio, começo a sentir meu sangue gelar em minhas veias e meu coração começar a bombear mais sangue.
- Christian - Choramingo baixo, tentando fincar meus pés no chão, praticamente sendo arrastada para o elevador - Por favor - Havia lágrimas em meus olhos ainda não derramadas e que se acumulavam ainda mais.
Segurando em meus ombros com firmeza, em um movimento ele me gira para dentro do elevador, batendo minhas costas contra o espelho que havia ali, me fazendo perder o fôlego por um momento. Seu corpo estava a poucos centímetros do meu, sua respiração calma e seu perfume se impregnando pouco a pouco dentro de mim, criando raízes.
Christian olha dentro dos meus olhos, com aqueles olhos que sempre se mostravam apaixonados por mim e que agora mantinham um vazio que, eu sabia muito bem como havia ido parar ali. Seus olhos descem para a minha boca, seus lábios separados eram um convite explícito para o beijar mas, não acreditava que era isto que ele estava planejando naquele momento.
Seus olhos desviam no instante seguinte para a câmera que havia no canto do elevador e volta a me olhar.
- É bom começar a se comportar. Não quero ter que jogar você do último andar.
E como esperado, uma frase, consegue fazer com que todo meu corpo se retraía. Christian percebe isto, já que dá um passo para
trás, se afastando de mim, levando com ele o cheiro do seu perfume e qualquer outra sensação boa que estava sentindo com a aproximação de seu corpo. Agora havia apenas sobrado o pavor em meu corpo gelado.
Quando as portas do elevador se abrem, encaro o corredor em minha frente temerosa, sem ao menos esperar, Christian segura novamente em minha mão com força e volta a me puxar com toda delicadeza de um cachorro, agora em direção do apartamento dos meus pais. A cada passo que eu dava, sentia como se estivesse me aproximando ainda mais da minha morte.
Diferente de mim, Christian não parecia nem um pouco preocupado, pelo contrário, estava bem calmo e transmitia segurança. Estaria dessa forma, como já estive um dia, se estivesse em seu lugar mas, agora estava no lugar dele anos atrás e sentia que aquela seria apenas a primeira prova que eu precisaria passar, para o começo da vingança dele.