Deitada sobre meus braços dobrados sobre a mesa, pouco a pouco me via cada vez mais embalada pelo sono que sempre me acompanhava, além do cansaço que já havia se tornado costumeiro.
Pelo menos dormindo, não era obrigada a presenciar Christian sendo carinhoso com outra mulher, dando o melhor de si e recebendo o melhor dela. Realmente era como se estivesse numa espécie de purgatório e a única coisa que poderia fazer, era sofrer.
As palavras dela ainda repetiam em minha mente, talvez ela já deveria ter percebido qual seria o desfecho de tudo aquilo e só estava sendo gentil em me alertar. Christian não estava de brincadeira e já deveria ter percebido isto há algum tempo, possivelmente quando ele permitiu que me estuprassem e não foi só um susto, foi real.
A morte já não atendia mais meus pedidos, tentar encontrar a morte, estava completamente fora de cogitação, pois minha última tentativa não havia sido muito precisa e ele me trouxe de volta, mesmo quando meu corpo estava falhando. Ele estava mais do que decidido com o que estava fazendo e realmente ela poderia ter razão, ele só iria parar quando simplesmente me encontrasse morta ou quando tirasse minha vida.
A única alternativa viável e o modo que eu poderia “pagar” ele, seria cedendo ao que ele queria, mesmo isto sendo a última coisa que eu eu queria naquele momento. Mas qual alternativa me sobrava além daquela? Não havia nenhuma outra. Oferecer dinheiro em troca da minha liberdade, com certeza não era algo que estava passando na cabeça dele e percebendo no que Christian havia se tornado, não iria querer meu dinheiro, era capaz de queimá-lo bem diante dos meus olhos, apenas para me provar isto, que o meu dinheiro ou da minha família, não era melhor do que qualquer outro de outra pessoa.
Eu estava sem saída.
Ergo a cabeça rapidamente, num sobressalto, quando algo é colocado bruscamente em minha frente. Ainda sonolenta, ergo a cabeça, notando a namorada de Christian em minha frente e sobre a mesa o que parecia ser roupa e higiene básica, com até mesmo cremes hidratantes.
- Essas roupas eu tinha aqui - diz ela, quando nota meu olhar - Se usei duas vezes, usei muito - Ergo o olhar, quando me dou conta de que tinha roupas tão bonitas como aquelas, até mesmo de grife que, também não usei com frequência e simplesmente joguei fora, por não querer ninguém usando as minhas roupas.
Acaricio um dos tecidos, sentindo a maciez da roupa, além do cheiro característico de amaciante.
- Vai lá tomar um banho, pode usar o banheiro da área de serviço se quiser - Ela finaliza, andando em direção ao corredor - Christian está no quarto e não acho que vá sair de lá agora - Dito isto, ela some no corredor, me deixando com as peças de roupa e com os produtos que era básico para uma pessoa ficar limpa.
Hesitante, pego uma muda de roupa e guardo a restante da área de serviço, indo para o banheiro. Era a segunda vez que eu tomava banho e que sentia uma felicidade me invadir, era maravilhoso sentir a água me lavando, descendo por todo meu corpo e me deixando limpa. Com a cabeça inclinada para trás, permito que a água caía em minha cabeça, acalmando os pensamentos que haviam ali e novamente trazendo uns que eu não queria e que, me forcei para não deixar me dominarem.
- Você está se sujando toda, Laura - diz Christian sorrindo, quando pego a garrafa de vinho que peguei da adega dos meus pais e começo a jogar em meu corpo nú, que fazia sombra na parede ao lado, graças a pouca luz.
- Vem tirar - digo com a voz manhosa, Christian não hesita em começar a lamber a trilha de vinho.
Segurando seu cabelo, o jogo contra a parede mais perto e o beijo com vontade, invadindo sua boca com a minha língua, para sua surpresa.
- Vou fazer amor com você - sussurro em seu ouvido.
Um arrepio percorre meu corpo e fecho meus olhos com mais força, perdendo o fôlego por um momento, com um vazio inexplicável dentro de mim. Nunca entendi o que as pessoas que perdiam outras pessoas se sentiam, agora eu conseguia imaginar e era horrível, era como se meu coração estivesse sendo puxado para fora do peito.
Quando me dou conta, estou de joelhos no chão, com a água caindo em minhas costas, em pratos, num choro que parecia que nunca iria terminar. Abraço meu próprio corpo, esperando que aquela “dor” diminuísse, já que eu sabia que nunca iria sumir, continuaria dentro de mim em algum lugar, vindo à tona toda vez que achasse que fosse necessário.
Definitivamente eu não sabia lidar com o que estava sentindo, estava falhando sem ao menos tentar e não queria tentar novamente mas, também não queria mais sofrer. Só queria que parasse de doer.
Quando já não conseguia mais chorar, os soluços continuaram e meu corpo se estremecia com os mesmos. Aos poucos, ainda sem querer, tomei minha decisão inevitável, imaginando que dessa forma também iria conseguir diminuir aquele dor que estava sentindo. Pelo menos iria ficar perto dele e parecia que já bastaria para mim.
Tomada banho e vestida em roupas que ficaram mais do que folgadas em mim, atravessei a cozinha em direção da escada, subindo os degraus com toda a determinação que estava em meu corpo naquele instante. A medida que me aproximava do quarto, podia ouvir ambos conversando intimamente e me senti m*l por quebrar o clima que poderia estar acontecendo entre eles naquele momento.
Bato na porta o mais suave possível, demorando alguns segundos para que a mesma abrisse e ela aparecesse diante de mim, sorrindo sem mostrar os dentes, quando me vê limpa e apresentável. Deitado na cama, com os braços em baixo da cabeça, Christian não reagiu da mesma forma, senti a surpresa atravessar seu rosto, logo ele se recuperou e su expressão automáticamente se tornou séria.
- O que você quer? - pergunta da forma mais ríspida que ele consegue. Me arrependi no mesmo instante de estar ali diante dele.
-... eu queria com você - murmuro, mexendo minhas mãos em frente ao corpo.
- Já está falando, Laura - Ignoro o olhar da namorada dele ainda fixo em minha frente, abaixando o olhar.
- Em particular - Complemento. Um breve silêncio se instalou, até que ele suspira, se sentando, levantando em seguida, passando pela namorada, dando um tapa em sua b***a.
Ela lança um breve sorriso em sua direção, antes de me olhar novamente. Sigo Christian sem fazer contato visual até a sala de estar, aonde ele para no meio da sala com os braços cruzados sob o peito e me olha, ainda com seu olhar frio.
- Fala logo o que você quer.
Desde que havia o visto pela primeira vez, me sentia nervosa, não sabia como agir diante dele e até mesmo as palavras faltavam.
- Eu aceito - murmuro.
- Aceita o quê? - Ele pergunta com a sua voz severa.
- Casar.
Breve silêncio, até que ele dá um passo na minha direção e recuo sem perceber, não confiando no que ele poderia fazer contra mim.
- Está com medo de mim?
- Não - digo sem hesitar, mesmo a minha resposta sendo outra. Ele volta a andar em minha direção e dessa vez não recuo, apenas continuo mexendo as minhas mãos em frente ao corpo.
- Diga o que você quer.
Engulo em seco, me dando conta do que ele queria ouvir.
- Eu quero me casar com você.
- Diga mais alto e olhando nos meus olhos - Reluto para erguer a cabeça mas, quando acontece, sinto um frio percorrer todo meu corpo. Suas pupilas estavam dilatadas e fixas em mim.
- Eu quero me casar com você, Christian - digo em bom som.
Um sorriso surge lentamente em seu rosto, ao erguer um dos canto da boca.
- Mas eu não quero me casar com você - Franzo o cenho, quando aquelas palavras saem de sua boca - Você não é boa o suficiente para mim.
- Christian... - Lágrimas se formam em meus olhos.
- Olha para você, Laura. Posso ter qualquer mulher que eu quiser, você percebeu a que está neste momento na minha cama. Acha mesmo que iria me casar com alguém tão fora de nível? - Ele me olha de cima abaixo, balançando a cabeça lentamente de um lado para o outro em desaprovação - Você não serve para mim. E serve, na cozinha, fazendo o que você está fazendo por aqui.
Ele passa por mim em passos pesados, subindo os degraus da escada assoviando, me deixando aos cacos no meio da sala, com as lágrimas escorrendo do meus olhos que estavam arregalados. Suas palavras haviam me atravessado como flechas e atingindo em cheio o meu coração que, parava lentamente de bater ao ser desprezada daquela forma.