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1496 Words
Dou um passo para trás, quando arrumo a mesa para o almoço, como costumavam arrumar em minha casa. Havia encontrado um jogo de jantar ainda na caixa no armário e achei que seria interessante arrumar a mesa daquela forma, mesmo sendo para meu ex e sua nova namorada. Meu estado era péssimo, havia fios de cabelos arrepiados, além do meu cabelo estar oleoso, assim como minha pele, por não terem visto água ainda. Minhas roupas estavam sujas e já não aguentava nem mais meu próprio cheiro, desconhecendo novamente a mulher que eu estava me tornando. Mas pela primeira vez estava me sentindo feliz por alguma coisa, mesmo que fosse algo tão bobo, como arrumar a mesa para o almoço para duas pessoas. Eu fazia isso com frequência, quando estava casada algumas vezes, outras vezes simplesmente faziam por mim e eu levava os créditos por ser tão detalhista. Sorrio para mim mesma, com meu olhar mudando no mesmo instante para o corredor, quando ouço passos vindo naquela direção. Não queria que me vissem naquele estado, principalmente a namorada dele mas, não havia para onde correr, poderia me esconder na área de serviço, sabia que ele me chamaria para servir o almoço. Então dessa forma, permaneci paralisada e quando a mulher de antes apareceu em minha frente, vestida com a camiseta que ele estava vestindo, me senti o pior do lixo da face da Terra e novamente atacada pelo passado. - Quem é esse aí? - O filho do governador pergunta, assim que saímos do meu quarto e nos damos de cara com o Christian tirando o pó de alguns móveis com todo o cuidado do mundo. - Ele é o filho da empregada - digo baixo, mesmo sabendo que ele era mais do que o filho da empregada, era meu namorado. Fecho meus olhos com força, soltando o ar pela boca, franzindo o cenho. A mulher se senta em uma cabeceira da mesa e Christian em outra, com seus olhos percorrendo a mesa. - Gostei deste jogo de jantar - diz ela de repente, olhando para mim. Coloco uma mecha de cabelo solta atrás da orelha, evitando contato visual - É assim que se chama, não é? - Ela estava puxando conversa? Comigo? - Pelo jeito você é mais prendada do que achei - Christian comenta logo em seguida, fazendo com que o breve sorriso surgisse do rosto da mulher - Espero que também a comida esteja boa, pois ultimamente você tem deixado a desejar. O fato de não saber cozinhar, de não ser boa na cozinha, parecia não importar para Christian, que mesmo sabendo disso, me mantinha cozinhando, com certeza usando isto para me humilhar. Aos poucos começo a por a comida que estava em travessas sobre a mesa. O almoço daquele dia havia sido mais prático do que nos outros dias, pelo menos foi essa a impressão que tive ao cozinhar no macarrão e temperar o molho que seria servido junto com o macarrão. A mulher parecia contente com o prato, pois não demorou para se servir, sorrindo sem mostrar os dentes para Christian, mastigando. - Quero outra coisa - diz ele de repente, para meu espanto, pois não estava esperando aquela recusa. - Mas Christian, você gostava de macarronada. - Gostava - Ele olha para mim com seus olhos frios - Não sou obrigado a gostar mais - Se recostando na cadeira, cruza os braços sob o peito - Dá para o Lord. - A comida toda? - Sim. Ele deve estar com fome. - Pra quê isto, Christian? - A mulher pergunta abismada - O macarrão está gostoso, além disso duvido que ela tenha almoçado ainda. - Ela não precisa almoçar. Engulo em seco, olhando para a comida com um certo pesar, tirando as travessas de cima da mesa, começo a preparar a comida para dar para o cachorro. Após garantir que Lord não me morderia, volto para a cozinha, aonde começo a preparar agora algo para Christian comer, já que nem seus pratos favoritos eram mais os mesmos. Acabei por fazer um omelete e servir com salada. Algo que ele olhou com bastante atenção, cortando um pedaço do mesmo e levando despreocupadamente até a boca. - Poderia ter temperado mais - murmura, sem me olhar. - Desculpa - sussurro. - Desculpas não vai fazer meu almoço ficar melhor e nem abrir meu apetite - Seus olhos se fixam em mim - É melhor aprender a cozinhar de verdade, se não quiser que eu te ensine da melhor forma que sei - Sustento seu olhar, sentindo alto se encolher dentro de mim, talvez o que havia sobrado dentro de mim do passado. Eu queria implorar para ele parar, para esquecer aquela vingança e perdoar. Mas não conseguia, ele me amedrontava, me fazia temer, era como um pesadelo em carne e osso, no qual não conseguia me livrar. - Olha o que você fez - Ele levanta de repente - Perdi a fome - Aquelas palavras me atravessaram mais rápido do que pensei, assim como a lembrança que surgiu como fumaça em minha mente. - Olha o que você fez, menino - diz a minha mãe com o nojo nítido em sua voz - Perdi o apetite por sua causa, só de olhar essas suas mãos encardidas e sentir esse seu cheiro de pobre - Ela se levanta da mesa, pisando duro para fora do cômodo, me deixando incrédula para trás, sem saber como reagir diante da sua afirmação. Me afasto da mesa, após retirar o prato de Christian, me apoiando por alguns instantes na pia, sentindo que estava cada vez mais cedendo à tudo aquilo, novamente como uma corda prestes a ceder com tanta pressão. Eu já estava me arrependendo de tudo, já havia pedido perdão dezenas de vezes em minha mente mas, parecia que minhas preces não seriam atendidas tão cedo, não enquanto Christian achasse que eu lhe devia alguma coisa. E eu sabia que eu devia muito à ele. - Ele nem sempre é tão insuportável - diz a mulher se aproximando de mim, me fazendo lembrar que ela ainda estava ali. Claro que ele não era daquele jeito com ela, os gemidos que ouvi a manhã inteira, deixou isso claro para mim, eu era o motivo dele estar agindo daquela forma. Somente eu - Mas ultimamente não estou reconhecendo ele. - Conhece ele há muito tempo? - A pergunta saiu da minha boca sem que eu percebesse, me xingo mentalmente por ser tão invasiva e querer saber da vida de uma pessoa que não dava à mínima para mim. - Dois anos - diz ela, arrumando os pratos na mesa - Mas quer um conselho? Mesmo minha vó sempre dizendo que se conselho fosse bom, não se dava, se vendia - Ela apoia uma das mãos na pia, inclinando a cabeça para o lado ao me olhar - O pouco que eu conheço Christian, aconselho que você pague de uma vez por todas o que está devendo para ele - A seriedade em sua voz suave me paralisou - Isto que está vendo, só é o começo. Ele consegue ser pior do que isto, pior até mesmo que o Lord - Um breve silêncio se instala na cozinha, até que ela olha para o corredor e novamente para mim - Então pague, antes que seja tarde demais e ele só se contente em ver você morta. Não consegui mover um músculo se quer, ela estava falando do homem que um dia amei e que continuava a amar. Aquela mulher parecia conhecer ele até mesmo melhor que Rafael e estava me aconselhando a ceder ao que fosse que ele queria. - Eu lavo e você seca - diz ela em seguida, se preparando para começar a lavar os pratos. - Não precisa, eu consigo. Ela me olha novamente. - Eu sei que você consegue mas, não gosto de fazer ninguém de empregado - diz séria, começando a lavar os copos. Ainda me sentindo anestesiada pelas suas palavras, pego o pano de prato ao lado e começo a secar os copos que eram lavados, sem conseguir desviar da mulher que estava a poucos passos de mim. Ela era mais bonita do que eu achava, seu cabelo que estava agora em coque, brilhava e me questionei qual hidratação ela usava. Suas curvas eram perfeitas, dignas de qualquer homem virar o pescoço para admirar. Christian parecia ter feito a escolha certa. Mas mesmo assim não entendia como ele com uma mulher daquela ao seu lado, ainda queria se prender a mim à um casamento forçado, apenas para se vingar. Será que ela sabia daquele plano dele? Sabia que ele tinha planos em se casar comigo e me engravidar? Me senti tentada em lhe contar, talvez assim ela o fizesse mudar de ideia e até mesmo me ajudar a ir embora daquele lugar. Mas também temia sua reação, ela poderia ficar ao lado dele depois que ele lhe contasse tudo e se virar contra mim.
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