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1508 Words
- Não entendo muito sobre anatomia humana, mas não precisa ser um gênio para notar que ela está praticamente desnutrida - Ouço a voz do veterinário ao longe, enquanto lutava como sono - Ela precisa de uma alimentação equilibrada e descanso. Se ela continuar dessa maneira, vai acabar morrendo e qualquer coisa que eu faça, não vai adiantar - Um breve silêncio se instala - Falcão, estou falando sério. O caso dessa mulher... ela não deveria estar sendo tratada por mim, um veterinário! Outro breve silêncio, até que a voz de Christian soa. - Também deve ter percebido que ela é uma mulher forte. E sei o que estou fazendo. Não ouço mais nada, apago novamente. Minha mente estava estranhamente vazia, não tinha sonhos ou lembranças espreitando, apenas a escuridão e de vez em quando o silêncio, quando não estava ouvindo vozes. As vezes conseguia abrir meus olhos, sempre estava num lugar com pouca claridade. Ouvia distante dali, uma tv e de vez em quando passos, eram masculinos, notei, pela forma com que caminhava. Em determinado momento, o sono começou a se dissipar do meu corpo e já não era mais dominada por ele. Foi então que notei que estava com a minha bexiga cheia e com sede, levantei com mais facilidade do que achava, ainda havia dor, mas apenas quando me movimentava bruscamente. Saindo do lugar onde estava, ando pelo piso frio, abrindo a porta. É então que percebo que estava num quarto, eu o conhecia, era um dos quartos da casa de Christian. Atravesso o corredor até o banheiro, que estava com a porta aberta, me inclino no lavatório e começo a beber o máximo de água. Quando me apoio no lavatório, estou ofegante mas saciada. A próxima coisa que faço, é aliviar minha bexiga.Me assusto quando noto uma presença masculina na porta, segurando uma toalha. - Toma um banho. Você está fedendo - Ele joga a toalha contra meu rosto, se afastando. Meus olhos vagam pelo chão do banheiro, enquanto tento contabilizar quanto tempo fazia que eu não tomava um banho. Apesar de não lembrar, lembrava que meu último banho havia sido com tudo que eu tinha direito. Até pareceu como uma despedida, fiquei mais de uma hora dentro da banheira de porcelana, massageando meu corpo. Relaxando na água quente e mantendo os pensamentos longe da minha mente. Depois de todo esse “relaxamento” matei meu marido e minha vida virou de ponta cabeça. Aquele banheiro não era como o meu, não tinha uma banheiro, mesmo assim estava disposta em tomar um banho. Em frente ao espelho, pela primeira vez depois de tanto tempo, analiso minha aparência. Meus cabelos estavam completamente emaranhados e havia hematomas amarelados em meu rosto, pescoço, b***o e braços. Realmente eu estava mais magra do que me lembrava, minha clavícula estava bastante aparente e havia olheiras escuras em baixo dos meus olhos. Só não me sentia como uma zumbi, literalmente eu era um zumbi. Christian não mentiu quando disse que eu estava fedendo, realmente eu estava, parecia uma carniça ou algo meramente semelhante. Não tinha nem como tentar lavar aquelas roupas, era perda total, o que significava que eu estava sem nenhuma roupa. Os nós em meu cabelo eram muitos e mesmo com toda paciência que estava tendo, duvidava que conseguiria salvar os fios longos. Esfreguei minha pele o máximo que pude, queria ter certeza que estava completamente limpa quando saísse dali, mesmo sentindo que minha alma não estava. Era capaz de eu usar toda a água do bairro e mesmo assim, continuaria a me sentir suja, violada, imunda. Novamente diante do espelho, após o banho, encaro meu reflexo, segurando uma tesoura. A ideia de tentar me matar maisuma vez, surgiu em minha mente, mas sabia que Christian impediria novamente e todo o ciclo se repetiria. Em vez disso, começo a cortar os nós em meu cabelo, contente por nunca ter sido apegada à ele, diferente da minha mãe que, sempre fez questão de ressaltar o quanto meu cabelo era bonito e que a beleza de uma mulher estava em seu cabelo. Descobriria isso depois que terminasse ali e estava torcendo com todas as minhas forças, que não fosse verdade. Já estava com minha auto estima mais do que para baixo, e não queria concluir que meu cabelo era o motivo pelo qual me sentia bonita. Deixo o banheiro enrolada em ma toalha, atrás de Christian, precisava de roupas, mesmo que fosse as roupas dele. Só não queria ficar à mercê de uma toalha. Ele não estava na sala, nem do lado de fora da casa, o que me faz deduzir que estava na cozinha. O cheiro de comida faz com que meu estômago começasse a roncar. Christian estava diante do fogão, fritando alguma coisa e antes que pudesse a dizer alguma coisa, ele me interrompe. - Senta aí - Dito isto, ele se aproxima e coloca na minha frente o prato do Lorde com comida. Encaro a comida atraente, salivando. Estava com tanta fome, que comeria ali mesmo, não me importaria - Está com fome, não é? - Respiro pelos lábios entre abertos. - Estou - Admito, sem tirar os olhos da comida. - Você pode comer, se quiser - Eu podia comer, penso, colocando minhas mãos sobre a mesa, pronta para começar a comer com as mãos mesmo. Mas é no instante seguinte, que Christian tira o prato azul redondo da minha frente - Pode também dormir em uma cama e também tomar banho, vestir roupas limpas... - Ele empurra devagar o prato, novamente para perto de mim - agir como uma pessoa - Ergo a cabeça, encontrando seu olhar - Quero tratar você como uma pessoa, Laura, mas precisa cooperar. - O que quer que eu faça? - Estava pronta para ouvir um de seus “pedidos” mirabolantes. Eu estava viva, sob o poder dele, nas garras afiadas dele e não tinha como fugir dele. Ele apoia as duas mãos sobre a mesa, se inclinando sobre mim. - Quero que case comigo.Pisco algumas vezes, franzindo o cenho, sem ter certeza se havia escutado certo. A palavra casamento havia saído da boca do homem que mais me odiava, na face da Terra? Depois de todas as humilhações, ele queria me fazer passar por mais humilhações, agora casada com ele. - O que você disse? - pergunto baixo, esperando que ele repetisse as mesmas palavras. - Acho que fui claro, Laura - diz erguendo um dos cantos da boca num sorriso - Quero que se case comigo. E irá. - Meu cenho continua franzido, enquanto o olho abismada e ao mesmo tempo perplexa. - O que faz você pensar que vou me casar com você? - pergunto séria, entre dentes. - Sabe o que estão dizendo por aí de você? Que está desaparecida, não mencionaram que matou seu marido. Isto deve ser por causa dos seus pais, que deviam ter agido rápido e impedido que isso chegasse à mídia - Ele suspira - Mas este não é o xis da questão, Laura. Não sabe como me faria feliz, se eu fizesse parte da sua família. - Você não está falando sério... - Ele não poderia estar, Christian não só me odiava, como também odiava minha família, ouvir essas palavras saindo de sua boca, chegava ser sarcástico. Estava mais do que claro que ele tinha um plano diabólico por trás disso. - Vamos fazer do jeito certo - Seus dedos pega uma mecha do meu cabelo - Vou pedir você em casamento diante de seus pais num jantar maravilhoso. Seguro minha cabeça, encarando o vazio ainda sem acreditar. - E o que acontece se eu negar? - Você perderá todos os benefícios - Em outras palavras, ele continuaria me tratando como se eu não fosse um ser humano, sem qualquer direito aos alimentos e a minha higiene básica - Vamos lá, Laura. Já tentamos uma vez, podemos tentar novamente. Só que dessa vez, irá dar certo. Sustento o olhar dele novamente, dessa vez com meus lábios numa linha reta. Os movo de um lado para o outro, não querendo deixar me intimidar.- Só que antes eu amava você - digo o mais claro possível, conseguindo tirar qualquer reação de Christian. Seus olhos se tornaram inexpressivos e senti pela primeira vez, que consegui contra atacar. Lentamente um sorriso surge em seu rosto, isto faz com que eu mude drasticamente de ideia. Christian não se dava por vencido e ele não iria permitir que eu achasse isso, ele não daria seu braço a torcer e se fosse necessário me fazer entrar em seu jogo, ele faria. - E o que faz você pensar que não me ama ainda? - diz aproximando o rosto do meu, deixando apenas centímetros de distância - Só preciso estalar meus dedos, para que venha até mim como uma cadela - Me sinto incapaz de desviar o olhar - Sempre foi assim, Laura, e sempre vai ser. Você nunca irá se livrar de mim - Ele toca a ponta da minha orelha, como costumava fazer no passado.
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