- Não entendo muito sobre anatomia humana, mas não precisa ser
um gênio para notar que ela está praticamente desnutrida - Ouço a
voz do veterinário ao longe, enquanto lutava como sono - Ela
precisa de uma alimentação equilibrada e descanso. Se ela continuar
dessa maneira, vai acabar morrendo e qualquer coisa que eu faça,
não vai adiantar - Um breve silêncio se instala - Falcão, estou
falando sério. O caso dessa mulher... ela não deveria estar sendo
tratada por mim, um veterinário!
Outro breve silêncio, até que a voz de Christian soa.
- Também deve ter percebido que ela é uma mulher forte. E sei o
que estou fazendo.
Não ouço mais nada, apago novamente. Minha mente estava
estranhamente vazia, não tinha sonhos ou lembranças espreitando,
apenas a escuridão e de vez em quando o silêncio, quando não
estava ouvindo vozes.
As vezes conseguia abrir meus olhos, sempre estava num
lugar com pouca claridade. Ouvia distante dali, uma tv e de vez em
quando passos, eram masculinos, notei, pela forma com que
caminhava.
Em determinado momento, o sono começou a se dissipar do
meu corpo e já não era mais dominada por ele. Foi então que notei
que estava com a minha bexiga cheia e com sede, levantei com mais
facilidade do que achava, ainda havia dor, mas apenas quando me
movimentava bruscamente.
Saindo do lugar onde estava, ando pelo piso frio, abrindo a
porta. É então que percebo que estava num quarto, eu o conhecia,
era um dos quartos da casa de Christian. Atravesso o corredor até o
banheiro, que estava com a porta aberta, me inclino no lavatório e
começo a beber o máximo de água. Quando me apoio no lavatório,
estou ofegante mas saciada.
A próxima coisa que faço, é aliviar minha bexiga.Me assusto quando noto uma presença masculina na porta,
segurando uma toalha.
- Toma um banho. Você está fedendo - Ele joga a toalha contra meu
rosto, se afastando. Meus olhos vagam pelo chão do banheiro,
enquanto tento contabilizar quanto tempo fazia que eu não tomava
um banho.
Apesar de não lembrar, lembrava que meu último banho
havia sido com tudo que eu tinha direito. Até pareceu como uma
despedida, fiquei mais de uma hora dentro da banheira de porcelana,
massageando meu corpo. Relaxando na água quente e mantendo os
pensamentos longe da minha mente.
Depois de todo esse “relaxamento” matei meu marido e minha
vida virou de ponta cabeça. Aquele banheiro não era como o meu,
não tinha uma banheiro, mesmo assim estava disposta em tomar um
banho. Em frente ao espelho, pela primeira vez depois de tanto
tempo, analiso minha aparência.
Meus cabelos estavam completamente emaranhados e havia
hematomas amarelados em meu rosto, pescoço, b***o e braços.
Realmente eu estava mais magra do que me lembrava, minha
clavícula estava bastante aparente e havia olheiras escuras em baixo
dos meus olhos.
Só não me sentia como uma zumbi, literalmente eu era um
zumbi. Christian não mentiu quando disse que eu estava fedendo,
realmente eu estava, parecia uma carniça ou algo meramente
semelhante. Não tinha nem como tentar lavar aquelas roupas, era
perda total, o que significava que eu estava sem nenhuma roupa.
Os nós em meu cabelo eram muitos e mesmo com toda
paciência que estava tendo, duvidava que conseguiria salvar os fios
longos. Esfreguei minha pele o máximo que pude, queria ter certeza
que estava completamente limpa quando saísse dali, mesmo
sentindo que minha alma não estava. Era capaz de eu usar toda a
água do bairro e mesmo assim, continuaria a me sentir suja, violada,
imunda.
Novamente diante do espelho, após o banho, encaro meu
reflexo, segurando uma tesoura. A ideia de tentar me matar maisuma vez, surgiu em minha mente, mas sabia que Christian impediria
novamente e todo o ciclo se repetiria. Em vez disso, começo a cortar
os nós em meu cabelo, contente por nunca ter sido apegada à ele,
diferente da minha mãe que, sempre fez questão de ressaltar o
quanto meu cabelo era bonito e que a beleza de uma mulher estava
em seu cabelo.
Descobriria isso depois que terminasse ali e estava torcendo
com todas as minhas forças, que não fosse verdade. Já estava com
minha auto estima mais do que para baixo, e não queria concluir que
meu cabelo era o motivo pelo qual me sentia bonita.
Deixo o banheiro enrolada em ma toalha, atrás de Christian,
precisava de roupas, mesmo que fosse as roupas dele. Só não queria
ficar à mercê de uma toalha. Ele não estava na sala, nem do lado de
fora da casa, o que me faz deduzir que estava na cozinha. O cheiro
de comida faz com que meu estômago começasse a roncar.
Christian estava diante do fogão, fritando alguma coisa e antes
que pudesse a dizer alguma coisa, ele me interrompe.
- Senta aí - Dito isto, ele se aproxima e coloca na minha frente o
prato do Lorde com comida. Encaro a comida atraente, salivando.
Estava com tanta fome, que comeria ali mesmo, não me importaria -
Está com fome, não é? - Respiro pelos lábios entre abertos.
- Estou - Admito, sem tirar os olhos da comida.
- Você pode comer, se quiser - Eu podia comer, penso, colocando
minhas mãos sobre a mesa, pronta para começar a comer com as
mãos mesmo. Mas é no instante seguinte, que Christian tira o prato
azul redondo da minha frente - Pode também dormir em uma cama e
também tomar banho, vestir roupas limpas... - Ele empurra devagar
o prato, novamente para perto de mim - agir como uma pessoa -
Ergo a cabeça, encontrando seu olhar - Quero tratar você como uma
pessoa, Laura, mas precisa cooperar.
- O que quer que eu faça? - Estava pronta para ouvir um de seus
“pedidos” mirabolantes. Eu estava viva, sob o poder dele, nas garras
afiadas dele e não tinha como fugir dele.
Ele apoia as duas mãos sobre a mesa, se inclinando sobre mim.
- Quero que case comigo.Pisco algumas vezes, franzindo o cenho, sem ter certeza se
havia escutado certo. A palavra casamento havia saído da boca do
homem que mais me odiava, na face da Terra? Depois de todas as
humilhações, ele queria me fazer passar por mais humilhações,
agora casada com ele.
- O que você disse? - pergunto baixo, esperando que ele repetisse as
mesmas palavras.
- Acho que fui claro, Laura - diz erguendo um dos cantos da boca
num sorriso - Quero que se case comigo. E irá. - Meu cenho
continua franzido, enquanto o olho abismada e ao mesmo tempo
perplexa.
- O que faz você pensar que vou me casar com você? - pergunto
séria, entre dentes.
- Sabe o que estão dizendo por aí de você? Que está desaparecida,
não mencionaram que matou seu marido. Isto deve ser por causa dos
seus pais, que deviam ter agido rápido e impedido que isso chegasse
à mídia - Ele suspira - Mas este não é o xis da questão, Laura. Não
sabe como me faria feliz, se eu fizesse parte da sua família.
- Você não está falando sério... - Ele não poderia estar, Christian não
só me odiava, como também odiava minha família, ouvir essas
palavras saindo de sua boca, chegava ser sarcástico. Estava mais do
que claro que ele tinha um plano diabólico por trás disso.
- Vamos fazer do jeito certo - Seus dedos pega uma mecha do meu
cabelo - Vou pedir você em casamento diante de seus pais num
jantar maravilhoso.
Seguro minha cabeça, encarando o vazio ainda sem acreditar.
- E o que acontece se eu negar?
- Você perderá todos os benefícios - Em outras palavras, ele
continuaria me tratando como se eu não fosse um ser humano, sem
qualquer direito aos alimentos e a minha higiene básica - Vamos lá,
Laura. Já tentamos uma vez, podemos tentar novamente. Só que
dessa vez, irá dar certo.
Sustento o olhar dele novamente, dessa vez com meus lábios
numa linha reta. Os movo de um lado para o outro, não querendo
deixar me intimidar.- Só que antes eu amava você - digo o mais claro possível,
conseguindo tirar qualquer reação de Christian. Seus olhos se
tornaram inexpressivos e senti pela primeira vez, que consegui
contra atacar.
Lentamente um sorriso surge em seu rosto, isto faz com que eu
mude drasticamente de ideia. Christian não se dava por vencido e ele
não iria permitir que eu achasse isso, ele não daria seu braço a torcer
e se fosse necessário me fazer entrar em seu jogo, ele faria.
- E o que faz você pensar que não me ama ainda? - diz aproximando
o rosto do meu, deixando apenas centímetros de distância - Só
preciso estalar meus dedos, para que venha até mim como uma
cadela - Me sinto incapaz de desviar o olhar - Sempre foi assim,
Laura, e sempre vai ser. Você nunca irá se livrar de mim - Ele toca a
ponta da minha orelha, como costumava fazer no passado.