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1476 Words
Christian não me deixou comer, não enquanto eu não lhe dissesse minha decisão. Mesmo ele já sabendo. Invés disso, passei o restante do dia lidando com os tremores pelo meu corpo, a fraqueza e meu raciocínio lento. Praticamente me arrastava de um lado para o outro, ocupada em minhas tarefas domésticas, sentindo meu corpo começar a sucumbir a fome novamente. Enquanto não tomasse minha decisão, ainda continuaria também com os afazeres domésticos. Não conseguia imaginar qual era o plano macabro que Christian tinha. Mesmo eu sabendo, pressentindo, que havia um por trás de querer se casar comigo. Isto estava mais do que óbvio e eu não era tão inocente como antes, já sabia que existia a maldade dentro de cada ser humano. Se fosse alguns anos atrás, eu não estaria pensando como estava naquele momento, já teria aceitado seu “pedido” e se mudado para aquele lugar. Mas tudo havia mudado desde a última vez que nos víamos, aquela última vez que ficou marcada em mim durante todos aqueles anos e que agora seria substituída pelo Christian de agora. Um Christian que eu desconhecia completamente e que estava começando a temer com todas as minhas forças, já que o mesmo havia sido capaz de me dar para homens desconhecidos, como um objeto, para fazerem o que quisessem comigo, apenas para se sentir 1% vingado. Vingança esta que eu sabia que nunca seria saciada dentro dele. Eu pagaria pelo restante da minha vida, por erros que cometi e também por erros que não cometi, condenada ao meu carrasco, enquanto ele se divertia internamente com a minha dor e se alimentando disso. Meus olhos estavam fixos em Christian em minha frente, sentada do outro lado do cômodo no chão, tinha uma visão ótima dele e também a única, já que estava sentada em baixo da televisão que ficava fixa na parede. Aos seus pés estava Lord, dormindo em seu sono leve, qualquer movimento que eu fizesse, até mesmo o mais leve, o cão abria seus olhos e me olhava, pronto para atacar. Eu o odiava. E acho que ele já havia percebido isso. Entretanto ainda estava tentando descobrir se também odiava Christian, já que antes mesmo do cachorro, ele havia causado profundas feridas em mim. O cachorro ergue a cabeça e olha para a porta que estava aberta de repente, sigo seu olhar e por último Christian faz o mesmo. A primeira coisa que percebo, é o cheiro característico de perfume masculino, em seguida ouço passos; Passos estes que não faz com que Christian levante mas, sim Lord que se coloca de pé, olhando fixamente para a escuridão lá fora. Por um momento, peço que seja a polícia ou qualquer coisa que me tirasse dali, não demoro muito para chegar a conclusão de que não era nenhuma das alternativas, já que se fosse, Christian não estaria tão calmo. - Lord - diz Rafael sério, assim que aparece quando aparece na porta. O cachorro para ao dar dois passos, sentando. Christian suspira, voltando a olhar para a televisão. Os olhos de Rafael não demoram para me ver sentada no chão, encolhida, mais pálida do que o normal e abaixo do peso. - Pelo amor de Deus, Christian! - diz irritado, encarando o irmão, que não se deixou abalar - Matar ela está no seu plano?! - Ela que está fazendo isso com ela. Isso pode mudar se ela se casar comigo. - O quê?! - A voz de Rafael soa mais estridente - Que merda é essa? - Christian revira os olhos, aumentando o volume da televisão - Vou me casar, só estou esperando ela decidir quando - Ele fixa os olhos nos meus - Estou com sede. Vai até cozinha e traga alguma coisa para mim beber. Não hesito em levantar.- Não - diz Rafael, me impedindo, ainda olhando para o irmão - Ela não é sua empregada. - É. E vai ser até quando eu quiser. Se quiser tentar a sorte, tente me fazer mudar de ideia. O silêncio que se instaura na sala é pesado, praticamente Christian havia desfiado Rafael e, não sabia se Rafael ainda tinha a natureza calma como antes, então resolvi ir até a cozinha, acatando a ordem de Christian. Não demora para que eu sinta que não estou mais sozinha na cozinha. Eu sabia que era Rafael pelo perfume mas, não queria olhar em seus olhos, pois sabia que começaria a chorar e duvidava se iria conseguir parar. - Não sei o que dizer - Ele murmura, quando começo a por um pouco de suco em um copo comprido, junto com alguns biscoitos de nata que encontrei no armário e que agora estavam me fazendo salivar - Se eu soubesse que ele iria fazer isso com você, não tinha trazido você. Encontraria outro lugar para você ficar. Dou de ombros ainda de costas. - Como você saberia? Até eu mesma achei que ele fosse o mesmo de antes. - Nenhum de nós é o mesmo de antes, Laura. - Você é - Sussurro com meus lábios secos. Sinto os braços de Rafael ao redor de mim, apenas aquele contato foi o suficiente para trazer lágrimas quentes aos meus olhos e um soluço brotar dentro de mim. Seguro as lágrimas com força e o soluço, tentando permanecer forte diante daquela situação humilhante. - Vou dar um jeito de tirar você daqui - Ele promete em meu ouvido. - Ele quer se casar comigo - Fungo, piscando algumas vezes, evitando que as lágrimas vinhesse à tona. - Isso para ele já virou um jogo e você faz parte disso. Assinto, segurando a bandeja, me virando para ele. - Já jogamos esse jogo uma vez - Meus olhos se fixam no vazio, quando o passado volta mais uma vez, me dando conta de que havia mudado as posições dessa vez.Costumava ver com frequência aquela cena, meus pais sendo servidos enquanto estavam confortavelmente sentados diante de uma televisão ou até mesmo na sacada de casa, ao lado num canto distante, para não interromper os patrões, os filho dela, esperando que a mãe terminasse o trabalho. As lágrimas voltam aos meus olhos e preciso engolir em seco, para diminuir o bolo em minha garganta. Os papéis haviam sido invertidos. - Preciso levar isso aqui para ele - murmuro. - Eu levo - Rafael segura a bandeja também. - Rafael, não - Peço, franzindo o cenho. Não queria que ele se complicasse com o irmão por causa de mim. Não queria causar uma possível discórdia entre os dois - Tudo bem. Eu levo. Dito isto, me afasto dele e volto para a sala, aonde Christian continuava no mesmo lugar. Entretanto, paro abruptamente, quando Lord ergue a cabeça e me olha. - Está esperando o quê? Me dá logo isso aqui - diz ele impaciente. Encaro o cão e prendo a respiração, me aproximando com passos cautelosos, colocando sobre o colo de Christian a bandeja - Você está ficando boa nisso, trouxe até um lanche - Ele olha em seguida para o irmão - Viu como está sendo bom para ela? - Não vou compactuar com isso - diz Rafael sério. - Não quero mesmo. Só estou mostrando para você que nunca é tarde para uma pessoa aprender. Rafael passa ambas as mãos no rosto, o maxilar tencionando. - Ainda dá tempo de você parar com isso - Christian volta a prestar atenção na televisão, mastigando alguns biscoitos - Ela é um ser humano e apesar de tudo que aconteceu, não somos nós que iremos fazer justiça. - Isto não está nos meus planos. - Então vai continuar com isso? Ele inspira profundamente, olhando finalmente para Rafael. - Sim. E adianto, se prepare pois logo terá um sobrinho ou sobrinha - Um sorriso surge no rosto de Christian. Rafael balança a cabeça de um lado para o outro.- Isto é estupro. - Nada que ela já não tenha passado. Matias não comentou nada com você não? - Rafael aperta os lábios com força, indo na direção do irmão, seguro seu braço com força, impedindo que ele fizesse algo que se arrependeria depois. - Rafael. Não - digo baixo, tentando o chamar a razão. A respiração de Rafael estava pesada e seus olhos continuavam fixos em Christian - Melhor você ir embora. O maxilar dele tenciona novamente, solto lentamente seu braço e relutante, ele sai da casa, deixando para trás seu perfume. Christian dá uma breve risada, balançando a cabeça de um para o outro, antes de se acomodar o mais confortavelmente no sofá e continuar assistindo o filme que estava passando. Não sei exatamente o que estava sentindo, duvidava até que estava sentindo alguma coisa. Talvez não tivesse nenhum sentimento ou emoção dentro de mim, isto graças à Christian, que estava conseguindo me despedaçar cada vez mais, ciente de que logo não sobraria nada para eu juntar depois.
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