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1680 Words
KIARA Fiquei afastada, como de costume, longe o suficiente da pista de dança, para que ninguém se sentisse obrigado a me convidar para dançar. Meus olhos seguiram Giulia enquanto ela dançava com o marido, Cassio. Seus olhos captaram os meus brevemente e ela sorriu. Ela já havia se mudado quando tive que ir morar com tia Egidia e tio Félix seis anos atrás, mas ela e eu nos tornamos amigas íntimas, no entanto, mais próximas do que qualquer outra pessoa, especialmente meus irmãos mais velhos. Eles foram autorizados a ficar em Atlanta depois que nosso pai foi morto por meu primo Luca. Eu tremi com a memória. Giulia foi uma das poucas que me olhou com gentileza e não com um desdém superior. Eu resisti ao desejo de esfregar meus braços; Parecia que eu estava sempre com frio. Nem a música me deixava à vontade. Eu m*l podia esperar para voltar para casa e sentir as teclas do meu piano sob as pontas dos meus dedos. Minha coluna endureceu quando Luca se dirigiu para mim. Sua esposa, Aria, provavelmente sentiu pena de mim e disse-lhe para me convidar para dançar. Eu realmente queria que ele não fizesse. — Você gostaria de dançar? — Ele perguntou, estendendo a mão. Desde que fiz dezoito anos no ano passado, esperava-se que eu participasse de eventos sociais. Até tia Egidia e tio Félix não tinham mais desculpas para me manter longe. Eu ainda era evitada por muitos, não abertamente, mas percebi seus olhares quando achavam que eu não estava prestando atenção. — É uma honra, — eu disse baixinho e peguei a mão dele. Meu corpo se revoltou com o contato físico, mas forcei a submissão e segui Luca em direção à pista de dança. Ele era meu primo e eu o conhecia toda a minha vida, não que o conhecesse muito bem. Nós tínhamos muitos primos em nossa família para permitir um vínculo mais estreito. Tentei me preparar para o próximo passo, para a mão dele na minha cintura, tentei me preparar para não estremecer, mas no momento em que a palma da mão dele tocou meu quadril, meu corpo inteiro enrijeceu. Luca me olhou, mas não recuou. Ele provavelmente estava acostumado a esse tipo de reação das pessoas. Sua reputação e tamanho teriam feito até uma mulher normal fugir. Eu tentei suavizar meu corpo enquanto ele dançava, mas era uma batalha perdida e, eventualmente, desisti. — Seu pai era um traidor, Kiara. Eu tive que matá-lo. Eu nunca usei isso contra ele. Meu pai sabia as consequências da traição, mas Luca parecia pensar que essa era a razão pela qual eu não suportava seu toque. Eu queria que fosse isso. Deus, como desejei que fosse apenas isso, desejei que fosse apenas o toque de Luca que me deixava em pânico. Engoli as memórias das noites que me quebraram. — Você tinha, — eu concordei. — E eu não sinto falta dele. Ele não era um bom pai. Sinto falta da minha mãe, mas você não a matou. Foi o meu pai. Na minha cabeça comecei a tocar a melodia que estava trabalhando nas últimas semanas, esperando que isso me acalmasse. Não aconteceu. Luca assentiu. — Conversei com tia Egidia e Felix. Eles estão preocupados que você não tenha se casado ainda. Eu tinha dezenove anos e ainda não havia sido prometida para ninguém. — Quem quer se casar com a filha de um traidor? — Eu murmurei. No fundo, fiquei aliviada. O casamento revelaria um segredo que eu precisava guardar, um segredo que me transformaria em uma pária em nossos círculos. — Você não fez nada errado. As ações do seu pai não definem você. As pessoas estavam me observando. — Por que você não diz isso a eles, — eu cuspi, olhando para o nosso público. Eu me encolhi com meu tom. — Sinto muito. — Luca era Capo. Eu precisava mostrar respeito. Ele me olhou, usando uma máscara em branco. — Eu não quero prometer você a um soldado. Você é uma Vitiello e deve se casar com um dos meus capitães ou subchefes. — Está tudo bem. Eu tenho tempo — eu disse baixinho, minhas bochechas corando de vergonha. Eu realmente não tinha tempo. Estava envelhecendo e era solteira e a filha de um traidor só faria as pessoas falarem mais. A dança finalmente acabou e dei a Luca um sorriso rápido e forçado antes de me afastar novamente. Depois disso, fiz o que sabia fazer melhor - aprendi a fazer melhor - fingi não estar lá. Minha tia escolhendo vestidos modestos em cores suaves da coleção do ano passado definitivamente ajudava nisso. Eu m*l podia esperar que a festa de Natal dos Vitiello terminasse. A época de Natal estava ligada a muitas lembranças horríveis. *** Época de Natal há sete anos Eu não conseguia dormir. Não importava o quanto me contorcesse e me virasse, sempre conseguia me deitar sobre as contusões. Papai estava com um humor horrível hoje. A mãe disse que tinha algo a ver com estarmos em Nova York. Amanhã, nós finalmente voltaríamos para Atlanta, e então o humor dele melhoraria. Em breve, tudo estaria melhor. Logo, o pai resolveria todos os seus problemas e finalmente seríamos felizes. Eu sabia que não era verdade. Ele nunca seria feliz, nunca pararia de nos bater. Papai desfrutava de sua infelicidade e gostava de nos fazer sofrer. Algo caiu no andar de baixo. Eu saí da cama e me estiquei, tentando me livrar da dor em meus membros da surra que levei esta manhã. Um som no corredor me atraiu para a porta, e eu cuidadosamente a abri, espiando pela fresta. Um homem alto pulou em mim. Algo sobre minha cabeça brilhou na luz, e então uma faca foi cravada no batente da porta de madeira. Eu abri minha boca para gritar, mas o homem colocou a mão sobre a minha boca. Eu lutei, apavorada com o enorme estranho. — Nenhum pio. Nada vai acontecer com você, Kiara. — Eu congelei e dei uma olhada no homem. Era meu primo Luca, o Capo do meu pai. — Onde está seu pai? Apontei para a porta no final do corredor, o quarto dos meus pais. Ele me soltou e me entregou a Matteo, meu outro primo. Eu não tinha certeza do que estava acontecendo. Por que eles estavam aqui no meio da noite? Matteo começou a me levar embora quando minha mãe saiu do quarto. Seus olhos aterrorizados pousaram em mim um momento antes de ela estremecer e cair no chão. Luca se jogou no chão quando uma bala atingiu a parede atrás dele. Matteo me empurrou para longe e avançou, mas outro homem me agarrou em um domínio implacável. Meu olhar congelou em minha mãe, que olhava para mim com olhos sem vida. Só meu pai estivera no quarto com ela e ele a matara. Morta. Simplesmente assim. Uma pequena bala e ela partiu. Fui arrastada para o andar de baixo e para fora da casa, empurrada para o banco de trás de um carro. Então eu estava sozinha com o som da minha respiração superficial. Passei meus braços em volta do meu peito, estremecendo quando meus dedos tocaram as contusões nos meus braços causados pela explosão do meu pai esta manhã. Comecei a balançar para frente e para trás, cantarolando uma melodia que minha professora de piano havia me ensinado algumas semanas atrás. Estava ficando frio no carro, mas não me importei. O frio era bom, reconfortante. Alguém abriu a porta e eu recuei com medo, puxando minhas pernas para o meu peito. Luca enfiou a cabeça para dentro. Havia sangue em sua garganta. Não muito, mas não consegui desviar o olhar. Sangue. Do meu pai? — Quantos anos você tem? — Ele perguntou. Eu não disse nada. — Doze? Eu fiquei tensa, ele fechou a porta e sentou na frente ao lado de seu irmão, Matteo. Eles me garantiram que eu estava segura. Segura? Eu nunca me senti segura. A mãe sempre disse que a única segurança em nosso mundo era a morte. Ela a encontrou. Meus primos me levaram até uma mulher mais velha chamada Marianna, que nunca havia visto antes. Ela era gentil e amorosa, mas eu não podia ficar com ela. Por uma questão de honra, tinha que ficar com a família, então fui mandada para Baltimore para morar com minha tia Egidia e seu marido, Felix, que era Subchefe na cidade como meu pai fora Subchefe em Atlanta. Eu a encontrei apenas durante festividades familiares porque ela e meu pai se odiavam. Luca levou-me a eles alguns dias depois do funeral da minha mãe. Fiquei em silêncio ao lado dele e ele não tentou conversar. Ele parecia zangado e tenso. — Sinto muito, — eu sussurrei quando paramos em frente a uma grande vila em Baltimore. Com o passar dos anos, aprendi a me desculpar, mesmo que não soubesse o que fiz de errado. Luca franziu a testa para mim. — Pelo quê? — Pelo que meu pai fez. — Honra e lealdade eram as coisas mais importantes em nosso mundo, e papai havia quebrado seu juramento e traído Luca. — Isso não é sua culpa, então não é nada que você deva se desculpar, — ele disse, e por um tempo eu acreditei que era verdade. Até que vi o rosto desaprovador de tia Egidia e ouvi Felix dizer a Luca que isso refletiria m*l sobre eles se me aceitassem. Luca não lhes deu ouvidos, então fiquei com eles, e eventualmente eles aprenderam a me tolerar, e ainda assim nem um dia se passou sem eu estar ciente de que era vista como a filha de um traidor. Eu não os culpo. Desde tenra idade, aprendi que não havia crime maior do que a traição. Papai manchou o nome da nossa família, manchou meus irmãos e eu, e nós sempre carregaremos a mácula. Meus irmãos, pelo menos, poderiam tentar fazer um nome para si mesmo se eles se tornassem Homens Feitos, mas eu era uma menina. Tudo que poderia esperar era misericórdia.
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