Capítulo 3

4018 Words
Uma semana... Tenho fome, muita fome e sede, mas não quero pedir nada pra ele. Me sinto fraco e o calor dentro do galpão é quase insuportável. Quero a minha mãe, quero o meu pai e tenho vontade de chorar. Porque eles não me matam logo? _ Como ele está hoje?_ Cicatriz perguntou adentrando o local sujo e escuro. _ Ainda não cedeu, Cicatriz, o garoto é valente. _ Ele é um i****a, isso sim! Não vai me vencer e sabe disso. _ O que quer que eu faça? _ Desamarre-o, dê comida e água, e o traga para o topo. _ ordenou e saiu em seguida. O homem m*l-encarado me olhou com um sorriso m*****o e debochado. Não sei o que significava ir ao topo, mas sinto que nada de bom vem por aí. Ele põe na minha frente um pedaço de pão e um copo de leite e a visão chega a me dá água na boca. Como tudo feito um animal faminto, sem lavar minhas mãos, sem nenhuma educação como me ensinaram. Fazia dois dias que não comia nada. Quando termino, sou forçado a sair do galpão e a luz do dia me causa uma forte dor de cabeça. O topo é um lugar horrendo, fede muito e tem rastros de sangue por todos os lados. Sinto medo de estar aqui, muito medo. Sou deixado no centro do lugar e Cicatriz me olha por um tempo, depois anda na minha direção e sem que eu espere, ele me dá um murro certeiro no rosto, me levando ao chão. Começo a chorar. p***a, eu sou só uma criança, porque ele está fazendo isso comigo? _ Levanta! _ ordena. Eu não quero fazer isso. _ LEVANTA p***a!!! _ Ele grita. Assustado, faço o que manda e levo outro soco, ainda mais forte que o primeiro e imediatamente eu sinto o gosto do sangue em minha boca. Mais uma vez estou no chão. Ele ergue o meu corpo, puxando-me pelos meus cabelos. _ Escute bem pirralho do c*****o, ou você faz o que eu mando, ou vai levar uma dieta dessa todos os dias, até aprender a me obedecer! O que vai ser? _ Não consegui respondê-lo, pois os soluços não me permitiam. _ Fala Marrento! _ grita perto demais do meu rosto. Eu não sou Marrento. Penso com raiva. _ NÃO!_ gritei de volta e uma sucessão de socos e chutes começaram. Abro os meus olhos e percebo que estou suado e ofegante. c*****o, quando ele vai me deixar em paz? Saio da cama e vou até uma janela do meu quarto, olho o lado de fora por longos minutos até me acalmar. Respiro fundo e resolvo sair um pouco. A casa está silenciosa e escura. Já é quase uma da madrugada e todos estão dormindo. Quando alcanso o último degrau da escada, noto a luz da cozinha acesa. O que Anita faz acordada a uma hora dessas? Ando a passos largos até o cômodo, e me deparo com ela... Fabi está intertida, fazendo algo no balcão. Ela está de costas pra mim e eu fico indeciso se a faço saber da minha presença, ou se a deixo sozinha ali. Com um suspiro lento e silencioso resolvo entrar no cômodo. _ Acordada a essa hora? _ pergunto. Ela se assusta e no impulso, segura uma faca de mesa e em defesa, apronta o objeto pra mim. A garota ofega de repente, seus olhos não escondem o seu medo. Calteloso, ergo as minhas mãos e não me mexo do lugar, quero que saiba que não vou machucá-la. _ Calma menina! _ peço em tom baixo. _ Desculpe, não quis assustá-la _ digo baixinho, avaliando o seu rosto. Ela me olha por um tempo e aos poucos vai baixando a faca e por fim, respira aliviada. O que p***a ela estava pensando que eu fosse, um marginal? Será que a minha cara diz tanto assim quem eu fui? _O que está fazendo?_  insisto na pergunta, dessa vez olhandopara os materiais sobre o balcão. Ela segue o meu olhar. _ Sanduíches _ diz em tom baixo. _Pode... fazer um pra mim? _ sibilo, ainda analisando a garota. Ela assente sutilmente. _ De que o senhor quer?_ pergunta sugestiva. Solto o ar que estava preso em meus pulmões e me aproximo do balcão. _ De qualquer coisa, só faça _ falo com desdém. Ela volta para o balcão e começa o seu trabalho de montar os sanduíches. Sento-me no banco alto, de frente pra ela, para observá-la. Fabi só falta entrar nas fatias, ela não tem coragem de me encarar e nem de conversar comigo. _ Desculpe-me por ter sido um bruto com você! _ peço pra iniciar uma conversa. Ela ergue sua cabeça e os olhos escuros me prendem imediatamente. _ No meu quarto _ explico. _ Está tudo bem! _ Ela diz voltando a baixar a cabeça. _ Não, não tá tudo bem. Vamos deixar as coisas bem claras aqui, Fabiana. _ Ela volta a me olhar. _ Não entre no meu quarto sem a minha permissão, não mexa nas minhas coisas. Quer ser a minha assistente pessoal? Ótimo! Mas só faça o que lhe for ordenado. _ Ela não fala nada, apenas me olha atenta. Até parece que foi programada para isso: atender e não contestar. Como um robô. _ Entendeu Fabi? _ indago, porque não quero que reste dúvidas. _Entendi, senhor Alex. _ Respiro fundo. Esse "senhor" ainda vai me levar para o inferno. Penso. _ Ótimo! _ Ela termina seu trabalho de montar os sanduíches, e põe um deles em um prato o colocando a minha frente. Eu o pego e mordo, sentindo o delicioso sabor da mostarda misturada na salada e no frango grelhado. _ Hum, muito bom! _ digo, soltando um gemido apreciativo e pela primeira vez, vejo um leve sorriso brincar no canto de sua boca. Me pego curioso, como será o seu sorriso? Quando termino de comer, pego um papel toalha e limpo as minhas mãos e o canto da minha boca. Levanto-me do banco, e antes de sair encaro o bicho do mato, que está me fitando. _ está contratada, Fabi, você começa amanhã no primeiro horário. Quero a minha agenda social antes de sair para o escritório. Terá um salário, plano de saúde, casa e comida _digo usando um tom profissional. Seus olhos parecem brilhar em espectativas. Ela assente, e apesar de não me dá o sorriso que eu esperava, estou satisfeito de ver esse brilho em seus olhos agora. Saio da cozinha com um sorriso satisfeito. Porquê? Definitivamente eu não sei, mas o maldito sorriso me acompanhou até a cama, até que eu voltasse a adormir. ***** Os pulmões queimam, protestam, pedindo ar, mas eu não paro. Estou correndo a quase uma hora e meia, e não consigo parar. Se eu paro, minha cabeça começa a pensar e pensar. Tive mais uma das piores noites da minha vida. Lembranças de uma infância abusiva nas mãos do meu algoz. Lembrar das surras violentas, me mata por dentro. Socos e pontapés pés era o seu melhor jeito de me fazer aceitar os seus termos. Sinto uma forte ânsia de vômito, quando me lembro do meu segundo assassinato oficial; uma menina de apenas quinze anos. Ela devia muito dinheiro e eu tive que executá-la por atrasar de pagamento. Naquele dia cheguei a sentir a sombra n***a penetrar as minhas veias e contaminar a minha alma. Eu não tinha mais salvação e já não sentia mais medo. dentro de mim só conseguia sentir raiva, muita raiva e logo vieram as outras execuções. Me tornei o melhor, o mais frio. Um home calculista, sem emoções e sem contestamentos e no final de cada trabalho bem feito, ouvia sempre a mesma frase de agradecimento da sua boca: "Seu pai jamais o teria tranformado no homem que eu te transformei." Com certeza ele não faria. Penso. Paro de correr, porque já não consigo mais respirar e me sento no banco de concreto, sentindo a cabeça girar em círculos. Agacho-me e tento recobrar o meu fôlego. Isso é o inferno. Ele está morto, p***a, e mesmo assim eu não consigo viver! Não vou chorar. Digo internamente. Não vou chorar, você não tem mais poder sobre mim. Ergo minha cabeça e encaro o céu já claro. Preciso voltar pra casa e depois que a respiração volta ao normal, resolvo voltar andando. Levo pelo menos uma hora pra chegar. Quando entro em casa, vou direto para o meu quarto e tomo um banho demorado, e finalmente o meu corpo relaxa. _ Bom dia, senhor Alex! _ Fabi diz adentrando o escritório da casa. Tiro os meus olhos da tela do computador e encaro a garota em um vestidinho azul floral, que desenha graciosamente cada curva do seu corpo. _ Bom dia, Fabi! _ respondo com um tom seco e volto para a tela do computador. _ Trouxe sua agenda social como me pediu. _ Volto a olhá-la. Sério? Disse aquilo a noite passada por dizer. Eu nunca imaginei que teria uma agenda social. _ O senhor tem uma festa no próximo sábado à noite. _ Eu não vou _ digo taxativo e volto a olhar para tela. _ Desculpe, senhor Alex! _ Ela insiste e eu a olho impaciente, cruzando os dedos das mãos. _ Mas a sua secretária me disse que o senhor não pode faltar a esse evento. _ Como não posso faltar? Eu sou o PRESIDENTE, uu posso tudo! _ Esbravejo e ela se encolhe. Mas que p***a, vou ter que andar pisando em ovos com essa menina? c*****o, isso cansa p***a! _ É por isso mesmo, senhor Alex  _ diz receosa._ O presidente precisa  estar presente no evento, por pelo menos duas horas. Me afasto da mesa e me encosto na cadeira, a encarando. _ Tudo bem, peça para o Danilo providenciar o estilo de roupa que o evento exige. _ Tem mais uma... coisa. _ Ela diz._ O senhor vai precisar de uma acompanhante. _ Sem acompanhante _ rebato enfático. Ela puxa a respiração. _ É exigência do anfitrião, senhor Alex _ ralha. _ Você não entendeu, Fabiana, eu não tenho uma acompanhante. _ Ninguém? Uma amiga? Uma prima, ou irmã? Uma namorada? _ Fico irritado com suas especificações. _ Não, ninguém Fabiana! _ rebato ríspido. Ela parece pensar em algo, balbucia mas não diz nada, depois dá meia volta para sair do escritório e para abruptamente na entrada, se virando pra mim outra vez. _ Posso sugeri uma... acompanhante de luxo, senhor Alex _ diz. Como é que é? Meu subconsciente grita. Afasto-me da cadeira devagar, e com os olhos fixos nela, ando em sua direção lentamente, porém com passos firmes. O sangue de Fabi parece que fugir do seu corpo. _ O que disse?_ inquiro bem perto dela. A garota engole em seco. _ Repete, Fabi. _ Eu sugiro... uma... acompanhante de luxo, senhor..._ gagueja. Contorno o seu corpo, e paro bem atrás dela e ela reteza imediatamente. _ Acompanhante de luxo?_ sussurro a indagação. Ela assente devagar. _ Está sugerindo que eu saia com alguma prostituta, Fabiana?_ questiono-a com um tom frio. Ela estremece. _ Me diga, como sabe sobre as acompanhantes de luxo, senhorita? _Eu... eu... não sei. _Volta a gaguejar. Ela está nervosa. _ Então, porque me sugeriu uma prostituta, Fabi?_ inquiro com uma voz baixa e ameaçadora ao pé do seu ouvido. É o inferno mesmo! Quanto mais eu quero distância desse mundo, mas perto de mim ele quer estar, isso é uma grande merda! _ Desculpe senho, Alex, foi um erro! _ sibila trêmula. _ Você vai comigo a esse evento. _ Determino. _O quê, não! _ Praticamente grita. _ Senhor Alex, eu não tenho roupas pra esse tipo de evento! _ Protesta. Dou de ombros. _ Saia com Anita e peça que lhe ajude a escolher um vestido apropriado. _ Não! _ diz imperativa. Eu a encaro em fúria. _ Não?! _ Desculpe, senhor Alex, mas eu não posso pagar por uma roupa cara. Essa festa pede algo sofisticado e... _ Não pedi pra você pagar nada, Fabi. _ Não posso aceitar, senhor Alex, me perdoe mas, _ Você pode e vai aceitar! Depois se não quiser o vestido, venda, rasgue, queime, faça o que quiser. _ Senhor Alex... _ Acabou a reunião, Fabi! Espero que acate as minhas ordens, e que esteja a minha altura amanhã. Tenha um bom dia!_ Encerro o assunto. Ela tenta falar algo, porém sua voz não sai. Então simplesmente dá meia volta e sai do meu escritório. Volto a me sentar na cadeira, mas não olho para o computador, abro a primeira gaveta da minha mesa e tiro de lá um anel solitário, com uma pérola branca no centro dele. Às vezes eu sonho alto demais, tão alto, que quando acordo para a realidade, a queda se torna impactante. Quando estávamos indo fugir para Bogotá, cheguei a sonhar com aquele maldito casamento. Rio debochando de mim mesmo. Sou um i****a mesmo! Jogo o anel de volta na gaveta e a fecho com a chave, saindo do escritório em seguida. ****** Fazem três dias que ela está aqui e eu começo a ver Fabi com outros olhos. Ela é uma profissional dedicada, que está sempre atenta ao seu trabalho. Pela manhã sempre encontro a minha agenda atualizada. Eventos, lembretes de reuniões, horários de almoço... Tudo sicronizado com as atividades do escritório. Ela está sempre em contato com a minha secretária na empresa, então eu acabo descobrindo que nem sempre preciso estar lá ou que posso resolver tudo aqui de casa mesmo. Hoje é sexta- feira e eu só tenho uma reunião na parte da tarde. De alguma forma estou me sentindo mais leve hoje, felizmente os meus demônios resolveram me dá uma trégua. Vou até a cozinha, o único cômodo que costumo encontrar as mulheres dessa casa e com um sorriso largo, entro saudando-as com um bom dia. _ Nossa, viu passarinho verde, senhor Alex?_ Anita pergunta, abrindo um sorriso sem tamanho. Dou de ombros. _ Estou feliz hoje, Anita, só isso _ respondo, servindo-me uma xícara de café. _ E posso saber o motivo de tanta felicidade? _E eu preciso de um motivo pra para estar feliz? _ Não. _ Estou pensando em fazer um passeio de barco _ falo de repente. _ Opaaaaa! _ Anita festeja. _ Com todos; eu , você, Danilo, Jordan e você, fabi _ digo. Ela me olha, porém seus olhos não me dizem nada. Não sei dizer se gostou ou não do convite. Termino o meu café sigo para saída. _ Prepare tudo, Anita, e avise ao Danilo. Sairemos em meia hora. O céu está claro e há algumas nuvens brancas, passeando lentamente pelo imenso tapete azul. O barco está no piloto automático e estou sentado em uma das poltronas alcochoadas, debaixo de um guarda-sol, tomando uma bebida e apreciando a minha folga. Anita e Danilo estão na pequena cozinha, preparando algo para comermos. Levo o copo de uísque a boca, olhando a garota sentada na proa, envolta em uma canga, olhando a imensidão do mar e perdida em seus pensamentos. O que eu não daria para saber o que se passa naquela cabeça? Suspiro. Ela é um enigma pra mim. Não sei o que a faz sorrir, o que a faz feliz, não sei nada sobre ela, além de que escapou da morte por um triz. Paro o barco em alto mar minutos depois, para almoçarmos todos juntos. Anita, como sempre fala pelos cotovelos. E não vou mentir,  adoro ouvir o som da sua voz animada. No final do almoço, as mulheres se afastam e eu e Danilo entramos em uma conversa sobre pescaria.  Eu nunca fiz pescaria na vida, mas pelas palavras de empolgação do meu acessor pessoal, deve ser muito divertido. O sol já começa a se pôr, infelizmente é hora de voltar. Danilo toma a direção do manche, enquanto observo as mulheres conversando do outro lado do barco. Fabi parece ter facilidade em falar com Anita. Comigo ela é mais contida, calada e isso me incomoda um pouco. Não deveria, mas incomoda. ****** Isso deve ser universal. Mulheres + festas + preparativos, é igual a espera prolongada. Já estou no meu segundo copo, quando escuto o som do salto alto no topo da escada. Meu copo para na metade do caminho e eu fico congelado, olhando para linda e exuberante mulher descendo os degraus, um a um, olhando direto em meus olhos. O vestido vermelho, amarrado ao seu pescoço e colado ao corpo, desenha cada curva graciosamente, deixando pouco para minha imaginação. A calda, tipo sereia, deixa o quadril mais largo e a cintura mais fina. Os saltos pretos realçam os delicados pés. Engulo em seco, quando ela se aproxima de mim séria demais. Em seus olhos há uma pergunta muda. Eu me aproximo, tenho vontade de tocar-lhe o rosto delicado e bem maquiado, de acariciar sua pele macia e perfumada, mas não devo, não tenho esse direito. _ O que foi, não ficou bom?_ indaga receosa. Sorrio. p***a, se ela soubesse, se ela tivesse ideia. _ Você está perfeita, Fabi! _ sussurro, inesperadamente rouco. Ela puxa a respiração. _ Tenho algo pra você... _ Pra mim? _ Assinto. Vou até o mesinha do abajur e pego a caixa com a marca Tiffany. Abro e tiro de lá um colar com minúsculas pedras de esmeraldas. _ É pra você. _ Ela faz não com a cabeça. _ Não posso aceitar, senhor Alex _ protesta afastando-se um pouco. Confesso que ela me irrita com esses malditos não! _ Faz parte da roupa de gala, Fabi _ insisto. _ Agora vire-se de costas pra mim _ ordeno. Relutante, ela faz, e eu ponho o colar em seu pescoço. Minutos depois estamos entrando na mansão Duarte, um dos sócios do consórcio de carros. É uma lugar amplo e elegante, e está lotado de pessoas da alta sociedade. Duas horas... Eu só preciso aguentar isso por duas horas. Penso. Durante o evento converso com muitos empresários, pessoas que parecem ter o rei na barriga, de tão pedantes que são e depois de um requintado demais para o meu gosto, insisto em uma dança com a minha acompanhante. Ela acaba aceitando depois de tanto relutar. No meio do salão,  minhas mãos seguram sua cintura, aperto-a levemente, sentindo seu calor e a textura. Ela segura o meu ombro timidamente, hesitante até. Inclino o meu rosto levemente, permitindo-me sentir a sensação estranha do calor da sua pele na minha. Fecho os meus olhos, e começo a levá-la no ritmo lento da música. Já estamos na metade da dança, quando ergo minha cabeça levemente e encaro os olhos escuros. Fabi tem uma beleza que prende, que cativa. Sem que eu perceba, inclino ainda mais minha cabeça e os nossos lábios se encontram em um leve toque. Deus, o que estou fazendo? Eu deveria recuar, me afastar dela, mas é tão bom! Aperto ainda mais a sua cintura e aprofundo o nosso beijo. Que boca deliciosa! É tão macia, tão doce. Fabi está levemente ofegante. Ela para o beijo abruptamente e eu encaro os olhos assustados, engolindo em seco no mesmo instante. O que eu fiz agora, a machuquei? _Fabi eu... _ Começo a falar, mas a garota simplesmente sai correndo da pista de dança, me deixando sozinho. Fico parado atônito, me sentindo perdido e sem saber o que fazer. Se tem uma coisa que eu aprendi no mercado n***o, foi que nunca devemos sair de uma festa, sem cumprimentar o anfitrião. Minha vontade era de sair correndo e de procurá-la, porém minha obrigação era de fazer o prache de um CEO. _ Marcone Duarte _ digo para o senhor de cabelos grisalhos e de barba cheia. Ele se vira para mim com um sorriso lardo. _ Alex Fox, onde está a sua bela dama? Sorrio forçadamente. _ Cansada, tivemos um dia cheio. Vim apenas me despedir. _ Que pena, Alex! Nos vemos na empresa na segunda? _ Com certeza, Marcone! Tenha uma boa noite e obrigado pela linda festa! _ Não precisa me agradecer, Alex. Conseguiu alguns contratos? _ Sorri, dessa vez com satisfação. _ Muitos, meu amigo  _ digo satisfeito. _ Muito bom, senhor presidente, muito bom! _ Em seguida me dirijo a sua esposa e com um gesto cortês, beijo as costas de sua mão. Do lado de fora encontro Fabi já dentro do carro. Ela não me olha nos olhos, está séria demais e o tempo todo olha pela janela do carro. A viagem de volta para casa é feita em um silêncio irritante. Rio por dentro. Porque faço questão disso? Sou um verme asqueroso, sempre fui e não é uma roupa bonita e uma conta bancária gorda que mudará isso. Um assassino, um monstro e não há nada que apague isso. O meu passado é a minha marca registrada. É melhor assim. Fabi não é uma mulher pra mim, ela é doce demais, jovem e linda, eu só estragaria a sua vida como fiz com Jasmine. O carro para em frente a casa e ela sai de perto de mim, como o d***o foge da cruz. Entro em casa silencioso e sigo para o meu escritório. Sirvo-me uma dose de uísque puro e tomo de uma só vez. Minutos depois a porta do escritório se abre, e ela entra no cômodo com uma sacola plástica em mãos. Olho para sacola, que ela joga de todo jeito em um sofá de couro. _ O que é isso?_ questiono, mesmo sabendo a resposta. _ Não posso aceitá-lo, senhor Fox. _ Dou de ombros. _ Então jogue no lixo. Já disse, não me importo com o que vai fazer. _ Ela puxa uma respiração de modo audível. _ O senhor não me conhece, não sabe quem eu sou, nem de onde vim. Não sabe o que eu fiz... _ Ela diz de um modo frio, com um olhar determinado. Não vejo mais aquela garota tímida e meiga de dias atrás, nem sombra dos seus medos e receios. É uma garota totalmente diferente. A encaro sem nada a dizer. _ Não sou digna do senhor. _ Rio sarcástico. Como se ela me conhecesse. Quem ela pensa que eu sou, o bom moço? O bom samaritano? _O que o senhor sabe sobre mim, senhor Fox?_ inquire. _ Uma garota que conheceu no meio de uma mata, prestes a ser assassinada, e isso é tudo. A alguns dias me fez uma pergunta aqui nesse escritório. _ Ela abriu um sorriso sem brilho e sem vida, e ainda assim era um lindo sorriso! Meu coração chegou a disparar traiçoeiramente no peito. _ Me perguntou se eu conhecia prostitutas de luxo e eu disse que não. Eu menti, senhor Fox. _ Engoli em seco outra vez. Sou tomado por um estado de perplexidade, simplesmente ainda não tenho palavras para dizer. Mas o que eu estou vendo, é que mais uma vez o meu lado n***o está debochando de mim. Ele está jogando na minha cara nitidamente: "Não adianta você fugir, Marrento, eu sempre estarei te rodeando, sempre estarei por perto. Você é meu, não importa a roupa que você use, não importa o que você faça de bom. Você pertence as trevas." Tenho raiva, nojo,ódio disso tudo! Tenho raiva de mim mesmo, por ser fraco, por não ter forças para sair dessa lama. _ Eu conheço muitas delas. Eu sou uma delas, eu sou uma p****************o, senhor Fox _ confessa. Suas palavras ecoam, machucam. Nesse exato momento a encaro como se ela fosse um lixo humano. Mas é tão irônico, quanto i****a, porque eu sou mais lixo que ela. Quantas mulheres eu subjuguei? Quantas eu forcei entrar para esse mundo sujo e c***l? O que está acontecendo? Porque eu não consigo me livrar dessa merda? Dou alguns passos firmes em sua direção e ela estremece. Mas, eu não paro, passo por ela, saindo de dentro do escritório e corro em direção a garagem, pego uma moto potente e saio sem destino. Preciso pensar, preciso respirar!
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