02 -- Carolina Narrando
O Arthur estava com quase um aninho. Já engatinhava pela casa toda, ficava em pé segurando no sofá e começava a soltar as primeiras palavrinhas. Para mim, cada avanço dele era uma vitória. Para o Matheus, era só mais um motivo de estresse.
Ele não suportava a ideia de ter um bebê se movimentando pela casa. Reclamava que o menino fazia barulho, que largava brinquedo pelo chão, que "atrapalhava a paz" dele quando ele chegava do trabalho. A tensão em casa era constante. Eu vivia com o coração na mão, correndo atrás do Arthur para garantir que ele não fizesse nada que tirasse o pai do sério.
Até que veio aquela noite.
O Matheus chegou de madrugada, caindo de bêbado e visivelmente alterado por outras substâncias. Dá para reconhecer o perigo só pelo barulho da chave girando na fechadura. O Arthur, que tinha acabado de acordar assustado com o barulho da porta batendo, começou a chorar no berço.
Eu levantei correndo para pegar meu filho antes que o Matheus se irritasse, mas ele foi mais rápido e entrou no quarto.
— Cala a boca dessa criança, Carolina! — ele gritou, com os olhos vermelhos e a voz arrastada. — Eu não aguento mais chegar em casa e ouvir esse inferno de choro!
— Ele só se assustou, Matheus, por favor, fala baixo... — tentei me aproximar, com a voz trêmula, segurando o Arthur no colo bem apertado.
Ele se irritou com a minha resposta. Com a agressividade e a força desproporcional que tinha, ele me puxou pelo braço, tentando me empurrar para longe. Em vez de recuar, eu me encolhi para proteger o bebê. Foi quando ele surtou de vez.
Ele tentou arrancar o Arthur dos meus braços à força.
— Me dá esse menino aqui! Você mima demais, essa porcaria de garoto não para de chorar!
— Não, Matheus! Pelo amor de Deus, solta ele! Você tá bêbado! — gritei, desesperada, prendendo meu filho contra o meu peito.
Na confusão, no puxa e empurra violento dentro do quarto, o Matheus me deu um empurrão brutal com toda a força. Eu perdi o equilíbrio e caí de mau jeito. Na queda, para não cair por cima do Arthur, mudei o corpo de lado, mas o Matheus, na fúria de tentar puxar o menino, acabou fazendo um movimento brusco e violento contra a cabeça do Arthur, que bateu com força contra a quina da cômoda de madeira antes de atingir o chão.
O choro do meu filho mudou na hora. Não era mais um choro de susto, era um grito agudo, dilacerante, de pura dor.
O Matheus travou por um segundo, olhou para mim e para o menino caído no chão, e a reação dele não foi de socorro. Foi de covardia. Ele esbravejou um palavrão, disse que a culpa era minha por não ter entregado a criança, pegou a chave do carro e saiu de casa, me deixando ali sozinha, no chão, com o meu bebê desacordado nos braços.
Eu não pensei em mais nada. Com as mãos trêmulas e o choro entalado na garganta, peguei o Arthur e saí para a rua em busca de socorro.
Naquele hospital, entre exames, tomografias e médicos correndo de um lado para o outro, o meu mundo ruiu de vez. Os exames confirmaram que a pancada brutal na cabeça tinha causado um trauma grave no nervo óptico e na retina do meu bebê.
O médico tentou usar palavras bonitas para amenizar, mas a realidade era uma só: por causa daquela briga, daquela violência absurda, o meu filho tinha perdido quase toda a visão. Ele tinha ficado com baixa visão severa, enxergando apenas rastros de luz e bultos.
Eu olhei para o meu bebê naquela cama de hospital, tão indefeso, e senti uma dor que rasgou minha alma ao meio. O homem que deveria proteger a nossa família tinha tirado os olhos do meu filho. E o pior de tudo: eu sabia que se continuasse ali, ele acabaria tirando a vida dele.
Voltar para aquela casa depois do hospital foi o pior momento da minha vida. Olhar para a cara do Matheus sabendo o que ele tinha feito com o nosso filho me dava uma náusea insuportável. Mas eu precisei engolir o choro, abaixar a cabeça e fingir que ainda estava sob o controle dele.
Ali, com o Arthur no colo enxergando apenas bultos, eu tomei a decisão mais importante da minha vida: eu ia embora.
Só que fugir não era simples. Eu não tinha nada. Não tinha um tostão guardado no meu nome, não tinha carro, não tinha para onde ir. Se eu batesse na porta dos meus pais, sabia exatamente o que aconteceria: eles ligariam para o Matheus na mesma hora. Para a minha família e para a dele, o Matheus era um santo, o provedor perfeito, e eu era a esposa "surtada" que não sabia dar valor ao marido que tinha. Ninguém me ouviria. Ninguém me ajudaria.
Eu estava por minha conta e risco.
A partir daquele dia, passei a viver em função de um plano secreto. O Matheus era o tipo de homem que gostava de bancar o generoso com uma mão e tirar com a outra. Ele me dava um dinheirinho contado para as despesas da casa — feira, farmácia, alguma coisa do Arthur —, mas fazia questão de me pedir o troco até o último centavo.
Eu passei a virar bicho para economizar.
Se a carne dava dez reais a menos na promoção, eu guardava as moedas. Se ia à farmácia, pechinchava cada remédio e escondia a diferença. Escondia o dinheiro nos lugares mais improváveis da casa: dentro do forro das minhas roupas no armário, no fundo de uma gaveta de panos de prato, até dentro do carrinho do Arthur. Cada nota de dois, cinco ou vinte reais que eu conseguia juntar parecia um tijolo da minha liberdade.
O Matheus não economizava nas palavras. Chamava o próprio filho de "ceguinho", dizia na cara dele que o menino era um peso, um gasto inútil, e que nem adiantava gastar dinheiro com escola porque ele "não ia dar em nada".
Cada comentário c***l dele contra o Arthur era uma facada no meu peito, mas também era o combustível que me lembrava: eu preciso ir embora rápido.
Eu cheguei a pensar em denunciar. Juro que pensei. Quantas vezes me peguei encarando a fachada de uma delegacia, ensaiando as palavras que diria ao delegado? Mas o medo me travava, porque o Matheus sabia exatamente qual tecla apertar para me desestabilizar.
— Pode ir lá, Carolina — ele debochava, com aquele sorriso cínico quando percebia minha intenção. — Vai lá falar que fui eu. Quem é que passa vinte e quatro horas com o menino? Você. Quem é que cuida dele o dia todo? Você. Quem é que vai provar que não foi você que deixou o garoto cair? A palavra de uma doida contra a minha.
O pior é que, logo depois de me massacrar com essas palavras, ele fingia arrependimento. Pedia desculpas, trazia um presente, dizia que estava estressado com o trabalho. Era um ciclo doentio. E eu me via de mãos atadas, porque não tinha como sair de casa com uma mão na frente e outra atrás.
O Arthur precisava de cuidados caros. Não era só comida e fralda. Ele usava um colírio especial que custava uma fortuna, precisava de consultas com especialistas e de um óculos com grau altíssimo para tentar aproveitar o pouco de visão que restava. Se eu saísse sem rumo, como pagaria por tudo isso?
Para o Matheus, porém, nada disso importava. Ele fazia questão de expor a deficiência do próprio filho para quem quisesse ver, sem o menor pingo de sensibilidade.
Lembro de um dia em que fomos ao aniversário do filho de um amigo dele. O salão estava cheio, e as crianças corriam para lá e para cá. Algumas menininhas viram o Arthur e vieram sorrindo até a nossa mesa:
— Tia, deixa ele brincar com a gente? Tira o seu filho da cadeira!
Antes que eu pudesse responder, o Matheus soltou uma gargalhada alta, chamando a atenção dos amigos que estavam na mesa bebendo com ele:
— Deixa pra lá, garotada! Esse aí não enxerga nada, não. É cego, vai só tropeçar nos brinquedos e atrapalhar vocês!
Os homens na mesa caíram na risada, tratando aquilo como se fosse uma piada engraçada. Meu sangue ferveu. Senti uma mistura de ódio e vergonha alheia tão grande que minha mão chegou a tremer.
— Ele vai brincar sim, Matheus — eu disse, num tom firme que raramente usava na frente dos outros.
Levantei da mesa, peguei o Arthur pela mão e levei ele até a área dos brinquedos. Fiquei ali do lado dele o tempo todo, guiando cada passo, ajudando ele a sentir os brinquedos e a interagir com as outras crianças. Mas lá no fundo, ouvindo as piadinhas do Matheus ecoando pelo salão, eu entendi de vez: ele não tinha nenhum amor por aquele menino. Ele usava a limitação do próprio filho para me humilhar e se fazer de engraçado para os amigos.
Eu não podia deixar o Arthur crescer achando que o mundo tinha o direito de rir dele só porque o próprio pai fazia isso.