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O Traficante e a Mãe do Menino Cego

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reincarnation/transmigration
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childhood crush
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intro-logo
Blurb

Carolina viveu anos sob o medo e a violência do ex-marido. A dor se tornou insuportável quando uma agressão do próprio pai deixou o pequeno Arthur com uma grave deficiência visual. Decidida a salvar o filho, ela pega o menino nos braços e foge para o morro, o único lugar onde acredita estar segura.​Sem dinheiro e sem apoio, Carolina passa a vender doces pelas ruas da comunidade com Arthur no colo, trabalhando duro para pagar um tratamento caro que pode devolver a visão do menino. É nessa rotina que ela chama a atenção de Christian, o CR, o temido dono do morro.​O que começa como uma simples curiosidade logo se transforma em proteção. Carolina aprendeu a não confiar em ninguém e CR nunca precisou conquistar ninguém. Mas o pequeno Arthur enxerga no chefe do morro algo que a mãe resiste em ver: alguém disposto a ficar e a provar que nem todo amor machuca.

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01
01 -- Carolina Narrando Se você me visse há uns três anos, com certeza diria que eu tinha tirado a sorte grande. O Matheus era o tipo de homem que minha mãe olhava e suspirava, sabe? Bonito, trabalhador, de família boa e com uma condição financeira excelente. Não era nenhum milionário, mas tinha um salário ótimo, morava num apartamento confortável e nunca deixou faltar nada em casa. Meus pais eram apaixonados por ele. Para eles, o Matheus era o genro dos sonhos, o homem perfeito para cuidar de mim. Mas ninguém vive de aparência dentro de quatro paredes. No começo, quando a gente namorava, ele já dava alguns sinais. Uma grosseria aqui, um ciúme b***a ali... só que eu era ingênua. Achava que era "cuidado", que ele só queria me proteger. Quando nos casamos, a máscara dele não caiu de uma vez; foi se descolando aos poucos. Eu sempre fui apaixonada pela cozinha. Antes de me casar, eu fazia doces, bolos e salgados pra vender. Sabe aquela alegria de ver a pessoa comendo e elogiando? Era o meu xodó, meu dinheirinho, minha independência. Mas o Matheus fez questão de ir apagando isso aos poucos. Ele nunca me deu força. Pelo contrário, vivia jogando balde de água fria: dizia que isso era bagunça na cozinha dele, que não dava dinheiro de verdade, que eu estava passando vergonha parecendo "passada para trás" e que ele tinha condição suficiente pra sustentação da casa, então não precisava disso. De tanto ele me botar pra baixo, fui acreditando. Comecei a achar que ele tinha razão, que meu trabalho não valia nada. Fui desanimando até encostar minhas formas e minhas panelas de vez. Deixei de lado o que mais gostava de fazer. Ele gostava mesmo era de beber. E quando bebia, virava outra pessoa. Vinham as ofensas, as humilhações, a agressividade que ia aumentando a cada mês. Ele me diminuía tanto que, com o tempo, fui me desfazendo. Fui deixando de ser a Carolina que sorria e cozinhava cantarolando para virar uma mulher que vivia pisando em ovos, rezando para o marido chegar de bom humor. Aí veio a notícia: eu estava grávida. Lembro exatamente do dia em que o teste deu positivo. Olhei para aquelas duas listinha e meu coração disparou de medo. Eu não sabia se chorava de emoção ou de pavor. Tentei me apegar à esperança de que a chegada de um filho mudaria tudo. Sabe aquela ilusão de mulher que acha que um bebê amansa homem brutal? Eu caí nessa armadilha. A gravidez foi um pesadelo silencioso. Enquanto meus pais comemoravam e o Matheus fingia ser o pai do ano na frente dos outros, na nossa rotina o clima só piorava. Ele saía, bebia, começava a usar coisas piores que bebida e voltava pra casa de madrugada, me acordando com gritos e acusações sem sentido. Eu passava as noites acordada, chorando baixinho na cama, alisando a minha barriga e pedindo desculpas ao bebê que estava crescendo ali dentro. Quando o Arthur nasceu, com aqueles olhinhos bem abertos e o cabelinho claro, meu mundo mudou de lugar. Pela primeira vez em anos, senti um amor puro, algo pelo qual valia a pena respirar. Eu olhei para o meu filho naquele berçário e prometi em silêncio que faria de tudo para proteger ele. Para piorar tudo, o Matheus sabia exatamente como jogar. Pouco a pouco, ele foi me minando por todos os lados. Ele inventava implicância com as minhas poucas amigas. Se uma me chamava para tomar um café, ele dava um jeito de arrumar briga antes de eu sair, ou fechava a cara até o clima ficar insuportável. Dizia que fulana era má companhia, que sicrana queria ver nosso casamento destruído, que homem casado não tinha que ver a mulher na rua com conversa fiada. De grão em grão, eu fui me afastando de todo mundo. Quando me dei conta, já não tinha mais uma amiga sequer para mandar uma mensagem ou pedir um abraço. Eu estava completamente isolada. E a minha mãe... essa era a parte que mais me doía. Nas poucas vezes em que tentei desabafar e pedir socorro, a resposta era sempre a mesma. Minha mãe olhava para o Matheus como se ele fosse um príncipe encantado. Quando eu contava que ele tinha gritado comigo ou sido ignorante, ela balançava a cabeça e dizia que era drama meu. — Ah, Carolina, você também não facilita! Seu temperamento é muito forte, quer medir forças com homem? O Matheus trabalha o dia todo, traz de tudo para dentro de casa, você tem que aprender a ter mais paciência. Ela sempre dava razão para ele. Sempre. Chegou a um ponto em que eu passei a ter uma vergonha absurda de falar qualquer coisa. Tinha vergonha de admitir que o meu casamento "perfeito" era um inferno. Vergonha de ver que a minha própria mãe não acreditava na minha dor. Fui me fechando numa concha, engolindo o choro, a raiva e a humilhação sozinha. Dentro daquela casa bonita e confortável, eu me sentia a mulher mais solitária do mundo. A única luz que me mantinha de pé, que me dava forças para acordar todos os dias, era o meu filho. Logo que o Arthur nasceu, nos primeiros dias, o Matheus até deu uma amansada. Cheguei a achar, com a cabeça ingênua de sempre, que a paternidade tinha operado um milagre. Ele tirava fotos com o bebê, mostrava pros amigos orgulhoso e parecia outro homem. Mas o encanto durou muito pouco. O milagre não passou do primeiro mês. Assim que a rotina pesou — as noites m*l dormidas, o choro do bebê, a atenção toda voltada para a amamentação —, o Matheus voltou a mostrar quem realmente era. Na verdade, piorou. Ele não tinha paciência nenhuma com criança. Se o Arthur chorava por causa de cólica, o Matheus já bufava, batia a porta do quarto e saía de casa furioso, dizendo que não era obrigado a aguentar barulho depois de um dia de trabalho. Nosso casamento virou uma montanha-russa desgastante: eram três dias razoáveis para cinco dias de puro inferno. E foi aí que o veneno dele mudou de foco e mirou diretamente em mim. Eu estava exausta, vivendo em função do meu filho, sem dormir, sem tempo nem para tomar um banho demorado. Mas para o Matheus, isso não importava. Ele começou a criticar meu corpo sem o menor pingo de sensibilidade. Dizia que eu tinha relaxado, que só sabia ficar de pijama em casa, que não me cuidava mais. — Olha o seu estado, Carolina! — ele falava, me olhando de cima a baixo com nojo. — Você tá gorda, descuidada, esse cabelo todo desarrumado, nem a unha faz mais. Você se largou completamente! Quer viver só pra esse menino agora? Eu tentava me defender, explicava que o Arthur era um bebê e precisava de mim a todo momento. Ele rebatia dizendo que era besteira, que era só contratar uma babá, mas a verdade é que eu não tinha coragem de deixar meu filho recém-nascido nas mãos de estranhos, e no fundo sabia que ele só queria a babá para eu voltar a ficar à disposição dele. Pra completar o cenário, ele começou a mudar o comportamento fora de casa. Chegava de madrugada cheirando a perfume feminino, com o celular cheio de senhas e notificações escondidas. Ficou nítido que ele tinha arrumado outra na rua. Mas, em vez de assumir, usava a traição como punição, jogando na minha cara que fora de casa ele encontrava mulheres cheirosas e arrumadas, diferente de mim. Aquele abuso psicológico ia me destruindo por dentro. Fui me sentindo a pessoa mais feia, incapaz e insignificante do mundo. A única coisa que me mantinha de pé, que me dava um pingo de dignidade, era olhar para o rostinho do Arthur. Eu aguentava os insultos, as cobranças sobre o meu corpo e as escapadas dele na rua. Engolia tudo em silêncio. Mas o que eu não sabia era que a impaciência dele com o nosso filho não ficaria só nos gritos. E o limite de tudo estava prestes a ser ultrapassado.

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