O homem a levou até uma sala, onde ela percebeu ser um escritório ou uma biblioteca, havia tantos livros ali. Além de uma mesa, poltronas e um sofá que parecia ser bastante confortável. Ela sorriu fraco, deveria ser incrível morar numa casa como aquela.
Ele a observou com atenção.
— Sente-se. — Pediu.
— Não, estou toda suja e não quero sujar tudo.
— Você não vai sujar nada, sente-se, eu não vou conversar com você de pé. — Anne apenas o obedeceu e sentou-se na poltrona de couro, indicando que ela também sentasse. Assim ela fez, após perceber que o móvel poderia ser limpo facilmente, caso ficasse sujo de lama. — Seus documentos, por favor, me dê, eu quero ter certeza de que você está falando a verdade. — Anne assentiu e pegou a pasta que carregava embaixo do braço.
— Aqui senhor, meus documentos e informações que irá precisar para ter certeza que só entrei em sua propriedade à procura de emprego e que eu não tenho pais. — Anne era tagarela e o homem a observava do pé a cabeça. Até que ela era uma jovem que chamava bastante a atenção por sua beleza, era uma beleza encantadora.
Christian pegou a pasta da mão de Anne e viu que ela estava com alguns machucados pelo seu corpo. Ele analisou todos os documentos e percebeu que no lugar onde deveria ter o nome de seus pais em seus documentos estava em branco.
— Pelo jeito você estava falando a verdade, Anne Prado. — Christian disse com uma voz rouca.
— Eu falei para o senhor que eu não era uma mentirosa, eu não gosto disso. As freiras me ensinaram que mentir era algo feio e tenho certeza que elas estavam certíssimas. — Anne o encarou.
— Então somos iguais nesse ponto. Quero deixar claro que não gosto de mentiras, muito menos que escondam as coisas de mim, por mais simples que sejam, se achar que eu devo saber de qualquer coisa, você deve me informar imediatamente. Está bem? Mentiras já me fizeram muito m*l e não tolero esse comportamento de pessoas que trabalham diariamente comigo, principalmente quem tem acesso a minha casa e minha vida pessoal. — Indagou a encarando, o que a fez ficar tímida.
— Sim senhor, como desejar. Então o senhor vai me dar um emprego? — Perguntou ansiosa.
— Eu tenho duas filhas, são bebês e ainda não tenho ninguém que possa cuidar delas, iria começar uma seleção em breve, então acho que esse cargo lhe servirá muito bem. Se desejar o emprego, podemos fazer um teste. — Sugeriu.
— Sim, é claro que eu aceito e será uma experiência incrível cuidar de gêmeas.
— Eu tenho algumas exigências a fazer. — Christian disse e ela assentiu. — Bom, você ficará responsável por tudo que estiver relacionado às meninas, eu não entendo e não tenho muito tempo para cuidar delas, e como você não tem ninguém e não tem para onde ir, creio que irá morar aqui, então irá receber para cuidar delas durante a noite também. Mas eu irei contratar uma segunda pessoa para lhe auxiliar aqui. — Aquilo era verdade, ela não tinha para onde ir, então aquilo não seria r**m pra ela.
Anne assentiu.
— Mas terá folga, como em todos os outros empregos, é um direito seu e por isso terá alguém para lhe substituir, quando estiver de folga. Esse é o seu salário inicial. — Mostrou-lhe um papel com alguns dígitos, que a deixou bastante surpresa. — É pouco? Se for, você pode falar que eu aumento. Tenho ciência que cuidar de duas bebês não é nada fácil. — Christian perguntou.
— Não senhor, isso é mais que o suficiente e tanto faz eu ter folgas ou não, eu não tenho para onde ir mesmo. — Deu de ombros. — Com isso eu posso fazer uma faculdade, certo? — Ela falou animada.
— Faculdade? Acho que você não entendeu, Anne, você terá que cuidar das meninas sempre e além disso, não temos faculdade aqui, somente na cidade, o mais próximo de uma cidade que temos aqui é o povoado, mas nem escola tem. — Christian revelou.
— Eu entendi muito bem, senhor, mas hoje em dia tem como fazer faculdade online e é o que eu desejo fazer. Vocês têm acesso a internet aqui, não tem? — Perguntou.
— Então você tem sonhos? E sim, temos acesso a internet, moramos longe da civilização, mas não vivemos na idade da pedra. — Ela riu com a sua resposta.
— Quem não tem sonhos, senhor? Eu quero muito ser uma professora e levar conhecimento para aqueles que não tem nenhuma oportunidade. — Disse sorrindo, seus olhos brilhavam enquanto ela falava sobre seu sonho.
— Desde que não atrapalhe o cuidado com as meninas, por mim, não vejo problema que queira continuar estudando, eu posso até lhe ajudar fornecendo os materiais necessários, já que sei que você não tem nada. — Disse.
Anne assentiu enquanto sorria fraco, ela estava vivendo um sonho, com certeza era um sonho.
— Posso fazer uma pergunta? — Perguntou Anne, olhando nos olhos dele.
— Sim, faça? — Respondeu.
— Quanto tempo tem as meninas?
— Uma semana.
— Elas já tem nome? — Uma pergunta se transformou em várias.
— Não. — Respondeu seco.
— E?... Anne o encarou tímida.
— Continue, eu acho que tenho noção do que você quer perguntar. — Falou e ela tomou coragem.
— Onde está a mãe delas? Se elas só tem uma semana, ela deveria ainda estar de repouso e pelo que vejo, o senhor está sozinho na casa e pela urgência em contratar uma pessoa para cuidar de suas filhas. — Christian respirou fundo, não era exatamente sobre aquele assunto que ele queria falar.
— Antes que fique sabendo sobre o assunto pela boca de outros ou que fique fazendo perguntas para outros funcionários, eu vou lhe dizer o que aconteceu com a mãe delas. — Anne ficou um pouco constrangida, ela não era fofoqueira, mas estava curiosa para saber o porquê daquelas meninas estarem sozinhas e ele tão abalado.
Anne sentiu que aquele assunto o deixava diferente e o seu olhar foi coberto por uma névoa escura novamente.
— Desculpa, não quis ser intrometida. Não precisa responder, eu vou entender. — Pediu desculpas, enquanto abaixava seu olhar e encarou suas próprias mãos.
— Ela morreu, há dois dias, em um acidente de carro. — Anne ergueu sua cabeça e o encarou colocando a mão sobre seus lábios em surpresa.
— Eu sinto muito, senhor Christian. — A jovem falou.
— Não sinta, ela não merece sua pena. Ela e o meu irmão eram amantes e morreram enquanto fugiam, por isso nenhum dos dois é merecedor de pena de ninguém. — Anne sentiu muita mágoa na voz daquele homem. — Agora já sabe o que aconteceu com a mãe delas, não precisa sair perguntando por aí, minha vida pessoal não é problema de ninguém. — Christian respondeu bastante rude.
— Tudo bem, senhor. Eu não vou falar mais sobre isso. Mas as meninas precisam receber um nome, elas já têm uma semana e ainda não foram registradas? — Ela respondeu.
— Não, e só serão registradas quando o teste de DNA ficar pronto. — Anne ficou surpresa.
— DNA? — Perguntou.
— Sim, minha ex-esposa e o meu irmão tinham um caso, então eu não tenho certeza que elas são minha filhas. — Respondeu. — Então, terei que ir até a cidade para fazer o teste de DNA e poder registrá-las, caso sejam minhas filhas. Se prepare, amanhã começa o seu teste. Eu levaria outra pessoa comigo, mas você servirá. — Anne assentiu. — Também irei preparar todos os documentos para sua contratação. — Ela suspirou aliviada.
— Posso conhecer as meninas? — Perguntou.
— Sim, mas antes eu preciso lhe mostrar onde fica a cozinha e algumas coisas delas. — Ela o acompanhou, observando o homem, que ela já classificava como o homem mais lindo que seus olhos já tinham visto.
— Aqui fica a cozinha e naquela parte está o leite das meninas, além das mamadeiras. Não sei se é o leite certo para elas, mas foi o que a Bete, funcionária mais velha da casa, conseguiu no povoado e é o que elas estão tomando. — Deu de ombros.
— É o mesmo leite que dávamos para os bebês recém-nascidos, quando eles chegavam no orfanato, então acredito que esteja certo. Mas isso pode ser verificado com o pediatra delas. Mas se elas não tiverem nenhum tipo de reação r**m ao leite, creio que possam continuar tomando ele, depois apenas muda só a idade, esse é de recém-nascido até três meses. — Anne explicou.
— Eu não entendo bem, não sei alimentá-las direito ainda. — Revelou. — Se estiver com fome, se alimente. Mas antes, venha conhecer as meninas, assim você também pode tirar essas roupas molhadas. — Perguntou e ela percebeu que ele gostava de dar ordens. Mas ele era o chefe, era sua obrigação dar ordens e ela como empregada, tinha que obedecê-lo.
Era difícil acompanhá-lo, suas pernas eram longas e as dela bastante curtas para conseguir andar na mesma velocidade que ele.
Christian abriu uma porta de madeira maciça branca e maçaneta dourada, o cheirinho que saiu do quarto invadiu as narinas da jovem e aquilo foi como ser tocado por um anjo.
— Nossa, que quarto lindo, parece coisa de novela! — A garota sussurrou, caminhando tão leve que parecia estar pisando em ovos.
— Você consegue cuidar delas sozinha? — Christian indagou curioso.
— Claro que sim, já cuidei até de quatro crianças sozinha. No orfanato precisávamos nos ajudar e principalmente apoiar as crianças que chegavam lá. Muito obrigada, senhor! — Respondeu feliz, observando as duas meninas que vestiam roupas branquinhas e touquinhas rosa e lilás, elas eram a personificação de dois anjinhos.
Christian não conseguia acreditar que ela havia sido criada em um orfanato, ela tinha um jeito diferente de falar e apesar da aparência tão juvenil e já ter dezoito anos, ela parecia ter amadurecido precocemente.
— Você dormirá aqui com elas, o quarto já está todo equipado para isso. Temos um banheiro que fica ali, naquela porta e um closet naquela outra, há espaço para as meninas e para você também, organize suas coisas como desejar. Agora tome um banho e se troque, daqui a vinte minutos me encontre na sala, por favor. — Christian disse frio e saiu do quarto, sem dar a Anne a chance de lhe fazer nenhuma pergunta e sequer lhe responder aquela.
— Que homem estranho! — Falou ainda encarando a porta.
Ela ficou ainda alguns minutos observando as meninas e pareciam tão bem cuidadas. Se estavam sozinhas com ele, então ele tinha cuidado das duas? Ela sorriu, vendo que ele estava escondendo quem realmente era com toda aquela pose de homem sério e frio. Logo ela tomou um banho rápido e tratou de ser o mais rápida possível, não queria deixá-lo esperando por muito tempo, na verdade ela não queria passar uma má impressão logo de início.
Após o banho, ela verificou as meninas e saiu do quarto, seguindo para sala, onde ele já estava.
— Já estou aqui, o que mais o senhor deseja comigo? — O homem também havia trocado de roupa e os cabelos úmidos indicavam que ele também havia tomado banho.
Christian teve sua atenção tomada não pela sua fala, mas pelo seu cheiro. Baunilha! Ela tinha cheiro de baunilha, e aquele aroma o entorpeceu mais rápido do que algumas doses de whiskey. Ele fechou os olhos e balançou a cabeça, tentando dispersar aquela sensação de seu corpo e mente, que foram involuntariamente causadas pela jovem.
Ele abriu os olhos e subiu o olhar pelas suas pernas, vendo os machucados em seus joelhos que pareciam estar em carne viva, além de seus cotovelos também.
— Não é nada demais, mas terá que vir comigo. — Levantou-se e seguiu em direção ao corredor que dava acesso ao quarto das meninas.
Ele a levou para um quarto que ficava duas portas após o das meninas. Seu coração disparou e sua espinha gelou, o que ele queria ou iria fazer com ela naquele quarto?
— Sente-se aí. — Ordenou, apontando para um sofá pequeno e Anne engoliu seco.
Christian entrou no banheiro e demorou alguns minutos, quando voltou tinha uma caixa em suas mãos. Anne se surpreendeu quando ele sentou-se no chão e levou sua mão até a barra de seu vestido.
— O que está fazendo? — Assustada ela segurou firme a peça de roupa.
Os olhos dela estavam cheios de lágrimas, temia que ele fosse fazer algo com ela.
— Você tem ferimentos no joelho, me deixe limpar isso, ou vai ser pior para você. — Suspirou um pouco irritado, mas entendia o medo que ela deixava transparente em seus olhos. — Não pense besteira, eu não sou esse tipo de homem. Comigo você estará mais segura do que com qualquer outra pessoa, não tenha medo. — Disse, tentando tranquilizá-la.
Anne exitou por alguns segundos, mas logo cedeu, envergonhada, ela subiu um pouco seu vestido, deixando seus joelhos de fora e deixou que ele fizesse a limpeza de seus ferimentos. Eles permaneceram calados, não tinham nenhum assunto para conversarem, ela já sabia o que precisava saber, seu único desejo era que aquilo terminasse logo, estava doendo demais, no entanto, ela ainda tinha mais ferimentos em seus cotovelos.
— Obrigada, senhor! — Anne agradeceu quando ele finalizou seus joelhos. Já estava pronta para se levantar, mas foi impedida pelo homem.
— Não terminei, faltam seus cotovelos. — Sentou-se ao lado dela e segurou seu braço. Ele estava muito próximo e o cheiro de baunilha que vinha dela era tão gostoso, que ele desejou saber se aquele cheiro tratava-se do seu perfume ou do seu hidratante de pele.
— Aí! — Anne gritou.
— Desculpa, não fiz por m*l, mas é que os ferimentos dos seus cotovelos estão mais profundos. Você não estava sentindo eles doer em? — Perguntou.
— Não, eu estava com tanto medo, que não senti nada, nem mesmo durante o banho.
Christian soprou o ferimento quando usou o álcool para fazer a limpeza dos seus machucados. Ela o observava, enquanto ele estava concentrado no seu trabalho. O toque de Christian era quente e suave, o único homem que já tinha lhe tocado daquela forma foi o médico que visita o orfanato uma vez por mês.
— O que deu em você ao escalar aquele muro? — Perguntou, olhando de lado.
Anne engoliu seco. Porque diabos ele tinha que encará-la daquela forma?
— Eu… eu estava com medo, seus cães estavam me seguindo feito feras selvagens, minha salvação foi o muro. — Respondeu, nervosa.
— E se você caísse e quebrasse alguma coisa? O Conan e o Júpiter só queriam brincar com você, são mais dóceis que um gato manhoso. — Continuou limpando seus ferimentos, enquanto ela fazia caretas de dor, aquilo ardia muito.
— Eu estava em pânico, não deu tempo de pensar em nada e como iria adivinhar que eles só queriam brincar comigo? — Aquela conversa estava deixando ela incomodada.
— Foi uma grande proeza você conseguir subir aquela parede, com umas pernas tão curtas. — Olhou das pernas dela até chegar em seus olhos. Anne sentiu suas bochechas arderem em chamas com aquele olhar de Christian.
— Senhor, eu peço que não fale da minha altura, isso sempre foi motivo de chacotas no orfanato, não tenho culpa que o senhor seja grande demais. — Anne virou o rosto e não viu quando Christian sorriu.
— Me lembrarei de não falar mais sobre suas pernas curtinhas. — Anne bufou com raiva. Tentou tirar seu braço, mas ele segurou firme. O toque dele era quente e macio.
— Eu ainda não terminei, fica quieta. — Falou sem olhar em seus olhos.
— O que você vai fazer com elas se não forem suas filhas? Se elas forem filhas de seu irmão. — Anne perguntou.
— Irei mandá-las para o mesmo lugar de onde você veio. — Aquelas palavras invadiram seus ouvidos como se fossem adagas afiadas. Ela quis retrucar e esbravejar contra ele, porém se manteve quieta e ali encerrou aquela conversa.
Anne não conseguia acreditar que ele seria tão c***l ao ponto de fazer isso com aquelas crianças tão inocentes, elas não tinham culpa de nada, a traição não veio delas, elas iriam sofrer demais em um lugar como aquele, ela não desejaria aquele lugar para ninguém. Christian terminou de fazer a limpeza de seus ferimentos rapidamente e os dois saíram do quarto, seguindo para o quarto das meninas.
Anne caminhou até o berço que elas estavam e sorriu, vendo que as pequenas estavam acordadas, elas eram tão pequenas, tão frágeis e inocentes.
Christian também se aproximou dos berços, sentindo um aperto em seu peito, tinha desejado tanto aquelas filhas, lembrou-se do quanto ficou feliz ao saber que eram duas, que eram meninas, mas agora a dúvida o consumia, aquelas duas bebês podiam não ser suas filhas.
Anne começou a chorar. Ele percebeu e ficou intrigado.
— O que foi agora? Porque está chorando? — Perguntou curioso e sem paciência.
— Você não pode fazer isso, não pode levá-las para um orfanato. Aquilo não é um bom lugar, elas vão sofrer, vão te odiar e podem se tornar duas crianças tristes e adultas que só terão ódio em seu coração. — Anne falou chorando.
Onde Christian tinha se metido? Contratou uma jovem chorona e sensível.
— Ah não, choro de novo não. — Passou as mãos entre os seus cabelos.
— Você não sabe o que é ser abandonado, o que é olhar seus documentos e ver que até mesmo ali está sozinho, não sabe o que é não ter um passado e não ter um futuro onde tenha seus familiares. O meu passado é um livro em branco e o meu futuro será um futuro da mesma forma, imagina como será para eu quando os meus filhos perguntarem sobre o meu passado? Não ter avós, tios e primos por minha parte. — Anne encarou ele com os olhos vermelhos.
— Você não sabe do que está falando, não me conhece e não sabe do meu passado. Eu entendo de abandono tão bem quanto você. Então, por favor não fale sobre assuntos que não tem conhecimento. Agora, faça seu trabalho e não seja tão sensível. Controle suas crises e guarde suas lágrimas só para você. — Christian deu as costas e saiu do quarto deixando ela sozinha com as meninas.
Ela secou suas lágrimas e encarou a porta.
— Homem louco, sem coração. — Caminhou até o berço e encarou as duas pequenas. — Eu tenho certeza que vocês são filhas dele e espero que ele dê logo um nome para as duas, não podemos ficar chamando vocês de bebês para sempre. — Ainda com a voz rouca, causada pelo choro recente.
— Garota intrometida e chorona! — Christian bufou enfurecido, ao sair do quarto.
Caminhou até o seu escritório e voltou a fazer o que estava fazendo antes de ser interrompido pelos gritos daquela pequena mulher que corria feito louca de seu cachorros, voltou para aquilo que tinha se tornado sua companhia nos últimos dias: o álcool. Era somente daquela forma para ele esquecer tudo que tinha lhe acontecido recentemente.
Anne já tinha se recuperado do choro, já tinha trocado as pequenas e lhe dado comida, o que fez as duas dormirem novamente e de primeira impressão ela parecia ter se dado bem, as meninas eram muito calmas e quietas, o que tornaria tudo mais fácil por ser duas meninas.
— Vamos ver, o que eu devo levar para as duas. Tem que ser tudo em dobro. É melhor deixar tudo pronto hoje, eu não sei o quão cedo aquele louco deseja sair amanhã. — Anne começou a conversar sozinha. — Eu não tenho nem o que levar, acho que devo pegar as economias que juntei esses anos e comprar algumas roupas, agora eu vou precisar disso. — Continuou conversando com seus próprios pensamentos.
Anne arrumou a bolsa das meninas com tudo que elas precisariam por dois dias. Um teste de DNA não era tão rápido e possivelmente teriam que passar uma noite na capital. No entanto, ela estava bastante nervosa e nunca tinha ido à capital, o máximo que saia do orfanato era para fazer compras com as freiras no povoado e para participar da programação da igreja. Todos os seus anos ela passou presa naquele orfanato.
Anne se jogou naquela cama imensa e pôde sentir seu corpo ser massageado pela maciez daqueles lençóis, pela primeira vez em sua vida ela teria uma noite de sono digna e pela primeira vez provaria de uma cama espaçosa e confortável. Mas no seu íntimo ela estava preocupada com as duas pequenas. Fazia preces para que as duas fossem filhas de Christian, assim elas não seriam abandonadas em um orfanato, assim como ela foi um dia.
Ela também lembrou do que Christian disse a respeito da mãe delas ter abandonado tudo e fugido com o seu irmão. Como alguém podia ser tão c***l a esse ponto? Elas eram apenas recém nascidas, necessitavam de todos os cuidados e carinho, principalmente os da mãe, que era insubstituível.
Anne acordou cedo e com fome, as meninas dormiam tranquilamente. A noite dela tinha sido incrível, nunca dormira tão bem e seu corpo estava grato por uma noite tão agradável e como ela imaginou, as meninas eram verdadeiros anjos, acordaram apenas duas vezes na noite, apenas para comer e voltaram a dormir novamente, assim como ela.
Ela se arrumou, pegou a babá eletrônica e foi para a cozinha, precisava preparar algo para comer ou morreria de inanição. Seu patrão já tinha dado carta branca que ela podia usufruir de qualquer coisa da casa e assim ela fez e preparou o café da manhã, o suficiente para duas pessoas.
Ela estava entretida terminando de preparar o café e não notou a presença de Christian, que já se encontrava sentado observando ela preparar tudo bastante concentrada, o cheiro estava ótimo.
— Ai meu Deus! — Anne se assustou com o homem bem atrás dela. A panela que ela estava usando para fazer os ovos mexidos, acabou encostando em seu pulso e a queimando. — Ah não. — Christian levantou-se rapidamente quando a viu assoprando o seu próprio pulso.
— Você se queimou? — Pegou o pulso de Anne e começou a verificar.
— Vou colocar creme dental, vai parar de arder rapidinho. — Tentou se soltar, mas ele a segurou.
— Só vai piorar a queimadura. — Respondeu e a guiou até a pia, colocou seu pulso embaixo da água e deixando por algum tempo. — Nunca coloque nada em uma queimadura antes que um médico a examine. — Anne só conseguiu assentir enquanto balançava sua cabeça. Não dava pra pronunciar uma palavra com ele tão próximo dela. O peito de Christian estava colado nas costas dela, fazendo ela sentir seu perfume, sua respiração contra seu pescoço e o calor de seu corpo, e porque ele era tão quente? Perguntou-se, enquanto observava ele direcionar a água da torneira sobre o seu pulso. — Você acordou que hora que já preparou tudo isso? — Olhou em volta, vendo que ela tinha preparado muitas coisas.
— Às cinco! O senhor disse que iríamos sair cedo, eu não almocei e nem jantei ontem, acordei com fome e como o senhor permitiu que eu fizesse qualquer coisa, eu imaginei que poderia fazer algo para comermos antes de pegarmos a estrada. — Respondeu.
— Eu não quero que pule refeições e obrigado por preparar o café da manhã, quando não é a sua função. Tem uma pessoa responsável por tudo aqui. — Ele revelou.
— E onde estão todos?
— Eu os liberei para o velório e enterro do Isaac, mas voltam hoje. — Informou, ainda na mesma posição de antes. Ela imaginou que Isaac era o irmão dele, por isso decidiu não perguntar nada.
— Chris! — Uma voz feminina despertou os dois que olhavam a água cair sobre a pele de Anne.
Anne encarou a mulher por baixo do braço de Christian, que tinha um sorriso brincalhão em seus lábios.
— Bete? Bom dia. — Ele falou sem se importar com a posição que estavam.
— Bom dia, e a moça, quem é? — Olhou para Anne ainda sorrindo.
— Eu sou a Anne. — Apresentou-se.
— É a babá das meninas, depois eu explico melhor. — Christian explicou.
Bete era a cozinheira e uma espécie de governanta na casa de Christian há anos e por isso tinha aparecido tão de repente. Ela nunca tinha visto o homem se aproximar de uma mulher como ele estava tão próximo de Anne. Algo dizia aquela experiente senhora que a chegada da jovem iria mudar muitas coisas naquela casa e principalmente na vida de Christian.