Viagem à capital

2108 Words
[...] Nem Anne, tampouco Christian se incomodaram com a presença de Bete ali e muito menos com a posição que ambos se encontravam. A garota não era tão maliciosa assim e Chris, bom, ele só estava cuidando de um ferimento de uma funcionária muito desastrada. Mas para Bete, aquilo era algo novo, principalmente aquele cuidado com a jovem babá. Christian continuou lavando o braço de Anne, sem se importar com a presença de sua velha funcionária, que já sabia onde aquilo tudo ia dar. Já a jovem, fazia várias caretas de dor, aquela queimadura não foi nada leve e possivelmente iria ficar uma bela bolha naquele lugar. — Ainda está ardendo? — Christian perguntou praticamente ao pé do ouvido de Anne, já que estava com o corpo curvado para alcançar o seu braço, consequentemente com seu abdômen colado às costas dela. Quem não os conhecesse e visse os dois daquela forma, pensaria que era um casal, sem nenhuma dúvida. — Sim, um pouco! — Anne respondeu sem desviar o olhar de seu machucado. — Vem comigo, tenho algo que vai aliviar a dor. — Chris se afastou e Anne o seguiu, mas antes fechou a torneira da pia da cozinha. — Bete eu preciso conversar com você, eu vou fazer uma pequena viagem para a capital e só volto daqui a dois dias. — Christian revelou e saiu da cozinha com Anne em seu encalço. Como fez na noite anterior, Christian levou a jovem para seu quarto e voltou a entrar no banheiro, voltando de lá com a caixinha que ele pegou na noite anterior. — Como você consegue se machucar tão facilmente? — O homem perguntou, sentando-se ao lado de Anne. — Isso sempre acontece quando estou assustada, desde criança sou assim. E o senhor me assustou lá na cozinha. — Respondeu, encarando seus lindos olhos azuis, tão azuis como o céu daquela manhã. — Então, por favor, me desculpe, não foi minha intenção assustá-la. Agora será que você pode tirar a jaqueta, eu preciso ver como estão os seus machucados nos cotovelos. — Christian pediu. Ela piscou duas vezes encarando os olhos de seu patrão. — Não precisa, senhor. Já estão bem melhores. — Ele travou a mandíbula por um tempo, erguendo uma sobrancelha. — Não deu tempo para curar seus machucados em apenas poucas horas e eu sei muito bem que machucados nessa região demoram mais tempo para serem curados. Ande tire a blusa. — Anne bufou se sentindo vencida pelas palavras firmes daquele homem. — O senhor é sempre autoritário assim? — Perguntou tirando a peça de roupa, ficando com uma camiseta branca. — Apenas com pessoas do meu interesse. — Disse passando uma pomada de queimadura na área que tinha sido queimada antes. "Pessoas do meu interesse" Mas o que diabos aquilo significava? Porque ela seria uma pessoa do interesse dele? — Pensou, irritada. — Peço que tome mais cuidado, principalmente quando estiver com as bebês. — Disse passando algo que Anne não viu, em seus cotovelos. — Está bem, prometo que vou ser muito atenciosa daqui pra frente… ai, isso doeu. — Reclamou. Christian riu, aquilo tinha sido de propósito, pelo jeito sarcástico que ela tinha falado com ele. — Acha que consegue levantar sua calça até o joelho? Preciso ver seus joelhos também. — Anne, a contragosto, assentiu e fez o que ele havia lhe pedido. — Eu já falei que estou bem, porque está tão preocupado com pequenos ralados nos meus joelhos? — Perguntou. — Hábito! Eu fazia sempre isso quando era criança. — Anne sorriu. — Eu sempre cuidava dos animais machucados que… — Está me chamando de animal? — Levantou-se ficando de pé, com uma expressão bastante irritada. — Não, eu não quis dizer isso. Você sequer me deixou terminar a frase. Eu ia dizer que cresci e passei a ajudar pessoas também, algumas um tanto quanto desastradas, iguais a você. No entanto, olhando bem, você parece com a Gretta. — Ele tinha um sorriso zombeteiro nos lábios. — Quem é Gretta? — Perguntou curiosa, mas ao receber sua resposta arrependeu-se de ter lhe perguntado. — Era uma patinha que eu tinha quando era criança. — Anne olhou incrédula para o homem. — Era a menor de toda a ninhada. — Finalizou. — Obrigada por me comparar com uma pata, confesso que estou curiosa para saber com o que mais o senhor irá me comparar daqui pra frente. — Christian sentiu a voz dela falhar um pouco, talvez tivesse sido um pouco grosseiro com ela mas não iria pedir desculpas, já tinha feito isso antes. — Já estou livre, senhor? — Perguntou e ele assentiu. — Saíremos em quarenta minutos, desça, tome café e esteja com as meninas na sala, em exatamente quarenta minutos. — Verificou o seu relógio. — Começando de agora. Ah, não volte a colocar a jaqueta, pode machucar ainda mais seus ferimentos. — Falou vendo que ela tinha uma expressão triste. — Sim senhor, farei o que me ordenou. — Em seguida bateu a porta com força. Christian sentiu que não deveria ter falado com Anne daquela forma, ela era a sua funcionária e seria a sua pessoa de confiança para cuidar das meninas, então eles tinham que ter uma boa convivência e não ficarem agindo como adolescentes. Após quarenta minutos, Christian caminhou até a sala, já encontrando Anne ali, ele parou, sem que ela o visse, ele ficou a observando conversar com as bebês, cada uma em um bebê conforto. O cheiro suave das meninas preenchiam o lugar. — Vocês são tão lindas, tão fofas e tão sensíveis e delicadas. Olhas só essas bochechas, tão redondinhas. — Anne conversava com as meninas que dormiam, mas aquela brincadeira fez uma delas despertar. — Olha só que olhos mais lindo, parecem esmeraldas brilhantes… — Anne ficou pensativa por alguns segundos. — Esmeralda! Esse nome combina muito bem com você, não acha? Uma pedra preciosa e muito valiosa, é assim que vejo você, meu anjinho. — Falou com a bebê do bebê conforto lilás — E você, hum? — Olhou para a outra bebê. — Em um sono tão profundo, se eu fosse sua mãe também lhe daria o nome de uma pedra preciosa, daquelas que brilham tanto quanto as estrelas do céu. Você é tão delicada, que tal Cristal? — Perguntou a bebê do bebê conforto de detalhes rosas. — Se o senhor chatice não der os seus nomes logo, eu as chamarei assim. Combina bastante, não acham? — Christian travou a mandíbula quando ouviu que o "senhor chatice" estava se referindo a ele. Que garota insolente, pensou. — Estamos aqui há quinze minutos e nada dele. Ainda pede pontualidade. — Disse cruzando as pernas. Ele balançou a cabeça negando. Ele tinha contratado uma garota que não sabia controlar sua língua. — Não faz mais que a sua obrigação. — Christian falou, se aproximando de Anne com uma mala de mão e a pasta que ela tinha lhe entregado com seus documentos. — Ai meu Deus! — Assustou-se dando um pulo do sofá. Ele a encarou com aqueles olhos azuis, enquanto arqueava uma sobrancelha em sua direção. — Pegou tudo que elas e você vai precisar? — Perguntou. — Sim, mas eu vou ter que comprar algumas coisas para eu quando chegarmos na cidade, eu não tenho muitas coisas e guardei um dinheiro para isso. Mas também preciso dos meus documentos que eu lhe entreguei. — Falou ligeiro. — Eles estão comigo, vou precisar deles para regularizar a sua situação aqui. Se está tudo certo, vamos logo, antes que fique tarde. — Falou seco. — Sim senhor. — Anne pegou a sua bolsa e tinha mais duas, as quais eram das meninas, no entanto ainda tinham as bebês, ela não daria conta de tudo. Anne olhou para Christian que esperava ela se mexer e o seguir até a garagem. — O que foi agora? — Indagou cansado. — Não dou conta sozinha das meninas e de todas as bolsas, pode me ajudar? — Pediu juntando as mãos. Christian apenas assentiu, pegando as bolsas, deixando apenas as meninas na responsabilidade de Anne. Ele colocou as bagagens no porta malas e acomodou as meninas no banco traseiro, em seguida indicou o banco do carona, ao seu lado para que Anne se sentasse. — Você pegou tudo que elas e você vão precisar? — Christian perguntou, ao entrar no carro, assumindo o lugar de motorista. — Sim senhor. — Anne estava um pouco nervosa, não tinha nem vinte e quatro horas que tinha conhecido aquele homem e já ia viajar com ele. Christian ficou encarando como se quisesse algo a mais, algo que Anne não sabia o que era, mas que estava lhe incomodando muito, aquele homem não tinha que pegar a estrada? Então porque os seus olhos estavam nela e porque ele não ligava logo o carro? Ele inclinou o seu corpo em direção à ela, fazendo seu corpo enrijecer, seus rostos estavam muito próximos, Anne conseguia ver cada detalhe do rosto dele, desde a barba bem alinhada, até o azul céu de seus olhos, também inalou o perfume dele, que a deixou fora de órbita, assim como também sentiu o calor do corpo dele, aquele calor fazia seu corpo entrar em combustão. Christian também a observou, mesmo que por poucos segundos. A aparência podia ser de uma jovem que acabara de completar dezoito anos, mas o seu perfume o embriagava mais que o whiskey que tomava toda noite, assim como os lábios carnudos e bem delineados, apesar de sua boca ser tão pequena e ao passar a língua sobre os lábios, involuntariamente, ela acordou o corpo de Christian que reagiu sem que ele percebesse. Mas num pico de sanidade que parecia voltar para o seu corpo e mente, ele voltou a si, agarrando o cinto de segurança ao lado de Anne. — O cinto de segurança, não esqueça de colocá-lo, ele salva vidas, sabia? — Sem tirar seus olhos do dela, ele falou, ela conseguiu sentir o hálito quente de Christian tocar seu rosto, enquanto ela também sentiu de leve sua mão roçar sua barriga, em seguida o prendendo para segurança dela. Ela não respondeu, por um momento esquecerá como se fala e Christian não moveu um músculo de perto dela, enquanto se perguntava o que diabos estava acontecendo com ele para começar a agir daquela forma. Ele parecia um leão pronto para atacar sua presa frágil e vulnerável. — Não vou esquecer mais. — Disse quase num sussurro. Christian voltou a si e a encarou, ela voltou a passar a língua sobre os lábios. Ele podia beijá-la a qualquer momento, ninguém iria ver, ninguém iria impedir ou interromper, tampouco ela poderia escapar de seus lábios. Sentiu-se como um adolescente. — Ótimo. Agora vamos! — Deu um peteleco no meio da testa da garota que despertou daquele transe que ele mesmo tinha colocado. — Isso doeu! — Reclamou passando a mão sobre a testa. Christian não respondeu, apenas deu-lhe um sorriso travesso, que a deixou ainda mais irritada. Ele deu partida no carro, felizmente saindo da garagem. Mais calma e com uma visão melhor, Anne conseguia perceber a beleza e o tamanho da fazenda. Ela inalou o ar fresco, estava se sentindo livre e uma nova vida começava ali, ela estava feliz, apesar de seu patrão ser um pouco fora da casinha, mas tirando o chefe louco, aqueles dois anjinhos que dormiam sem nenhuma preocupação no banco de trás recompensava o pai ou o tio maluco que Anne teria como chefe. Olhar para aquelas pequena lhe apertava o coração, se o resultado daquele teste de paternidade não fosse positivo, o futuro daquelas lindas seria exatamente como o seu, mas ela estava disposta a pedir, implorar, espernear se fosse possível para que aquele homem, que estava tão concentrado na estrada não fizesse tamanha maldade com elas. — Se elas forem suas filhas, o senhor já tem nomes para as duas? — Perguntou, chamando a atenção de Christian. — Não. — Foi seco em sua resposta. — Mas, a mãe delas e o senhor passaram a gestação delas e não tinham escolhido um nome para cada uma? — Anne era curiosa e tagarela e não se conformava com respostas vazias. — Se elas forem minhas filhas mesmo, eu não vou querer que elas tenham o nome que a mulher que as abandonou escolheu. — Respondeu na esperança de que Anne ficasse quieta. — Espero que você não escolha nomes feios. — Disse, simplista. Christian não voltou a lhe responder, ele queria evitar a tagarelice de Anne e concentrou-se apenas em dirigir e levá-los até a capital em segurança.
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