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Christian queria silêncio, no entanto, aquele silêncio já estava sendo ensurdecedor. As meninas nem pareciam que estavam ali e a única tagarela naquele carro parecia ter entendido quando ele não o respondeu mais e assim ficou quieta até aquela parte do caminho, porém, ele era quem começava a se irritar com o silêncio. O homem observou rapidamente que Anne seguia viagem com o rosto virado para a estrada, ela parecia estar encantada com todos os lugares que passavam ou com raiva dele.
Ele sorriu.
Anne era diferente de todas as garotas e mulheres que ele conheceu em toda a sua vida e aquilo chamava bastante a atenção dele. Ela tinha um brilho no olhar ao mesmo tempo que tinha uma inocência pura e angelical. Christian riu, em seguida balançou a cabeça dispersando todos os seus pensamentos relacionados a sua funcionária e em seguida resolveu quebrar aquele silêncio e conversar com aquela que seria a babá das meninas e quem estaria sempre com ele, então deveriam saber um pouco sobre o outro, melhor, ele queria saber mais sobre ela.
— Anne? — Ele a chamou ainda de olho na estrada.
— Senhor? — Respondeu de imediato.
— Qual idade você tinha quando foi deixada no orfanato? — Ela já tinha lhe falado aquilo antes, mas talvez ele não tenha ouvido bem, na verdade, ele não sabia, por onde começar uma conversa com ela.
— Talvez a mesma idade que elas. A freira que me encontrou na porta do orfanato, disse que o meu umbigo nem sequer tinha caído, então suponho que eu não tinha nem dez dias de vida. — Respondeu, olhando para Christian.
— Então você cresceu no orfanato, passou a sua vida toda até agora, quando completou os seus dezoito anos? — Voltou a perguntar, sem tirar a sua atenção da estrada.
— Sim, quando não temos sorte e não somos adotados, que foi o meu caso, a gente espera até completar a idade em que podemos trabalhar e nos virar sozinhos. — Falou sem desviar o olhar dele, que a olhava muito rápido e depois devolvia a sua atenção à estrada.
— Porque escolheu ficar aqui, nessa cidade e a primeira oportunidade de trabalho aceitou, por que não quis ir para um lugar maior? A minha fazenda é a mais afastada de todas, não é um lugar movimentado, um lugar onde pessoas da sua idade gostariam de ficar. — Christian perguntou, falando os contras da sua fazenda. Mas ela não era nada como as pessoas da idade dela, era exatamente por a fazenda ser afastada de toda a agitação que ela tinha gostado do lugar.
— E o que pessoas da minha idade gostam, senhor? — Anne riu. Talvez o seu chefe ainda não tinha entendido que ela passou toda a sua vida naquele orfanato e quando saia era sobre as ordens das freiras, ela não tinha muito conhecimento sobre o que os jovens faziam, o que sabia era o que via nos filmes.
Muitas vezes, algumas meninas fugiam para os festivais da cidade que ficavam perto do orfanato, mas Anne nunca teve coragem de fazer isso, ela tinha medo dos castigos das freiras que eram severos demais e de longo prazo.
— Pessoas da sua idade gostam de festas, agitação, de sair com amigos, beber, namorar, entre outras coisas. — Anne sorriu e ele percebeu. — Por que está rindo? Por acaso eu disse algo errado? — Tudo que ele falou era errado, a Anne não queria isso, não gostava desse tipo de coisa e sim, ela tinha conhecimento sobre tudo, as freiras e Maria tinham a preparado para o mundo que enfrentaria quando saísse do orfanato, mas era apenas na teoria, na prática, ela não sabia exatamente nada.
— Sim, está tudo errado. Senhor, eu não sei se me ouviu bem, mas, eu passei toda a minha vida dentro do orfanato. Quando eu saia era com as freiras e as festas que eu ia, eram as festividades da igreja, mas apenas para ajudar nas quermesses e voltava com a irmãs, somente. Claro que eu tenho conhecimento de tudo isso que o senhor falou, nós somos instruídas lá dentro quando estamos prestes a sair, para que não venhamos a ser pegas de surpresas e iludidas aqui fora. Somos educadas sobre tudo, então não sou tão ingénua assim, senhor. Mas eu não me interesso por essa vida agitada aí que o senhor falou não, eu gosto de calmaria, de sentir o vento no rosto, o cheiro da terra molhada. Tudo que apenas o campo pode proporcionar-me. — Respondeu.
— Agora você deixou-me surpreso. — Confessou. Talvez ela ainda o deixasse mais surpreso, até mesmo o faria experimentar novos sentimentos.
— Espero que não de uma forma r**m. — Falou olhando para fora da janela.
— Não, não foi. Pode ficar tranquila. — Continuou. — Mas você não tem ambições? Desejos? Não deseja conhecer o mundo e tudo que ele tem para lhe oferecer? — Ela olhou-o por alguns instantes e suspirou.
— Não! Eu só quero uma vida tranquila, quero poder ajudar as pessoas mais necessitadas, sabe? Quero ter a minha família e ser aquilo que eu não tive para eles. Eu vi muitas crianças e pré-adolescentes que chegavam no orfanato, muitos que eram resgatados das ruas, onde os pais morriam de doenças ou de fome, muito desnutridos, com medo. Outros que eram resgatados dos próprios pais. Já recebemos dois irmãos que estavam sendo vendidos pelos pais, um com cinco anos e outro com três anos, eu fui uma das que cuidou deles, foi um processo bastante doloroso, mas por fim, após três meses eles foram adotados por um casal que não podiam ter filhos. É isso que eu quero, eu não sou uma pessoa ambiciosa, quero uma profissão que eu possa manter-me e se a vida tiver amor, felicidade e saúde, para mim, está mais do que perfeita. — Christian não conseguia acreditar naquilo. Como uma pessoa tão jovem tinha sonhos tão simples? Mas, por fim, ele ficou feliz, ela era uma pessoa completamente diferente e aquilo era algo que ele admirava bastante. — E sobre o emprego, eu pergunto-me quem me pagaria o que o senhor vai pagar-me e onde eu não terei nenhum gasto? Uma pessoa com a minha idade e sem nenhuma formação e experiência não consegue um emprego tão fácil. — Ele olhou-a e lhe deu um sorriso de lado.
— Espero que eu não me arrependa dessa minha escolha. — Disse, fazendo ela fazer-lhe uma careta.
— Não vai. Serei a melhor profissional que o senhor irá ter e também a melhor pessoa que possa conhecer. — Ele não respondeu e desejava que ela cumprisse o que estava prometendo, não gostaria de se decepcionar mais uma vez, mesmo que fosse com uma simples babá.
Aquela conversa fez com que os dois não percebessem que já estavam bastante perto da cidade, onde os arranha-céus já eram possíveis de ver. Anne sorriu, era a primeira vez que ela via aquilo pessoalmente. Christian já tinha reservado dois quartos no hotel mais próximo do centro, onde ficariam. Ele também já tinha conversado com a clínica onde as meninas fariam todos os exames necessários e o teste de DNA. Christian e a sua família tinham amizade com o diretor da clínica, então foi fácil conseguir fazer os exames com urgência e com descrição, que era o que ele mais queria, que aquele teste de DNA não virasse notícia.
— Nós vamos direto para a clínica que as meninas irão fazer os testes, tudo bem para você? Deseja fazer algo antes? — Anne entendeu o que aquela pergunta significava.
— Não, eu estou bem. Vamos logo fazer o teste e provar que elas são suas filhas e então você decide logo que nomes você dará a elas, assim podemos chamá-las pelos nomes e não ficarmos chamando de bebês e meninas. — Anne tinha certeza absoluta de que as meninas eram, sim, filhas de Christian.
O homem sorriu. Anne era uma verdadeira insistente e algo dizia a ele que ela não tiraria aquela ideia da cabeça e também começava a acreditar que aquilo que ela tanto insistia poderia, sim, ser verdade e desejava que aquelas duas bebés de bochechas redondinha, fossem suas filhas. E ele já estava acreditando também que as meninas eram suas filhas.