finalmente conseguimos to gravida

1185 Words
A noite tinha um silêncio diferente. Não pesado. Não tenso. Tranquilo. Sofia estava sentada no sofá quando Gabriel apareceu na porta da sala, já com aquele olhar decidido que ela conhecia bem. — Vai se arrumar. — disse, simples, mas com um meio sorriso. — Bem linda. — Ué… por quê? — ela riu. — Confia em mim. Hoje eu cuido de você. Ela foi pro quarto. Tomou um banho demorado, deixou a água quente levar embora o resto das dores que ainda insistiam em ficar. Escolheu o vestido vermelho — aquele que ele sempre olhava como se estivesse vendo algo sagrado e perigoso ao mesmo tempo. Soltou os cachos, maquiagem leve, boca natural. Quando saiu do quarto, Gabriel parou. Literalmente. A mesa estava posta: vinho, velas, risoto de camarão fumegante. Mas nada daquilo competia com ela. — Você… — ele passou a mão pelo rosto, como se estivesse tentando se controlar. — Você é tudo que eu tenho de mais precioso. Ela sorriu, tímida e feliz. — Vem. — ele puxou a cadeira pra ela. Jantaram rindo, conversando besteira, lembrando histórias antigas, falando de planos pequenos — esses que valem mais que promessas grandiosas. Gabriel servia o vinho com cuidado, observando cada gesto dela, como se estivesse gravando tudo na memória. Quando terminaram, ele se levantou, foi até ela e, sem dizer nada, a pegou no colo. — Gabriel… — ela riu, surpresa. — Hoje você não anda. — disse baixo. — Hoje eu te levo. No quarto, deitou Sofia na cama como se estivesse colocando uma joia rara num cofre. Beijou a testa, o rosto, os lábios com calma, com respeito, com amor sem pressa. Não havia urgência. Só presença. — Promete ficar? — ela sussurrou. — Eu já fiquei. — respondeu. — Pra sempre. --- Passaram-se algumas semanas. Sofia não estava procurando sinais. Não estava contando dias. Não estava se punindo. Pela primeira vez, ela estava vivendo. Naquela manhã, acordou cedo, foi ao banheiro quase por hábito. Fez o teste sem expectativa — mais por desencargo, mais pra fechar um ciclo do que pra abrir outro. Colocou o teste na pia. Lavou o rosto. Respirou. Quando olhou de novo, o chão pareceu sumir. Duas linhas. Fortes. Claras. Reais. Ela levou a mão à boca, o corpo inteiro tremendo. As pernas falharam e ela sentou no chão do banheiro, rindo e chorando ao mesmo tempo. — Não… — sussurrou. — Não é possível… Pegou outro teste. Depois outro. Todos positivos. Sofia saiu do banheiro quase correndo, o coração disparado. Gabriel dormia de lado, tranquilo, completamente alheio ao terremoto que vinha. — Amor… — ela chamou, a voz falhando. — Amor, acorda. Ele resmungou. — Que foi… aconteceu alguma coisa? Ela subiu na cama, segurou o rosto dele com as duas mãos, os olhos brilhando de lágrimas. — Tô grávida. — disse rápido, com medo de sumir se demorasse. — Amor, eu tô grávida. É real. É de verdade. Gabriel piscou uma vez. Duas. — O quê…? Ela estendeu os testes com a mão tremendo. — Tá aqui… eu fiz vários… deu positivo… todos… Ele sentou na cama de uma vez, pegou os testes, olhou, leu, releu. A respiração ficou pesada. Os olhos marejaram. — Sofia… — a voz dele quebrou. Ela começou a chorar de novo. — Eu não tava procurando… eu juro… aconteceu… Gabriel puxou ela contra o peito com força, enterrando o rosto no cabelo dela. — Meu Deus… — ele chorava sem tentar esconder. — Você conseguiu… nós conseguimos… — A gente conseguiu. — ela corrigiu, soluçando. Ele afastou só o suficiente pra olhar pra ela, as mãos no rosto dela como se tivesse medo de desaparecer. — Você não tá sozinha nunca mais. — disse, com a voz firme entre lágrimas. — Nunca. Nem você. Nem nosso filho. Sofia encostou a testa na dele. — Eu te amo. — Eu amo você… — ele respondeu. — E agora… amo ainda mais quem tá vindo. E ali, naquela cama simples, sem tiros, sem gritos, sem medo, eles entenderam que depois de tanta dor, a vida finalmente tinha escolhido ficar. Gabriel ainda estava sentado na cama quando a ficha caiu de verdade. Ele passou a mão pelo rosto, respirando fundo, como se o peito estivesse pequeno demais pra tudo que sentia. Depois se levantou devagar e foi até a porta do quarto. Parou. Voltou. Olhou pra Sofia de novo. — Repete… — pediu, quase em oração. — Só pra eu ter certeza que não tô sonhando. Ela riu entre lágrimas. — Eu tô grávida, Gabriel. Do nosso filho. Ele foi até ela outra vez e se ajoelhou na frente da cama. Ajoelhou mesmo. Como quem agradece. Como quem pede perdão ao mundo por tudo que já fez. — Eu prometo… — disse, a voz grave, carregada de emoção. — Prometo que vou ser melhor. Por você. Por esse bebê. Eu já fui o pior homem que esse morro conheceu… mas dentro dessa casa, eu vou ser o melhor pai que eu conseguir. Sofia chorava silenciosa. — Você já é. — respondeu. — Só de ficar. Ele beijou a barriga dela ainda plana, com cuidado quase solene. — Meu filho… — murmurou. — Ou minha filha… você não faz ideia do inferno que atravessamos pra chegar até você. Nos dias seguintes, Gabriel mudou de um jeito que ninguém no morro entendia direito. Continuava sendo temido. Continuava sendo o chefe. Mas dentro de casa, ele virou outra coisa. Passou a acordar antes dela pra preparar café. Brigava com os homens se levantassem a voz perto de Sofia. Mandou trocar colchão, mandar vir médico particular, vitaminas, frutas que nem existiam no morro começaram a aparecer. — Gabriel, tá exagerando… — ela ria. — Não tô. — respondia sério. — Tô compensando. À noite, ele dormia com a mão na barriga dela, mesmo quando ainda não dava pra sentir nada. — E se acontecer alguma coisa de novo? — Sofia perguntou certa noite, a insegurança voltando de mansinho. Gabriel virou o rosto dela pra si. — Não vai. — disse firme. — E se tentar… eu enfrento o mundo de novo. Só que dessa vez, com você do meu lado. Alguns meses depois, o primeiro ultrassom. Sofia apertava a mão dele com força. Gabriel, o homem que nunca tremeu diante de arma nenhuma, estava suando frio. — Pode olhar. — disse a médica. O som encheu a sala. Tum-tum. Tum-tum. O coraçãozinho. Gabriel paralisou. — Esse… — a voz falhou. — Esse barulho é…? — Seu bebê. — respondeu a médica, sorrindo. Ele levou a mão à boca. Os olhos se encheram de lágrimas sem vergonha nenhuma. — Sofia… — sussurrou. — Ele tá vivo… ele tá aqui… Ela chorava também. — Tá vendo? — disse entre soluços. — Ele ficou. Gabriel beijou a testa dela. — Então agora ninguém mais tira nada da gente. — prometeu. — Nem bala, nem medo, nem passado. E naquela sala branca, fria, o homem mais c***l do morro se rendeu completamente. Não ao poder. Não ao medo. Mas ao amor que, mesmo nascido da dor, sobreviveu a tudo.
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