a firmeza dele

1054 Words
O quarto estava em silêncio. Sofia dormia encolhida de lado, a respiração leve, exausta — não só do corpo, mas da alma. Gabriel abriu a gaveta devagar, procurando um remédio qualquer, algo simples… e então o mundo dele virou do avesso. Caixas. Uma atrás da outra. Ele puxou uma. Depois outra. Quando percebeu, estava ajoelhado no chão, a gaveta toda aberta, cinquenta testes de gravidez, todos fechados, alguns amassados, outros com datas escritas a caneta. O ar faltou. A mão dele tremia quando encontrou o papel dobrado no fundo. Ele abriu. > “Já fiz 30 testes. Todos negativos.” Mais abaixo, outro papel: o ciclo dela desenhado à mão, dias contados com precisão obsessiva, estrelinhas marcadas nos dias férteis, pequenos corações nos dias em que ela “tinha que” procurar ele. Gabriel sentiu como se alguém tivesse enfiado uma faca no peito e girado devagar. — Meu Deus… — sussurrou, quase sem voz. Ele se sentou no chão, encostado na cama, olhando aqueles papéis como se fossem provas de um crime silencioso. Não era drama. Não era exagero. Era dor acumulada, escondida atrás de sorrisos, jantares prontos, noites em que ela dizia “tô bem”. Ele passou a mão no rosto, os olhos ardendo. — Você tava passando por isso sozinha… — murmurou. Levantou o olhar para a cama. Sofia dormia, o rosto calmo demais pra quem carregava tanta cobrança por dentro. Ele se aproximou, sentou na beirada da cama e tocou o cabelo dela com cuidado, como se tivesse medo de quebrá-la. — Amor… — chamou baixinho. Ela se mexeu, mas não acordou. Gabriel fechou os olhos com força. Uma lágrima escorreu, silenciosa, pesada. — Você não precisava fazer isso… — a voz saiu rouca. — Não precisava transformar amor em obrigação. Ele olhou de novo para os papéis. Cada estrela era um pedido desesperado. Cada teste negativo, uma pequena morte que ela engolia sozinha. — Eu devia ter visto. — disse pra si mesmo. — Eu devia ter percebido. Ele guardou tudo de volta com cuidado, como quem devolve uma ferida aberta ao lugar onde estava escondida. Não era o momento de acordá-la. Não ainda. Deitou ao lado dela, puxou Sofia contra o peito, envolvendo com os braços fortes, protetores, como se pudesse protegê-la até dela mesma. — A gente vai passar por isso junto agora. — sussurrou no ouvido dela, mesmo sabendo que ela não escutava. — Nunca mais sozinha. Nunca mais. Sofia se aninhou instintivamente, buscando calor, buscando segurança, sem saber que naquele instante Gabriel tinha entendido tudo. E que a partir dali, a cobrança não seria mais dela. Sofia acordou sentindo o braço dele firme ao redor do corpo, apertado demais para ser só carinho distraído. Gabriel estava acordado. Ela percebeu pelo jeito que ele respirava — pesado, contido. — Amor…? — a voz dela saiu rouca, sonolenta. Ele não respondeu de imediato. Afrouxou o abraço só o suficiente pra olhar o rosto dela. Os olhos dele estavam vermelhos, fundos, machucados. — Que foi? — ela perguntou, já sentindo o peito apertar. — Aconteceu alguma coisa no morro? Gabriel passou a mão pelo cabelo, nervoso. Depois levou a mão ao criado-mudo, puxou os papéis e colocou em cima da cama. Sofia viu. Congelou. O mundo dela desabou ali mesmo. — Você mexeu nas minhas coisas… — sussurrou, a voz trêmula, mais vergonha do que raiva. — Eu não tava procurando isso. — ele respondeu baixo. — Mas agora eu vi tudo. Ela se sentou na cama devagar, puxando o lençol até o peito como se estivesse nua por dentro. — Eu ia te contar… — mentiu fraco. — Só… não agora. — Quando, Sofia? — ele perguntou, sem gritar. E isso doeu mais. — Quando você quebrasse de vez? Ela desviou o olhar. As lágrimas começaram a cair antes que pudesse impedir. — Eu falhei… — disse, quase sem som. — Eu falhei com você. Gabriel se inclinou na frente dela na hora. — Não fala isso. — a voz saiu dura, controlada à força. — Nunca mais fala isso. — Eu perdi nosso filho. — ela chorou de verdade agora. — Meu corpo não consegue mais… eu tentei de tudo… contei dias, fiz teste escondida, marquei ciclo… me forcei a tá bem pra você não sofrer… Ela levou a mão ao peito, sufocada. — Toda vez que dava negativo parecia que eu perdia ele de novo. Aquilo quebrou Gabriel. Ele puxou Sofia com força contra o peito, segurando como se o mundo fosse tentar arrancá-la dele. — Escuta bem o que eu vou te dizer agora. — ele falou, a voz baixa, mas perigosa de tão firme. — Você não perdeu nosso filho. Ele foi tirado de nós. E isso não foi culpa sua. Ela balançava a cabeça, chorando contra ele. — Foi sim… eu corri… eu devia ter ficado… — Você sobreviveu. — ele interrompeu. — E eu prefiro te ter viva do que qualquer coisa nesse mundo. Sofia soluçava, exausta. — Eu tenho medo… — confessou. — Medo de nunca mais conseguir. Medo de você me olhar e ver uma mulher quebrada. Gabriel segurou o rosto dela com as duas mãos, obrigando-a a encarar ele. — Olha pra mim. Ela obedeceu. — Eu não te amo porque você pode me dar um filho. — ele disse, cada palavra entrando fundo. — Eu te amo porque você é você. Com filho, sem filho, com dor, com cicatriz, comigo ou contra o mundo. Ela chorava silenciosa agora. — Se vier outro bebê, ele vem no tempo dele. — continuou. — Se não vier… a gente continua sendo nós. E ponto final. Ela respirou fundo, como se estivesse ouvindo aquilo pela primeira vez. — Promete que não vai se afastar de mim por isso? — perguntou, frágil. Gabriel encostou a testa na dela. — Eu já me tornei um monstro por te perder uma vez. — sussurrou. — Não vou sobreviver se me perder de você de novo. Ele a puxou para deitar, envolvendo o corpo dela inteiro. — Dorme. — disse. — Hoje você não carrega nada sozinha. E pela primeira vez em meses, Sofia fechou os olhos sem contar dias, sem fazer contas, sem se punir. Só sentindo o coração dele bater forte, como se dissesse, em silêncio: “Ainda estamos aqui.”
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