Sofia não esperou mais.
O corredor parecia fechar em volta dela, o ar pesado demais pra respirar. Ela desviou do homem rápido, quase correndo, empurrando a porta lateral do baile e saindo pra rua iluminada só por postes fracos.
O som da música ficou pra trás.
O coração batia tão forte que doía.
— Calma… é só ir embora — murmurou, andando rápido, abraçando a bolsa contra o corpo.
Ela não quis ligar.
Não quis chamar atenção.
Só queria chegar em casa.
Mas ouviu passos atrás dela.
— Ei, espera aí — a voz dele veio arrastada.
Ela acelerou.
— Para — ele chamou de novo, mais perto agora.
Quando sentiu a mão segurar seu braço, o medo virou pânico.
— Me solta! — Sofia puxou o braço com força.
— Qual foi? — ele riu. — Vai fugir agora?
Ela tentou se soltar, o corpo tremendo.
— Eu falei não — disse, a voz quase falhando.
Antes que ele respondesse, alguém apareceu do outro lado da rua.
— Deixa ela.
Era um dos homens de Gabriel.
Ele não gritava.
Não ameaçava.
Mas o olhar dizia tudo.
O cara soltou o braço dela, irritado.
— Tá achando que manda aqui?
— Tô mandando agora — o homem respondeu, já com o celular na mão.
Sofia se afastou rápido, respirando m*l, as pernas fracas.
Ela ouviu quando ele se virou um pouco e falou baixo ao telefone:
— Chefe… deu r**m.
Do outro lado da cidade, Gabriel atendeu na primeira chamada.
— Fala.
— Um cara passou do limite com a Sofia. Tentou segurar ela. Ela tá tentando ir embora sozinha.
O silêncio do outro lado foi curto. Pesado.
— Onde ela tá?
— Saindo do baile. A pé.
Gabriel desligou sem dizer mais nada.
Em menos de um minuto, ele já estava na garagem.
Pegou a moto como quem pega uma arma.
O motor rugiu alto quando ele arrancou, descendo o morro como um míssil, o vento batendo forte no rosto, a raiva queimando por dentro.
— Eu falei pra ninguém tocar nela — rosnou, acelerando mais.
Na rua, Sofia andava rápido, olhando pra trás o tempo todo, sentindo o coração disparar a cada barulho.
Até ouvir o som que conhecia melhor do que qualquer música.
A moto.
Ela virou o rosto a tempo de ver o farol se aproximando rápido demais.
Gabriel freou forte, a moto parando ao lado dela.
— Sobe — ele ordenou, a voz dura.
— Gabriel… — ela começou.
— Agora.
Não era grito.
Era pior.
Ela subiu tremendo, se segurando nele com força quando a moto arrancou de novo.
Gabriel não olhou pra trás.
Mas por dentro, algo tinha quebrado.
Porque aquilo não era mais só ciúme.
Não era só controle.
Era guerra.
E alguém tinha acabado de escolher o lado errado.
A moto subiu o morro rápido demais.
Sofia se segurava nele com força, o rosto escondido nas costas largas, o corpo ainda tremendo. O vento secava as lágrimas, mas não acalmava o coração.
Quando chegaram em casa, Gabriel desligou a moto com violência.
— Desce — ele disse, curto.
Ela obedeceu em silêncio.
Assim que a porta se fechou atrás deles, ele explodiu.
— Que p***a você tinha na cabeça, Sofia?!
Ela se encolheu no lugar, os olhos marejados.
— Eu tentei resolver sozinha… — a voz saiu fraca, quebrada.
— Resolver sozinha?! — ele passou a mão pelos cabelos, andando de um lado pro outro. — Cadê as meninas, c*****o?! Cadê elas?!
Ela respirou fundo, chorando.
— Elas tavam com alguns meninos lá… depois eu não vi mais, eu juro. — limpou o rosto com as mãos. — Ele tentou me tocar. Eu fui pro banheiro. Quando eu saí, ele falou que eu tinha fugido… eu disse que não, que eu não queria… e fui embora.
O silêncio caiu pesado por um segundo.
Então ele virou pra ela com os olhos em chamas.
— Você tem noção, c*****o, do que poderia ter acontecido?!
Sofia começou a chorar de vez.
— Não grita… — pediu, a voz tremendo. — Por favor, não grita comigo.
Ele bateu a mão na parede.
— Eu grito sim! — a voz ecoou pela casa. — Porque você não pode fazer isso! Não pode sair sozinha, não pode confiar assim!
Ela levantou o rosto, as lágrimas escorrendo sem controle.
— Talvez o problema seja esse… — disse, quase sussurrando. — Talvez eu só precise deixar de ser tapada. De ser menininha.
Ele travou.
— Que p***a você tá falando?
— É por isso que essas coisas acontecem comigo — ela continuou, o choro vindo com raiva agora. — Se eu fosse mais esperta… mais malandra… sei lá, como essas mulheres do morro… eu ia saber resolver essas coisas. Mas eu não sou!
A voz dela falhou.
— Eu sou só uma garotinha indefesa… e eu odeio isso.
Gabriel parou de andar.
A fúria começou a rachar por dentro, dando lugar a algo pior.
Culpa.
Ele se aproximou devagar, mas não tocou nela.
— Você não é fraca — disse mais baixo. — E isso não aconteceu porque você é inocente.
Ela balançou a cabeça, chorando.
— Então por que sempre acontece comigo?
Ele não respondeu.
Porque no fundo… ele sabia.
Aquele mundo era sujo demais para alguém como ela.
E ele, que mandava em tudo ali… não conseguia protegê-la de tudo.
Principalmente de si mesmo.