oque ele nao sabia dizer

511 Words
o choro dela foi diminuindo aos poucos, virando soluços baixos. Sofia sentou no sofá, abraçando as próprias pernas, o corpo pequeno demais para o peso que carregava. Gabriel ficou parado a alguns passos, como se qualquer movimento em falso pudesse quebrar algo irreversível. Ele nunca soube lidar com lágrimas. Muito menos com as dela. — Olha pra mim — ele disse, a voz mais baixa agora. Ela demorou, mas levantou o rosto. Os olhos vermelhos, o nariz ardendo, o sorriso que sempre existia… tinha sumido. — Eu não sei ser diferente — ela falou. — Eu não sei ser dura. Eu não sei ser esperta como você quer. Ele respirou fundo. — Eu não quero que você seja dura — respondeu. — Eu quero que você esteja viva. Inteira. Ela riu sem humor. — Então por que tudo em mim parece errado pra esse lugar? A pergunta ficou no ar. Gabriel passou a mão no rosto, cansado, como se tivesse envelhecido mais dez anos naquela noite. — Esse lugar é que é errado pra você — murmurou. Sofia franziu a testa. — Então por que você me prende aqui? As palavras atingiram em cheio. Ele se aproximou devagar e sentou no braço do sofá, finalmente perto. Ainda assim, não tocou nela. — Porque eu sei o que tem lá fora — disse. — E sei o que fariam com alguém como você. — E você? — ela perguntou, num fio de voz. — O que você faz comigo, Gabriel? Ele ficou em silêncio. O coração dele batia forte demais. O olhar desceu por um segundo e voltou rápido para o rosto dela, como se tivesse medo do próprio pensamento. — Eu te protejo — respondeu. — Do mundo… ou de você? — ela insistiu. A pergunta doeu mais do que qualquer confronto. Ele fechou os olhos por um instante. — Vai tomar um banho — disse por fim. — Descansa. Hoje já deu. Sofia se levantou devagar, passando por ele. Parou na porta do corredor. — Você vai atrás dele, né? Gabriel não respondeu de imediato. — Vai? — ela repetiu. Ele virou o rosto. — Dorme, Sofia. Ela entendeu. Entrou no quarto e fechou a porta com cuidado, como se tivesse medo de provocar outra explosão. Sozinha, sentou na cama e deixou as lágrimas caírem de novo. Não era só medo. Não era só a festa. Era a sensação de que algo entre eles estava errado… e mesmo assim impossível de evitar. Do outro lado da casa, Gabriel pegou a jaqueta devagar. O celular vibrou na mão. — Acha o cara — ele disse ao telefone, a voz fria de novo. — Quero saber quem é. Onde mora. Com quem anda. Desligou. Encostou a cabeça na parede por um segundo. — Você não faz ideia do que me faz — murmurou, pensando nela. — Nem do quanto isso vai custar pra alguém. Naquela noite, enquanto Sofia tentava dormir abraçada ao próprio travesseiro… Gabriel decidiu que ninguém mais a faria chorar. Nem que, pra isso, ele precisasse se perder de vez.
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