o choro dela foi diminuindo aos poucos, virando soluços baixos.
Sofia sentou no sofá, abraçando as próprias pernas, o corpo pequeno demais para o peso que carregava. Gabriel ficou parado a alguns passos, como se qualquer movimento em falso pudesse quebrar algo irreversível.
Ele nunca soube lidar com lágrimas.
Muito menos com as dela.
— Olha pra mim — ele disse, a voz mais baixa agora.
Ela demorou, mas levantou o rosto. Os olhos vermelhos, o nariz ardendo, o sorriso que sempre existia… tinha sumido.
— Eu não sei ser diferente — ela falou. — Eu não sei ser dura. Eu não sei ser esperta como você quer.
Ele respirou fundo.
— Eu não quero que você seja dura — respondeu. — Eu quero que você esteja viva. Inteira.
Ela riu sem humor.
— Então por que tudo em mim parece errado pra esse lugar?
A pergunta ficou no ar.
Gabriel passou a mão no rosto, cansado, como se tivesse envelhecido mais dez anos naquela noite.
— Esse lugar é que é errado pra você — murmurou.
Sofia franziu a testa.
— Então por que você me prende aqui?
As palavras atingiram em cheio.
Ele se aproximou devagar e sentou no braço do sofá, finalmente perto. Ainda assim, não tocou nela.
— Porque eu sei o que tem lá fora — disse. — E sei o que fariam com alguém como você.
— E você? — ela perguntou, num fio de voz. — O que você faz comigo, Gabriel?
Ele ficou em silêncio.
O coração dele batia forte demais. O olhar desceu por um segundo e voltou rápido para o rosto dela, como se tivesse medo do próprio pensamento.
— Eu te protejo — respondeu.
— Do mundo… ou de você? — ela insistiu.
A pergunta doeu mais do que qualquer confronto.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Vai tomar um banho — disse por fim. — Descansa. Hoje já deu.
Sofia se levantou devagar, passando por ele. Parou na porta do corredor.
— Você vai atrás dele, né?
Gabriel não respondeu de imediato.
— Vai? — ela repetiu.
Ele virou o rosto.
— Dorme, Sofia.
Ela entendeu.
Entrou no quarto e fechou a porta com cuidado, como se tivesse medo de provocar outra explosão.
Sozinha, sentou na cama e deixou as lágrimas caírem de novo.
Não era só medo.
Não era só a festa.
Era a sensação de que algo entre eles estava errado… e mesmo assim impossível de evitar.
Do outro lado da casa, Gabriel pegou a jaqueta devagar.
O celular vibrou na mão.
— Acha o cara — ele disse ao telefone, a voz fria de novo. — Quero saber quem é. Onde mora. Com quem anda.
Desligou.
Encostou a cabeça na parede por um segundo.
— Você não faz ideia do que me faz — murmurou, pensando nela. — Nem do quanto isso vai custar pra alguém.
Naquela noite, enquanto Sofia tentava dormir abraçada ao próprio travesseiro…
Gabriel decidiu que ninguém mais a faria chorar.
Nem que, pra isso, ele precisasse se perder de vez.