O lugar era escuro demais até pra quem já estava acostumado.
O som da música vinha baixo de uma caixa velha, misturado com risadas nervosas. O cara não percebeu nada até a porta fechar atrás dele.
Quando virou, o sorriso morreu.
Gabriel estava ali.
Parado.
Imóvel.
Olhar vazio.
— Chefe… — o cara engoliu seco. — Eu não fiz nada demais, não…
Gabriel deu um passo à frente.
— Você tocou nela.
— Foi só brincadeira… — tentou rir. — A menina até dançou comigo.
O som do tapa ecoou seco.
Não foi forte.
Foi preciso.
O suficiente pra calar.
Gabriel segurou o queixo dele, obrigando-o a olhar.
— Ela disse não.
O cara começou a tremer.
— Eu… eu não sabia que era ela…
Gabriel inclinou a cabeça, quase curioso.
— Não sabia quem ela era… ou não se importou?
Silêncio.
— Você encostou nela depois do não — continuou, a voz baixa, sem emoção. — Seguiu. Esperou. Cercou.
Ele soltou o rosto do cara e se afastou um passo.
— Aqui a gente respeita mulher — disse. — Principalmente quando ela fala não.
— Eu juro que não vou mais… — a voz saiu falhando.
Gabriel fez um gesto simples com a mão.
Dois homens se aproximaram.
— Você vai embora do morro — Gabriel concluiu. — Hoje. Sem aviso. Sem chance de voltar.
O cara arregalou os olhos.
— Chefe, por favor…
Gabriel se inclinou, ficando na altura dele.
— Se eu ouvir seu nome de novo perto dela… — fez uma pausa. — Você vai preferir não ter nascido.
Não gritou.
Não ameaçou alto.
Não precisou.
Virou de costas e saiu, como se aquilo fosse apenas mais um assunto resolvido.
Lá fora, a noite estava silenciosa.
Ele respirou fundo, subiu na moto e arrancou.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, não sentiu alívio.
Sentiu medo.
Porque não foi só vingança.
Não foi só justiça.
Foi algo pessoal demais.
E enquanto acelerava de volta pra casa, uma verdade começou a se formar no fundo da mente dele — uma que ele ainda não estava pronto pra encarar.
Ele não estava protegendo Sofia como um irmão.
Estava defendendo como um homem que já tinha ido longe demais…
e não sabia mais voltar.