a febre e recaida

864 Words
A semana foi dificil Sofia quase não saía do quarto. O corpo fraco, a garganta queimando, febre que ia e voltava. Ela m*l comia, m*l falava. Só ficava deitada, abraçada no próprio corpo, tremendo às vezes. Naquela noite, a febre voltou mais forte. Ela se levantou cambaleando, sentindo o mundo girar, e foi até o quarto dele. Bateu fraco na porta. Gabriel tinha acabado de chegar. Ainda estava de pé, tirando a arma da cintura, quando a viu ali, pálida, os olhos brilhando demais. — Sofia? — o tom mudou na hora. — O que houve? Ela passou a mão na garganta, a voz quase não saía. — Eu não tô bem… — murmurou. — Tô queimando de febre… minha garganta dói muito. Ele a puxou pra dentro sem pensar duas vezes. — Senta. Pegou o remédio, colocou água no copo, ajudou ela a engolir. — Você devia ter me chamado antes. — Eu tentei aguentar… — respondeu fraca. Ele suspirou, vencido. — Vem. Deitou na cama e puxou o cobertor. Sofia deitou também, de lado, ainda tremendo. Por alguns segundos ficou quieta… até se mexer, instintivamente buscando calor. Passou uma perna por cima da dele. Abraçou o peito dele. A cabeça encaixou ali como se fosse o lugar certo. O corpo dela estava quente demais. Gabriel fechou os olhos com força. O cheiro dela. O peso do corpo confiando nele. A proximidade proibida. — Sofia… — a voz saiu baixa, tensa. — Assim não. Ela se mexeu um pouco, mas não se afastou. A voz veio fraca, quase infantil. — Assim tá bom… — murmurou. — Eu preciso de você, Gabriel. As palavras bateram nele como um soco. Ele ficou imóvel, respirando fundo, lutando contra cada reação do próprio corpo, contra cada pensamento errado. — Você tá doente… — disse, mais pra si mesmo. — Você tá com febre. Ela não respondeu. A respiração foi ficando pesada… depois lenta. Sofia dormiu ali, agarrada nele, vulnerável, quente, confiando como sempre confiou. Gabriel abriu os olhos, encarando o teto no escuro. Não se mexeu. Não a afastou. Não a tocou além do necessário. Ficou ali, sendo o que sempre prometeu ser. Mesmo com o coração em guerra. Mesmo com o corpo traindo a razão. Porque naquela noite, enquanto ela dormia febril no peito dele… Gabriel percebeu, com uma clareza c***l: Proteger Sofia estava se tornando a coisa mais difícil que ele já fez na vida. E talvez… a mais perigosa. Sofia acordou devagar. A febre tinha cedido um pouco. A cabeça ainda pesada, mas o corpo já não queimava tanto. Foi então que percebeu onde estava. Abraçada a ele. Gabriel dormia de lado, o rosto sério até no sono, a respiração profunda. O peito subia e descia devagar, quente, firme. Ela ficou olhando por alguns segundos. Depois, sem pensar muito, levou a mão até o peito dele. Um carinho leve. Inocente. Cheio de sentimento. Os dedos desenharam linhas suaves, como se quisessem memorizar aquele lugar. Gabriel acordou no mesmo instante. Segurou o pulso dela com cuidado, mas firme. — Sofia… — a voz saiu rouca. — Assim não. Ela não puxou a mão. Levantou o rosto devagar, os olhos encontrando os dele. — Gabriel… — disse baixo. — Não dá mais pra lutar contra isso. E você sabe. O silêncio ficou pesado entre eles. Gabriel fechou os olhos por um segundo, como se estivesse reunindo forças. — Não fala isso — disse. — Não faz isso comigo. — Você sente também — ela insistiu, sem acusar. — Eu vejo. Eu sinto. Ele soltou a mão dela e se sentou na cama, passando as mãos pelo rosto. — Não, Sofia. — a voz saiu dura, quase desesperada. — Não sai daqui. Ela franziu a testa, confusa. — Então por que você— — Gabriel… — ela começou. Ele se levantou num movimento brusco, respirando fundo, o peito subindo e descendo rápido demais. — Sai agora, Sofia. Ela ficou de pé também, os olhos marejados. — Por quê? — a voz falhou. — Porque você tem medo… ou porque quer? A pergunta ficou no ar como uma lâmina. Gabriel virou de costas. — Porque se você ficar… — disse, com a voz quebrando apesar da tentativa de firmeza — eu posso não conseguir parar. O coração dela apertou. — Eu não tenho medo de você — sussurrou. Ele se virou, o olhar escuro, intenso, carregado de conflito. — Mas eu tenho de mim. Silêncio. Sofia respirou fundo, as lágrimas finalmente caindo. — Então tá… — disse baixo. — Eu saio. Passou por ele devagar, sem tocar. Na porta, parou. — Só não finge que isso não existe — falou, sem olhar pra trás. — Porque existe. E tá machucando nós dois. Ela saiu. Gabriel ficou sozinho no quarto, o vazio pesado demais. A cama ainda quente. O cheiro dela ainda ali. Ele socou a parede de leve, frustrado. — Eu tô tentando te salvar… — murmurou, para ninguém. — Mesmo que isso me destrua. E naquele momento, ele soube: A linha já tinha sido cruzada. Mesmo sem um toque a mais. Mesmo sem palavras claras. Porque agora, os dois sabiam. E saber… era o ponto sem retorno.
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