Passaram-se dias.
Gabriel se afastou.
Não brigou.
Não explicou.
Não pediu nada.
Simplesmente virou ausência dentro da própria casa.
Sofia sentiu.
Mas não disse nada.
Engoliu o silêncio como sempre fez.
Até aquela noite.
Ela acordou com barulhos vindos do quarto dele. Vozes baixas. Risos abafados. O coração apertou antes mesmo de entender.
Levantou devagar.
O corredor parecia mais longo do que nunca.
A porta estava entreaberta.
E então ela viu.
Gabriel.
Na cama.
Com uma mulher.
O mundo parou.
As lágrimas caíram sem som. Uma atrás da outra. Sofia não gritou, não entrou, não fez cena , mais ele viu ela.
Apenas virou o rosto…
E saiu em silêncio.
Como quem não queria que o coração fosse ouvido quebrando.
No quarto, a mulher franziu a testa.
— O que houve? — perguntou. — Por que sua irmã saiu chorando?
Gabriel ficou imóvel por um segundo.
— Esquece isso — respondeu frio. — Vamos continuar.
Mas era inútil.
Ele não conseguiu sequer tocá-la de novo.
Levantou da cama de repente.
— Não dá. — disse seco. — Se veste. Vai embora.
— Mas—
— Vai. — a voz saiu dura. — Eu te ligo. E lembra: bico fechado. Assim não entra formiga.
A mulher entendeu na hora.
— Pode deixar, chefe.
Ela saiu.
Gabriel se vestiu rápido, o peito apertado, a cabeça em caos.
Foi até o quarto de Sofia.
Ela estava deitada de lado, abraçada ao travesseiro, chorando baixo — como quem não queria ser ouvida.
— Sofia… eu—
Ela se sentou na cama num movimento brusco.
— Não. — disse firme, com a voz quebrada. — Não fala nada.
Ele parou.
— Você fez isso por vingança. — ela continuou, encarando-o com os olhos vermelhos. — Porque não quer aceitar que me ama. Que é apaixonado por mim.
Gabriel respirou fundo.
— Sofia—
— O único homem que eu pensei que nunca fosse me machucar… — a voz falhou — fez isso comigo.
Ele fechou os olhos, derrotado.
— Você é minha irmã. — disse com dor. — Eu não posso ficar com você.
Ela riu sem humor.
— Engraçado… — murmurou. — Porque você guarda isso há anos, né?
Ele abriu os olhos.
— Desde que você tinha dezessete — ele confessou, a voz pesada. — Agora você tá com dezenove… quase vinte. E mesmo assim eu não posso. Não posso, Sofia.
— Pode sim. — ela rebateu. — Ninguém precisa saber.
— Não, Sofia. — ele balançou a cabeça. — Não.
Ela respirou fundo, tentando se manter de pé emocionalmente.
— Tá bom, Gabriel. — disse por fim, com uma calma que assustava. — Desculpa por tudo.
Ele sentiu o chão sumir.
— O quê?
— Eu vou embora amanhã cedo.
— Não. — ele respondeu na hora. — Você não vai.
— Vou sim. — ela levantou da cama. — Você me machucou da pior forma possível.
Ele deu um passo à frente.
— Sofia—
— E ainda assim não me quer. — ela continuou, a voz firme apesar das lágrimas. — Você acha mesmo que eu vou ficar aqui vendo você t*****r com outras mulheres sob o mesmo teto que eu?
Silêncio.
— Só porque você me ama e não pode me tocar? — ela concluiu. — Eu não sou forte assim.
— Sofia… — a voz dele quebrou.
— Não, Gabriel. — ela disse, se afastando. — Não.
Ela passou por ele.
E naquele momento, Gabriel entendeu algo que nunca tinha enfrentado de verdade:
Ele não estava protegendo Sofia.
Estava destruindo.
E o pior…
Sem saber ainda que a única coisa que os separava —
o sangue —
nunca existiu.