O que quebra por dentro

611 Words
Passaram-se dias. Gabriel se afastou. Não brigou. Não explicou. Não pediu nada. Simplesmente virou ausência dentro da própria casa. Sofia sentiu. Mas não disse nada. Engoliu o silêncio como sempre fez. Até aquela noite. Ela acordou com barulhos vindos do quarto dele. Vozes baixas. Risos abafados. O coração apertou antes mesmo de entender. Levantou devagar. O corredor parecia mais longo do que nunca. A porta estava entreaberta. E então ela viu. Gabriel. Na cama. Com uma mulher. O mundo parou. As lágrimas caíram sem som. Uma atrás da outra. Sofia não gritou, não entrou, não fez cena , mais ele viu ela. Apenas virou o rosto… E saiu em silêncio. Como quem não queria que o coração fosse ouvido quebrando. No quarto, a mulher franziu a testa. — O que houve? — perguntou. — Por que sua irmã saiu chorando? Gabriel ficou imóvel por um segundo. — Esquece isso — respondeu frio. — Vamos continuar. Mas era inútil. Ele não conseguiu sequer tocá-la de novo. Levantou da cama de repente. — Não dá. — disse seco. — Se veste. Vai embora. — Mas— — Vai. — a voz saiu dura. — Eu te ligo. E lembra: bico fechado. Assim não entra formiga. A mulher entendeu na hora. — Pode deixar, chefe. Ela saiu. Gabriel se vestiu rápido, o peito apertado, a cabeça em caos. Foi até o quarto de Sofia. Ela estava deitada de lado, abraçada ao travesseiro, chorando baixo — como quem não queria ser ouvida. — Sofia… eu— Ela se sentou na cama num movimento brusco. — Não. — disse firme, com a voz quebrada. — Não fala nada. Ele parou. — Você fez isso por vingança. — ela continuou, encarando-o com os olhos vermelhos. — Porque não quer aceitar que me ama. Que é apaixonado por mim. Gabriel respirou fundo. — Sofia— — O único homem que eu pensei que nunca fosse me machucar… — a voz falhou — fez isso comigo. Ele fechou os olhos, derrotado. — Você é minha irmã. — disse com dor. — Eu não posso ficar com você. Ela riu sem humor. — Engraçado… — murmurou. — Porque você guarda isso há anos, né? Ele abriu os olhos. — Desde que você tinha dezessete — ele confessou, a voz pesada. — Agora você tá com dezenove… quase vinte. E mesmo assim eu não posso. Não posso, Sofia. — Pode sim. — ela rebateu. — Ninguém precisa saber. — Não, Sofia. — ele balançou a cabeça. — Não. Ela respirou fundo, tentando se manter de pé emocionalmente. — Tá bom, Gabriel. — disse por fim, com uma calma que assustava. — Desculpa por tudo. Ele sentiu o chão sumir. — O quê? — Eu vou embora amanhã cedo. — Não. — ele respondeu na hora. — Você não vai. — Vou sim. — ela levantou da cama. — Você me machucou da pior forma possível. Ele deu um passo à frente. — Sofia— — E ainda assim não me quer. — ela continuou, a voz firme apesar das lágrimas. — Você acha mesmo que eu vou ficar aqui vendo você t*****r com outras mulheres sob o mesmo teto que eu? Silêncio. — Só porque você me ama e não pode me tocar? — ela concluiu. — Eu não sou forte assim. — Sofia… — a voz dele quebrou. — Não, Gabriel. — ela disse, se afastando. — Não. Ela passou por ele. E naquele momento, Gabriel entendeu algo que nunca tinha enfrentado de verdade: Ele não estava protegendo Sofia. Estava destruindo. E o pior… Sem saber ainda que a única coisa que os separava — o sangue — nunca existiu.
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