Seis dias.
Seis dias de silêncio.
Sofia quase não saía do quarto. Quando saía, era rápido. Não comia direito. Respondia com a cabeça. O sorriso tinha desaparecido como se nunca tivesse existido.
A casa ficou pesada.
Gabriel percebeu tudo. Cada prato quase intacto. Cada porta fechada. Cada passo lento demais pelo corredor.
Até que não aguentou mais.
Entrou no quarto sem bater.
Ela estava sentada na cama, abraçada aos joelhos, olhando para o nada.
— Não é assim que a gente vai resolver as coisas — ele disse, tentando manter a voz firme. — Esse silêncio não resolve nada.
Ela demorou alguns segundos para responder.
Quando falou, saiu tudo de uma vez.
— Resolver como, Gabriel? — a voz estava baixa, cansada. — Você me proibindo de tudo?
Ele franziu a testa.
— Eu tô tentando te proteger.
Ela riu fraco. Amargo.
— Você já parou pra pensar em como eu me sinto?
Ele abriu a boca, mas ela continuou.
— A mamãe já morreu — a voz falhou. — Faz dois anos. Eu perdi ela… e nunca mais tive colo.
O nome da mãe caiu pesado entre eles.
— Eu não tenho amiga de verdade aqui no morro — ela disse, os olhos marejando. — Depois daquele dia… quando elas souberam que o cara tentou me agarrar e que você foi me buscar… elas se afastaram.
Ele ficou imóvel.
— Elas têm medo de mim? — perguntou baixo.
— Têm medo de você chamar a atenção delas — Sofia respondeu. — Medo de você fazer alguma coisa… porque elas me deixaram sozinha.
Ela respirou fundo, o choro vindo.
— O papai foi embora do morro. Não quis mais ficar aqui. — a voz tremeu. — Eu fiquei.
Ele sentiu o golpe.
— Eu só tenho você, Gabriel — ela disse, olhando direto pra ele agora. — Só você.
O silêncio foi pesado.
— E às vezes eu escondo as coisas — continuou. — Não é por m*l. Não é porque eu não confio em você.
Ela se levantou da cama devagar.
— É porque eu sei que você vai gritar. Que vai brigar. Que vai se estressar.
Ela tocou o próprio peito.
— Eu fico assim… sozinha. Sem ninguém de fato me entender de verdade.
Gabriel sentiu algo apertar por dentro.
— Você me proíbe de conversar com meninos — ela disse. — Você proíbe até conversa. Você proíbe tudo.
A voz dela ficou mais firme, mesmo chorando.
— Como que eu vou ser feliz assim, Gabriel? — perguntou. — Me diz.
Ele não respondeu.
Não porque não quisesse.
Mas porque, pela primeira vez, percebeu algo que sempre evitou admitir:
Ela não estava pedindo liberdade para desrespeitá-lo.
Ela estava pedindo espaço para existir.
Gabriel passou a mão pelo rosto, respirando fundo, como se estivesse lutando contra si mesmo.
— Eu não sei ser diferente — ele disse, finalmente. — Eu só sei cuidar do jeito que aprendi.
— Mas isso tá me machucando — ela respondeu, quase num sussurro.
As palavras ficaram no ar.
Pesadas demais.
Ele deu um passo para trás, como se tivesse levado um soco invisível.
— Eu não quero ser sua prisão — ele murmurou.
— Mas tá sendo — ela disse, sincera. — E eu tô cansada de me sentir errada por querer viver.
Sofia voltou a sentar na cama, exausta.
— Eu não quero brigar com você — completou. — Eu só não quero me sentir sozinha tendo alguém do meu lado o tempo todo.
Gabriel saiu do quarto sem dizer mais nada.
Não foi por raiva.
Foi porque, pela primeira vez…
ele não sabia mais quem estava protegendo quem.
E naquela noite, enquanto Sofia chorava baixinho no travesseiro…
Gabriel entendeu algo que doía mais do que qualquer ameaça externa:
Ele podia perder Sofia mesmo mantendo-a perto.
E isso…
era culpa dele.