Sofia não contou.
No começo, disse a si mesma que era só por um tempo.
Depois virou costume.
E, quando percebeu, já eram meses.
O namoro existia nos intervalos.
Mensagens apagadas.
Chamadas atendidas longe de casa.
Encontros rápidos, sempre fora do morro.
Ele respeitava tudo.
— A gente não precisa se esconder pra sempre — ele dizia. — Só até você se sentir pronta.
E aquilo fazia o peito dela apertar.
Porque com ele não havia medo.
Não havia grito.
Não havia ordem.
Havia cuidado.
Sofia começou a sorrir diferente. A rir mais baixo. A ficar pensativa. Às vezes, cantarolava distraída enquanto mexia no celular.
Gabriel percebia.
Sempre percebia.
— Tá feliz demais ultimamente — comentou um dia, do nada.
Ela gelou por dentro, mas fingiu normalidade.
— Não posso?
Ele a encarou por alguns segundos longos demais.
— Pode — respondeu. — Só não gosto de surpresa.
Ela desviou o olhar.
O segredo pesava.
Às vezes, deitada na cama, Sofia se perguntava por que sentia culpa por ser feliz. Por que parecia que estava traindo algo que nunca prometeu.
Em um dos encontros, sentada num banco de praça, ela deixou escapar:
— Lá em casa… tudo vira controle.
Ele segurou a mão dela.
— Você não pertence a ninguém — disse com firmeza. — E não precisa pedir permissão pra viver.
Ela quase chorou.
Os meses passaram assim.
Ela voltava pra casa antes do horário combinado. Evitava postar fotos. Inventava desculpas. Criava versões de si mesma para caber naquele lugar.
E Gabriel… ficava mais silencioso.
Mais fechado.
Mais atento.
Às vezes, ele chegava perto demais, observando o rosto dela como se procurasse algo que não conseguia enxergar.
— Se tiver alguma coisa que eu precise saber… — disse certa noite.
Sofia sentiu o coração disparar.
— Não tem — respondeu rápido demais.
Ele assentiu devagar.
Mas algo nele não acreditou.
Porque ele conhecia Sofia desde criança.
Conhecia cada mudança de humor.
Cada silêncio fora do lugar.
E aquele silêncio novo…
não era medo.
Era escolha.
E escolhas sempre cobram um preço.
2 meses deoois ela tomou coragem ...
Sofia ficou parada na frente dele por alguns segundos antes de criar coragem.
As mãos entrelaçadas.
O coração disparado.
— Gabriel… posso falar com você?
Ele levantou os olhos devagar.
— Claro, fala, pequena.
Era assim que ele chamava ela desde sempre.
E, naquele momento, o apelido doeu.
— Eu… — ela respirou fundo. — Eu tô namorando.
O mundo parou.
— Você o quê? — a voz dele saiu baixa demais.
— Tô namorando. — repetiu, firme. — Faz dois meses. É o menino da internet. Ele trabalha fora do morro… é bem legal.
Gabriel não piscou.
O maxilar travou.
O ar pareceu ficar mais pesado.
— Dois meses… — repetiu, como se estivesse provando o gosto das palavras. — E você achou que não precisava me falar?
— Eu precisava de tempo — ela respondeu rápido. — Eu não tava pronta.
Ele deu um passo à frente.
— Vocês já transaram?
— Gabriel! — o nome saiu quase como um grito.
Ele não se mexeu.
— Ué — disse frio. — É uma pergunta, Sofia.
Ela sentiu o rosto queimar.
— Não. — respondeu, firme, apesar do tremor. — Ele me respeita. Sempre respeitou.
O silêncio que veio depois foi pior que um grito.
Gabriel passou a mão pelo rosto devagar, como quem tenta se controlar.
— E você acha isso normal? — perguntou. — Se esconder por dois meses?
— Eu não me escondi — ela respondeu, a voz embargando. — Eu me protegi.
Ele levantou o olhar na hora.
— De mim?
Ela não respondeu.
— Você é nova demais pra achar que sabe o que tá fazendo — ele disse, a voz endurecendo. — Esse cara pode ser qualquer coisa.
— Não — ela rebateu. — Ele não é. E eu queria que você soubesse… porque eu respeito você.
A palavra respeito soou errada.
Gabriel riu sem humor.
— Respeito não é esconder, Sofia.
— E controle não é amor — ela respondeu, quase sem perceber.
Aquilo foi o limite.
Ele se aproximou mais um passo, ficando perto demais.
— Escuta bem — disse, a voz baixa, perigosa. — Esse cara não pisa aqui. Não chega perto de você nesse morro. Nunca.
— Você não pode decidir isso — ela falou, tremendo, mas firme. — Eu não sou mais criança.
— Pra mim é — ele respondeu na hora.
Os olhos dela encheram de lágrimas.
— Eu só queria que você soubesse… não que mandasse.
Ela virou as costas antes que ele pudesse responder e saiu, deixando o silêncio pesado atrás de si.
Gabriel ficou sozinho.
As mãos fechadas.
O peito queimando.
Dois meses.
Ela tinha dividido sorrisos, conversas, talvez sonhos… com outro homem.
E aquilo não era só ciúme.
Era perda.
E pela primeira vez, ele teve que encarar algo que sempre evitou:
Ele não estava com medo do mundo machucar Sofia.
Ele estava com medo de perdê-la.