Sofia começou a namorar tranquila.
Mateus era exatamente o que ele dizia ser. Calmo. Educado. Presente. Não fazia perguntas demais, não pressionava, não invadia.
Ele buscava Sofia fora do morro, sempre no mesmo ponto combinado. Nunca atrasava. Nunca aumentava a voz. Nunca exigia nada.
E isso, pra ela, já era tudo.
— Vamos ao cinema? — ele perguntou numa sexta-feira.
Sofia sorriu como quem descobre um mundo novo.
Ela adorava cinema, mas quase nunca tinha ido. Sentar numa sala escura, dividir pipoca, rir de coisas bobas… parecia coisa de outra vida.
No shopping, ela andava de mãos dadas com ele, olhando tudo como se estivesse vendo pela primeira vez. As luzes, as lojas, o movimento.
— Você fica linda quando sorri assim — Mateus disse, baixinho.
Ela sorriu ainda mais.
Dentro da sala, sentou encostada no braço dele, dividindo a pipoca, rindo das cenas engraçadas, se emocionando sem vergonha quando o filme apertava o coração.
Ela estava feliz.
Feliz de um jeito leve.
Sem medo.
Sem tensão.
Depois do filme, caminharam um pouco.
— Eu gosto de você, Sofia — ele disse simples, olhando nos olhos dela. — Gosto do jeito que você vê o mundo.
Ela sentiu o peito aquecer.
— Eu gosto de como você me trata — respondeu. — Me faz sentir… normal.
Mateus segurou a mão dela com cuidado.
— Você é mais do que normal.
Quando voltou pra casa naquela noite, Sofia entrou com o sorriso ainda preso no rosto.
Gabriel estava na sala.
— Chegou cedo — ele comentou, observando.
— Fui ao cinema — ela respondeu, sem esconder a felicidade.
Ele assentiu.
— Foi bom?
— Foi — ela disse. — Muito.
E foi.
Mas enquanto Sofia dormia com a lembrança do filme, da risada, do toque leve…
Gabriel ficou acordado.
Sentado no escuro.
Pensando no quanto aquele sorriso não era mais dele.
Pensando no quanto ela parecia caber num mundo que nunca foi o dele.
E, pela primeira vez, ele sentiu algo que não conhecia bem.
Não era raiva.
Não era ciúme explosivo.
Era medo.
Medo de que, aos poucos…
Sofia descobrisse que podia ser feliz sem ele.
O namoro seguia calmo.
Cinema. Lanches simples. Conversas longas dentro do carro parado. Risadas baixas. Silêncios confortáveis.
Até que, aos poucos, Mateus começou a querer mais.
Não de um jeito agressivo.
Não de um jeito errado.
Só… natural.
Numa noite, sentados num banco afastado da praça, ele passou o braço pelos ombros dela com mais firmeza. Sofia não se afastou, mas o corpo ficou tenso na hora.
Ele percebeu.
— Tá tudo bem? — perguntou, na mesma hora.
Ela respirou fundo.
— Tá… é só… — parou, sem saber explicar.
Mateus virou de frente pra ela, com cuidado.
— A gente não precisa correr — disse. — Eu só queria saber se você tá confortável.
Sofia assentiu, mas o coração batia rápido demais.
Em outro dia, dentro do carro, ele segurou o rosto dela com carinho, aproximando o rosto devagar. Sofia deixou o beijo acontecer, curto, leve… mas quando sentiu que ele queria prolongar, o corpo reagiu antes da mente.
Ela se afastou.
— Desculpa — disse rápido. — Eu… eu fiquei nervosa.
Mateus soltou na hora.
— Ei — falou calmo. — Não pede desculpa. Você não fez nada errado.
Ela olhou pra ele, os olhos cheios de confusão.
— Eu gosto de você — confessou. — Mas eu fico com medo… e eu nem sei direito do quê.
Ele ficou em silêncio por um instante, respeitando.
— Alguém já te machucou? — perguntou com cuidado.
Sofia balançou a cabeça.
— Não. Nunca. — engoliu seco. — Mas… eu sempre tive alguém decidindo tudo por mim. Sempre dizendo o que eu podia ou não podia fazer.
Mateus entendeu mais do que ela imaginava.
— Então a gente vai no seu tempo — disse firme. — Um passo de cada vez. Sem pressão.
Ela sentiu os olhos marejarem.
— Você não vai desistir de mim?
Ele sorriu de leve.
— Não enquanto você quiser tentar.
Sofia sorriu de volta… mas por dentro, o medo não tinha ido embora.
Não era medo de Mateus.
Era medo de não saber quem ela era quando ninguém estava mandando.
Medo de errar.
Medo de decepcionar.
E, sem querer, medo de Gabriel — da reação dele, da sombra dele sempre presente, mesmo quando ela tentava viver outra coisa.
Quando voltou pra casa naquela noite, ficou deitada olhando o teto.
— Por que é tão difícil? — sussurrou.
Ela queria viver.
Queria sentir.
Queria escolher.
Mas o passado ainda segurava seus passos.
E, em algum lugar daquela casa, Gabriel percebeu de novo que algo nela estava diferente.
Mais quieta.
Mais pensativa.
Ele não sabia o motivo.
Mas sentia.
E aquela sensação antiga voltou a rondar o peito dele, silenciosa e perigosa.
Porque quando Sofia tinha medo…
ele sempre era a primeira pessoa a quem ela corria.
E ele sabia que, se isso acontecesse outra vez…
talvez não conseguisse manter distância.