o medo dela e o término

977 Words
O tempo passou. Seis meses. Sofia já se sentia mais segura ao lado de Mateus… mas algo dentro dela ainda travava quando o assunto começava a mudar de tom. No começo eram carinhos simples. Beijos mais demorados. A mão dele descansando mais tempo na perna dela. Até que começaram as mãos bobas. Nada agressivo. Nada forçado. Mas o suficiente pra deixar o corpo dela em alerta. Numa noite, sentados no sofá da casa dele, Mateus beijava o pescoço dela com calma. A mão deslizou pela cintura, subiu um pouco mais… e Sofia ficou rígida. — Amor… — ele murmurou, se afastando um pouco. — A gente já tá junto há seis meses. Ela engoliu seco. — Eu sei… Ele segurou o rosto dela, olhando nos olhos. — Eu te respeito, você sabe disso. Mas eu sinto que a gente podia dar um passo importante. — falou com cuidado. — O que você acha? O coração dela começou a disparar. As mãos suaram. A garganta fechou. — Eu… — tentou responder, mas a voz falhou. Mateus percebeu o nervosismo. — Sofia? — chamou baixo. — Você tá tremendo. Ela afastou o olhar, abraçando o próprio corpo. — Não é que eu não queira — disse rápido, quase se defendendo. — É que… eu fico nervosa. Minha cabeça trava. — Por quê? — perguntou, sem acusar. Ela respirou fundo. — Porque eu nunca tive controle de nada na minha vida. — a voz saiu baixa. — Sempre alguém decidindo por mim. Sempre alguém dizendo o que eu posso ou não posso fazer. Mateus ficou em silêncio, respeitando. — Eu não quero ser mais alguém te pressionando — disse por fim. — Mas eu também preciso saber se você me deseja… se isso é algo que você quer, mesmo que não seja agora. Ela fechou os olhos por um instante. — Eu gosto de você. — falou sincera. — Eu confio em você. Mas eu tenho medo de errar… medo de me sentir presa de novo. Ele segurou a mão dela. — Então não vamos decidir nada hoje. — falou firme. — Quando você tiver certeza, você me diz. Sem pressa. Sofia assentiu, aliviada… mas o peso continuava ali. Naquela noite, deitada na cama, ela ficou olhando o celular apagado. Pensando em Mateus. Pensando no futuro. E, sem querer, pensando em Gabriel. Na forma como ele sempre dizia que o mundo era perigoso. Na forma como ela aprendeu a ter medo antes mesmo de tentar. — Será que o problema sou eu? — sussurrou. Ela queria crescer. Queria viver como uma mulher. Mas ainda se sentia uma menina tentando aprender sozinha. E, no fundo, sabia que aquela decisão — quando chegasse — ia mexer com tudo. Inclusive com Gabriel. Os meses passaram. E nada mudou. Mateus tentou ser paciente. Tentou entender. Tentou respeitar o tempo dela. Mas, aos poucos, o silêncio começou a pesar. Os encontros ficaram mais curtos. As mensagens, mais espaçadas. Os sorrisos, forçados. Até que numa noite, ele pediu para conversar. Sentaram num banco, longe do barulho, longe do morro. Mateus respirou fundo várias vezes antes de falar. — Sofia… eu gosto muito de você. — a voz saiu cansada. — Mas eu tô me sentindo rejeitado o tempo todo. Ela gelou. — Não é isso… — começou, desesperada. — Eu sei que você não faz por m*l — ele cortou, passando a mão no rosto. — Mas já faz meses. Eu tento, espero, recuo… e parece que eu tô sempre batendo numa parede. Ela sentiu o peito apertar. — Eu só preciso de mais tempo… — disse, com os olhos cheios. Mateus abaixou a cabeça. — E eu preciso de alguém que consiga caminhar comigo agora. — levantou o olhar, sofrido. — Eu não quero te pressionar. Mas também não consigo continuar assim. O silêncio entre eles doeu mais que qualquer grito. — Então… você quer terminar? — ela perguntou, quase sem voz. Ele assentiu devagar. — Antes que a gente machuque mais um ao outro. Sofia sentiu o chão sumir. — Eu tentei… — sussurrou, chorando. — Eu juro que tentei. Mateus se aproximou, abraçou ela forte. — Eu sei. — a voz dele também falhou. — Você é incrível, Sofia. Só… não é o momento. Eles se soltaram. E quando ele virou as costas, ela ficou ali, parada, chorando sozinha. --- Sofia chegou em casa quebrada. Entrou em silêncio, subiu direto pro quarto… mas no meio do caminho, as pernas falharam. Ela se sentou no chão da sala e chorou. Chorou alto. Chorou feio. Chorou como quem perdeu mais do que um namorado. Gabriel apareceu na porta, assustado. — Sofia? — o tom mudou na hora. — O que aconteceu? Ela levantou o rosto molhado de lágrimas. — Ele terminou comigo… — disse entre soluços. Gabriel travou. — Quem? — O Mateus… — a voz dela saiu pequena. — Ele disse que não aguentava mais esperar… que tava se sentindo rejeitado. Gabriel se aproximou devagar, se agachou na frente dela. — Ei… — falou mais baixo. — Olha pra mim. Ela tentou, mas voltou a chorar. — Eu sou quebrada, Gabriel. — desabafou. — Eu tento ser normal, tento crescer… mas parece que eu sempre atraso tudo. Ele engoliu seco. — Você não é quebrada. — Sou sim! — ela levantou a voz, desesperada. — Eu estraguei tudo! Ele era bom comigo! Gabriel puxou ela pro peito, firme, protetor. — Chora. — murmurou. — Aqui você pode chorar. Ela se agarrou nele como quando era criança. — Eu queria tanto dar certo… — soluçou. — Eu queria ser suficiente. Gabriel fechou os olhos. Porque naquele abraço, ele percebeu algo que o assustou mais do que qualquer inimigo. Sofia estava machucada. Vulnerável. E sem ninguém além dele. E, no fundo, uma parte dele odiava isso. Mas outra… Se sentia necessária demais. E isso era perigoso.
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