Depois do término, tudo mudou.
Gabriel ficou mais presente.
Mais atento.
Mais rígido.
Ele passou a perguntar onde Sofia ia, com quem, quanto tempo ficaria fora. Mandava alguém acompanhar mesmo quando ela dizia que não precisava.
— É só por precaução — ele dizia, sério.
E, pela primeira vez…
Ela não reclamava.
Sofia estava cansada.
Cansada de errar.
Cansada de tentar ser adulta e se machucar.
Então, quando Gabriel dizia “não vai”, ela não ia.
Quando ele dizia “volta cedo”, ela obedecia.
Quando ele dizia “fica em casa hoje”, ela ficava.
Porque ali…
Ela se sentia segura.
— Você não precisa sair pra provar nada pra ninguém — ele disse numa noite, vendo ela sentada na cama, mexendo no celular sem vontade. — Aqui ninguém te machuca.
Ela levantou o olhar.
— Eu sei.
Ele se sentou ao lado dela.
— Enquanto eu estiver vivo, ninguém encosta em você.
Sofia encostou a cabeça no ombro dele.
— Eu sei… — repetiu, baixinho.
E era verdade.
No morro, ninguém ousava olhar pra ela diferente.
Se alguém comentava algo, no dia seguinte sumia.
Se alguém tentava se aproximar, era afastado antes mesmo de falar com ela.
Ela virou intocável.
As meninas quase não falavam mais com ela.
Os meninos nem tentavam.
E Sofia…
Se fechou.
Parou de dançar nos bailes.
Parou de sorrir tanto.
Parou de sonhar alto.
Mas dormia tranquila.
À noite, quando acordava assustada, era Gabriel quem aparecia na porta.
— Tá tudo bem — ele dizia. — Foi só um pesadelo.
E ela acreditava.
— Eu tô aqui — ele sempre completava.
E estava.
Só que, aos poucos, aquela proteção virou o único lugar onde ela se sentia inteira.
Ela já não imaginava a vida sem ele decidindo.
Sem ele mandando.
Sem ele cuidando.
Porque lá fora…
Ela aprendeu que o mundo machuca.
E ali…
Mesmo com medo, com regras, com silêncio…
Ela era dele.
E ele…
Nunca deixou de agir como se ela já fosse.