A caminhonete subiu o morro devagar.
Não era pressa — era respeito.
Quando chegaram, a notícia já tinha corrido. Não por fofoca, mas porque o clima era outro. Os homens estavam alinhados, sérios, atentos. Gabriel desceu primeiro, depois estendeu a mão pra Sofia. Ela desceu com cuidado, uma mão instintivamente protegendo a barriga, a outra firme na dele.
Ele não soltou.
Nunca mais soltaria.
No centro do pátio, os dez seguranças que tinham rodado estrada, cidade, interior, noite e perigo estavam ali. Cansados. Machucados. Mas de cabeça erguida.
Gabriel deu dois passos à frente.
— Foi vocês que trouxeram a minha mulher de volta. — a voz dele saiu grave, sem grito, mas ninguém ousou respirar. — E trouxeram meu filho junto.
Um deles abaixou a cabeça, em respeito.
Gabriel fez um sinal.
Uma mala foi colocada no chão. Depois outra. E mais outra.
— Cada um de vocês vai receber o que prometi. — ele continuou. — Dinheiro limpo, casa garantida, proteção pra família de vocês. Quem quiser sair do morro, sai com a minha bênção. Quem quiser ficar, sobe de posto.
Ele olhou um por um.
— Mas do que isso… vocês têm minha lealdade. E a minha palavra não volta atrás.
Sofia sentiu o nó na garganta apertar. Aqueles homens tinham sido ponte. Não prisão. Ponte.
Ela deu um passo à frente, surpreendendo todos.
— Obrigada… — disse, com a voz firme apesar da emoção. — Vocês salvaram mais do que a mim. Salvaram uma história inteira.
Os homens assentiram. Alguns desviaram o olhar. Outros sorriram de canto.
Gabriel voltou pra perto dela, a mão automaticamente na lombar, protetor.
— Aqui ninguém mais toca em você sem permissão. — ele disse baixo, só pra ela ouvir. — Aqui ninguém mais decide por você. Esse morro vai saber quem você é… não quem pensaram que você era.
Ela olhou ao redor.
O lugar que antes era medo agora parecia território reconquistado.
— Eu fiquei com tanto pavor de voltar… — ela confessou.
— E eu fiquei pior sem você. — ele respondeu. — Me tornei aquilo que eu sempre lutei pra não ser. Mas agora… agora eu tenho motivo pra ser melhor. E mais c***l só com quem merecer.
Ele se virou pros homens de novo.
— Hoje ninguém trabalha. — anunciou. — Hoje é dia de respeito.
Sofia entrelaçou os dedos nos dele.
E, pela primeira vez desde que tudo começou, o morro inteiro sentiu:
Ela não tinha voltado como menina.
Ela tinha voltado como mulher.
E como a única coisa capaz de domar o homem mais temido dali.
Ele saiu do banho ainda com o cabelo úmido, a toalha jogada no ombro. O quarto estava em silêncio, só o som da respiração dela. Sofia estava deitada de lado, os lençóis claros cobrindo o corpo, o rosto mais sereno do que ele tinha visto em anos.
Gabriel parou na beira da cama por um instante. Observou. Como se tivesse medo de tocar e aquilo desaparecer.
Deitou devagar.
A mão dele encontrou o rosto dela primeiro, com cuidado, como quem pede permissão. O polegar deslizou pela bochecha, limpando uma lágrima antiga que parecia ainda morar ali.
— Sofia… — murmurou.
Ela abriu os olhos e sorriu pequeno, aquele sorriso que sempre foi só dele.
Ele se inclinou e começou a beijá-la devagar. Sem pressa. Sem fome. Era carinho, era reverência. Beijos longos, calmos, como se estivesse reaprendendo o corpo dela, como se dissesse em silêncio: agora eu fico.
Ela correspondeu do mesmo jeito. As mãos dela subiram para o pescoço dele, os dedos se fechando ali como se finalmente não precisassem mais soltar.
O tempo perdeu o peso.
Quando tudo se acalmou e eles ficaram ali, deitados, peito com peito, Gabriel encostou a testa na dela. Os olhos dele estavam úmidos.
— Agora… — ele disse baixo — você é oficialmente minha, meu amor. Não por posse. Por escolha. Por verdade.
Ela sorriu, um sorriso cheio, emocionado, e os olhos brilharam.
— É tudo o que eu sempre sonhei, Gabriel. — a voz saiu trêmula, mas segura. — Eu nunca consegui me entregar a ninguém. Sempre travava, sempre tinha medo… e não era defeito. Era porque não era pra ser com ninguém além de você.
Ela levou a mão até o peito dele, sentindo o coração bater forte.
— Eu sempre fui sua. E agora posso dizer isso sem culpa, sem medo… sem dor.
Gabriel fechou os olhos, respirando fundo, como se aquele momento estivesse costurando tudo o que foi quebrado.
Ele a puxou mais para perto, a mão protegendo a barriga dela, o futuro deles.
— E eu vou passar o resto da minha vida provando que você nunca esteve errada em me escolher.
E, pela primeira vez, não havia sombra entre eles.
Só amor.
E tudo o que ainda estava por vir.