nao somos irmãos

1217 Words
Gabriel não dormiu naquela noite. Ficou sentado na beira da cama, o mesmo quarto onde tudo tinha acontecido, com um copo de uísque esquecido na mão. Não bebia. Só encarava o nada. Grávida. A palavra martelava na cabeça dele como punição. Ele tinha destruído ela. Tirado o chão. Arrancado tudo o que ela tinha de mais frágil. E agora… ela carregava um pedaço dele sozinha. No amanhecer, ele já estava de pé. Chamou o homem de confiança. — Prepara o carro. Só nós dois. — Chefe, leva mais segurança? Gabriel negou com a cabeça. — Não. Ela não pode me ver como ameaça. Já bastou o que eu fiz. Horas depois, a estrada engolia o morro para trás. O interior era silencioso demais. Casas baixas. Gente simples. Vida comum. Uma vida que Sofia nunca teve direito. A lanchonete ficava numa esquina pequena, fachada simples, cheiro de café velho e fritura. Gabriel estacionou do outro lado da rua. E então ele a viu. Atrás do balcão. Mais magra. O rosto cansado. Os cachos presos num coque bagunçado. O avental largo escondendo o que ele agora sabia que estava ali. Mas os olhos… Os olhos eram os mesmos. Ela sorria para um cliente, educada, distante. Um sorriso que não chegava mais no fundo da alma. O peito de Gabriel apertou. — Sofia… — murmurou. Ela se virou para pegar um pedido, e o movimento fez o avental esticar levemente. Ali. Inconfundível. O filho dele. A culpa veio como um soco no estômago. Ele não entrou. Ficou observando. Viu ela tossir de leve. Passar a mão na barriga quase sem perceber. Beber água devagar. Sozinha. Sempre sozinha. Quando o turno acabou, ela saiu. Caminhava devagar, uma bolsa simples no ombro. Nada de carro. Nada de proteção. Só ela e o peso do mundo. Gabriel seguiu a distância. Ela entrou numa casinha pequena, simples, com um jardim m*l cuidado. Ele estacionou mais adiante. Desceu do carro. Cada passo até a porta parecia um julgamento. Quando levantou a mão para bater, hesitou. E se ela gritasse? E se mandasse ele embora? E se dissesse que o filho não era dele? Respirou fundo. Bateu. Silêncio. Bateu de novo. Passos. A maçaneta girou. A porta se abriu. Os olhos dela encontraram os dele. O mundo acabou ali. — …Gabriel? — a voz dela saiu fraca, incrédula. Ela empalideceu. A mão foi direto para a barriga, num gesto instintivo de proteção. — O que você tá fazendo aqui? — perguntou, já com os olhos cheios de lágrimas. Ele engoliu seco. — Eu… — a voz falhou. — Eu precisava te ver. Ela deu um passo para trás. — Você não pode estar aqui. — Sofia… — Não fala meu nome — ela interrompeu. — Você perdeu esse direito. Tentou fechar a porta. Ele segurou. — Por favor. Ela tremia. — Vai embora, Gabriel. Eu te implorei uma vez. Agora eu tô te mandando. O olhar dele desceu, sem pedir permissão, até a barriga dela. — É meu, né? — perguntou baixo, quebrado. O silêncio respondeu. As lágrimas escorreram pelo rosto dela. — Some da minha vida — ela sussurrou. — Antes que você destrua o que ainda sobrou de mim. Ele largou a porta devagar. — Eu sei que eu errei. — disse. — Mas eu não vou embora dessa vez. Ela levantou o rosto, os olhos cheios de dor e ódio. — Você não manda mais em mim. — Eu sei. — ele respondeu. — Mas eu vou lutar. Ela bateu a porta. Gabriel ficou ali, parado, sentindo o peso da verdade: Ela não era mais a menina que esperava por ele. E ele teria que sangrar muito… Para merecer entrar naquela casa outra vez A porta bateu. O som ecoou dentro dele como sentença. — Sofia… nós não somos irmãos. Ele disse alto, firme, como se dissesse isso também para si mesmo. Silêncio. Então a porta se abriu de novo. Ela estava ali, o rosto molhado, os olhos confusos, o peito subindo e descendo rápido demais. — O que você disse? — a voz dela saiu quebrada. Gabriel deu um passo à frente, sem tocar nela ainda, como se tivesse medo de que ela desaparecesse. — Amor… a nossa noite não foi um erro. Nunca foi. — a voz dele tremia, mas não recuava. — Meu pai acordou. Ele me contou tudo. Você não é minha irmã. Nunca foi. Ela balançou a cabeça, em negação. — Você tá mentindo… tá mentindo pra me prender aqui… — Não tô. — ele respirou fundo. — Você foi abandonada na porta da nossa casa quando era bebê. Meu pai disse que falou que vocês eram irmãos pra eu te proteger pra sempre. Foi só isso. Proteção. Nunca pecado. Nunca errado. As pernas dela fraquejaram. — Não… — ela sussurrou. — Isso não pode ser verdade… Gabriel puxou o celular com a mão trêmula. — Então escuta da boca dele. Ligou. Chamou. A chamada foi atendida. — Pai… fala pra ela. O silêncio do outro lado durou segundos eternos. — Filha… — a voz do homem saiu fraca, cansada. — Você não é irmã dele. Eu te criei como filha, mas nunca foi sangue. Eu fiz isso pra que ele cuidasse de você. Pra que ninguém nunca te machucasse. O mundo dela caiu. — É… é verdade mesmo? — ela chorava sem ar. — O senhor tá falando a verdade? — Sim, minha filha. Confia nele… e em você. A ligação caiu. O celular escorregou da mão de Gabriel. Sofia não pensou. Ela se jogou nos braços dele com força, como se tivesse passado a vida inteira esperando permissão pra aquilo. Chorava alto, sem freio, o rosto enterrado no peito dele. — Eu achei que era suja… — ela soluçava. — Achei que o que eu sentia era errado… que eu era um erro… Gabriel a envolveu inteiro, apertando como se o mundo pudesse roubá-la de novo. — Nunca foi. — ele murmurou contra o cabelo dela. — Nunca. Os seguranças ficaram do lado de fora, em silêncio absoluto. Dentro da casa, só existiam os dois. Ela respirou fundo, se afastou um pouco, colocou a mão dele sobre a própria barriga. — Eu tô grávida de você. — disse, olhando nos olhos dele. — Eu juro… eu nunca estive com mais ninguém. Nem antes. Nem depois. Eu era virgem… sempre fui sua. Os olhos de Gabriel se encheram de lágrimas. Ele sorriu, um sorriso quebrado, cheio de dor e alívio. — Eu senti… — disse baixo. — Sempre senti. E eu acredito em você. Ela chorou mais uma vez. — Eu te amo, Gabriel. Eu fui embora porque achei que era pecado. Quando descobri a gravidez, eu não te liguei… porque se eu ficasse perto de você, eu ia querer te beijar… ser sua de novo… e achei que a gente não podia. Ele fechou os olhos, encostando a testa na dela. — Você ia esconder isso de mim… — Ia. — ela confessou. — Eu ia criar esse bebê sozinha… porque te amar de longe parecia menos doloroso do que te amar sem poder te ter. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, como se estivesse segurando algo sagrado. — Nunca mais sozinha. — disse, com a voz firme, definitiva. — Nunca mais longe.
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