Os meses passaram como uma ferida aberta.
Os homens de Gabriel rodaram tudo.
Favela, centro, beira de estrada, pensão barata, hospital público, abrigo, rodoviária, cidade pequena onde ninguém fazia pergunta.
Nome falso.
Trabalho simples.
Mudanças constantes.
Gabriel não dormia direito. Não comia. Bebia demais. Punia mais do que antes.
O morro inteiro sentia o peso da ausência dela.
Até que numa noite, a porta da sala se abriu.
Dois homens entraram, sérios. Não sorriram. Não brincaram.
— Chefe… — um deles disse.
Gabriel levantou devagar do sofá.
— Fala.
O homem respirou fundo.
— A gente achou.
O mundo pareceu parar.
— Onde? — a voz de Gabriel saiu baixa, perigosa.
— Interior de São Paulo. Cidade pequena. — ele engoliu seco. — Ela tá trabalhando numa lanchonete. Turno da tarde.
Gabriel fechou os olhos por um segundo.
— E ela… — perguntou, já sabendo que vinha algo pior.
O homem hesitou.
— Ela tá grávida, chefe.
O impacto foi físico.
Gabriel levou a mão ao peito, como se tivesse levado um tiro de verdade.
Os joelhos quase falharam.
— Grávida… — repetiu num sussurro rouco.
Abriu os olhos devagar.
— Tem certeza?
— Absoluta. — o outro respondeu. — Barriga já aparecendo. Ela esconde com avental largo, mas não engana.
O silêncio caiu pesado.
Gabriel passou a mão no rosto, os olhos marejados, a respiração descompassada.
— Quantos meses? — perguntou.
— Pelo que levantamos… entre três e quatro.
O cálculo foi instantâneo.
A noite.
O quarto.
O corpo dela tremendo nos braços dele.
As lágrimas.
O “eu te amo” sussurrado antes de ir embora.
Era dele.
Não havia dúvida.
A voz dele saiu quebrada, mas firme:
— Ninguém chega perto dela sem minha ordem.
— Sim, chefe.
— Ninguém fala com ela. Ninguém assusta. Ninguém deixa ela desconfiar de nada.
Levantou-se, já decidido.
— Quero tudo sobre a rotina dela. Horário. Onde mora. Quem se aproxima. Se alguém tá ajudando.
Parou na frente deles, os olhos em chamas.
— E escutem bem… — disse. — Ela tá carregando meu filho.
O ar ficou pesado.
— Eu vou buscar a Sofia pessoalmente.
Virou-se, pegou a jaqueta.
— E dessa vez… — murmurou, com a voz tomada por emoção e fúria. — Ela não vai fugir de mim.
Porque agora,
não era só amor.
Era sangue.
Era herdeiro.