a cobrança com ela mesmo 2

993 Words
Passou um tempo… e por fora Sofia parecia outra. Ela sorria mais. Voltou a se arrumar. Fazia comida, ria das piadas de Gabriel, dizia “tá tudo bem” com facilidade demais. Quando ele perguntava como ela estava, a resposta vinha pronta: — Melhor, amor. Bem melhor. Mas era mentira. Por dentro, a cobrança só tinha mudado de forma. Ela acordava antes dele e ficava longos minutos encarando o teto, a mão pousada no ventre, como se estivesse negociando com o próprio corpo. Dessa vez tem que dar certo. Você precisa conseguir. Não falha de novo. Ela fingia normalidade, mas contava dias escondida. Escondia aplicativos. Jogava fora testes de gravidez antes que ele pudesse ver. Chorava em silêncio no banho, mordendo o próprio braço pra não fazer barulho. À noite, quando Gabriel a puxava pra perto só pra dormir, ela travava. — Amor… — ela começava, sempre no mesmo tom hesitante. — A gente pode… tentar hoje? Gabriel aceitava, mas algo nele já não estava em paz. Ele sentia o corpo dela tenso demais, a entrega não era inteira. Sofia estava ali, mas a cabeça estava longe, presa numa obrigação invisível. Depois, ela sempre se virava de lado, de costas pra ele, mesmo quando ele a abraçava. Certa madrugada, Gabriel acordou com a cama se movendo de leve. Abriu os olhos e viu Sofia sentada, abraçando os joelhos, chorando em silêncio. — Sofia. — a voz dele saiu baixa, perigosa de tão controlada. — Desde quando você finge comigo? Ela congelou. — Eu… eu não tô fingindo… Ele sentou na cama, o olhar escuro, atento a cada micro reação dela. — Você não olha mais pra mim como antes. Você olha pra mim como quem pede desculpa por existir. Aquilo quebrou o último muro. Sofia desabou. — Eu tenho medo, Gabriel! — ela chorava sem conseguir parar. — Medo de você dizer que tá tudo bem agora… e um dia acordar e não estar mais. Medo de não conseguir. Medo de falhar como mulher, como mãe, como tudo! Ela se encolheu, como se esperasse uma sentença. Gabriel a puxou com força pro colo, segurando firme, quase possessivo. — Você não é um projeto. — ele disse, a voz tremendo de raiva e dor. — Você não existe pra cumprir uma função. Ela soluçava contra o peito dele. — Eu perdi nosso bebê… — sussurrou. — E eu sinto como se meu corpo tivesse te traído. O silêncio ficou pesado. Gabriel fechou os olhos, respirou fundo, como quem segura um monstro dentro de si. — O único erro aqui… — ele disse por fim — …é você achar que eu te amo menos por algo que você não controla. Ele segurou o rosto dela, obrigando-a a encará-lo. — Se você continuar se machucando assim, eu vou ter que te proteger de você mesma. E eu não quero fazer isso à força. Sofia chorou ainda mais. Porque no fundo… ela sabia. Ela não estava tentando engravidar. Estava tentando se punir. E aquele amor intenso, escuro e verdadeiro, agora entrava na fase mais perigosa: a de curar feridas que não sangram por fora, mas matam por dentro. Um dia, ele não aguentou mais. Sofia estava no quarto, sentada na cama, olhando pro nada, a mão pousada no ventre como sempre. O silêncio dela gritava. Gabriel entrou, fechou a porta atrás de si com calma demais — o tipo de calma que vinha antes da explosão. Ele parou na frente dela. — Sofia… — a voz saiu firme, mas carregada. Ela levantou os olhos devagar, já na defensiva. — O quê, amor? Ele respirou fundo, passou a mão pelo rosto, claramente lutando contra algo dentro dele. — Você perdeu nosso filho fugindo de um tiro. — disse de uma vez, seco, sem rodeio. — E ainda assim foi acertada. Quase morreu. Ela empalideceu. — Gabriel, não fala assim… Ele se ajoelhou na frente dela, segurou o rosto dela com as duas mãos, obrigando-a a encará-lo. — Não foi culpa sua, p***a. — a voz falhou pela primeira vez. — Você correu pra viver. Pra sobreviver. Pra tentar voltar pra mim. Os olhos dela se encheram de lágrimas. — Mas se eu não tivesse saído… se eu tivesse ficado em casa… — NÃO. — ele interrompeu, firme. — Para. Para agora. Ele encostou a testa na dela, respirando pesado. — A culpa não é sua, amor. — repetiu, mais baixo. — A culpa é do mundo que tenta arrancar tudo que é nosso. A culpa é minha por te expor a esse inferno. Mas nunca sua. Nunca. Ela começou a chorar de verdade, o corpo tremendo. — Eu sinto como se meu corpo tivesse falhado com você… — ela confessou, quebrada. — Como se eu tivesse falhado como mãe antes mesmo de ser. Gabriel fechou os olhos, uma lágrima escapou sem que ele percebesse. — Você foi mãe no segundo que amou aquele bebê. — disse rouco. — E foi forte no segundo que escolheu viver, mesmo com medo. Ele a puxou pro colo, abraçando forte, protetor, quase possessivo. — Eu não te quero perfeita. — murmurou no ouvido dela. — Eu te quero viva. Inteira. Aqui comigo. Sofia se agarrou a ele como se fosse a única âncora possível. — Promete que não vai me deixar por isso? — sussurrou, quase inaudível. Ele apertou mais o abraço. — Eu mataria o mundo inteiro antes de te abandonar. — respondeu, sem hesitar. — Mas não vou deixar você se matar por dentro achando que carrega uma culpa que não é sua. Ele se afastou só o suficiente pra olhar nos olhos dela. — Nosso filho existiu. Foi amado. E nunca vai ser esquecido. — Mas você… — a voz dele endureceu de novo — …você ainda tá aqui. E é por você que eu vou lutar agora. Sofia chorou, mas dessa vez não era só dor. Era o começo de algo que ela ainda não sabia nomear: perdão.
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