Passaram-se alguns meses.
Sofia já andava mais devagar por causa da barriga, mas insistia em fazer as coisas simples sozinha. Disse que precisava se sentir viva, normal. Só ia ali na lojinha da esquina. Coisa rápida.
— Volto já, amor — disse, dando um beijo nele.
Gabriel ainda ficou na porta, observando até ela dobrar a rua. O peito apertou sem motivo claro. Aquela sensação antiga. Instinto.
O morro estava inquieto naquele dia.
Então o som cortou o ar.
Um tiro.
Depois outro.
Depois o caos.
Gritos. Correria. Gente se jogando no chão. Portas batendo.
Sofia sentiu o primeiro impacto antes de entender o barulho. Uma queimação absurda rasgou o corpo dela. As pernas falharam. Ela tentou correr, tentou proteger a barriga com os braços, mas o segundo tiro veio como um golpe seco.
O mundo girou.
Ela caiu.
O saco de compras espalhou no chão. O barulho ficou distante. O céu virou um borrão cinza. A última coisa que sentiu foi o medo… e o nome dele preso na garganta.
— Gabriel…
No morro, alguém gritou:
— A mulher do chefe caiu!
A notÃcia chegou até Gabriel como um soco.
— Chefe! — um dos homens entrou correndo, o rosto pálido. — Foi tiroteio ali perto da venda… a Sofia… ela foi atingida.
O tempo parou.
— O quê? — a voz dele saiu irreconhecÃvel.
— Ela caiu… desmaiada… dois tiros, chefe.
Gabriel entrou em pânico.
Não foi raiva.
Não foi fúria.
Foi desespero puro.
Ele empurrou tudo o que estava no caminho, saiu correndo como um animal ferido, sem arma, sem comando, sem pensar. Só um pensamento martelando:
Não. Não ela. Não agora.
Quando chegou, ela estava no chão, cercada por sangue, alguém tentando estancar, outro chorando. O mundo dele desabou ali.
— SOFIA! — ele caiu de joelhos ao lado dela, as mãos tremendo ao tocá-la. — Amor, olha pra mim… pelo amor de Deus, olha pra mim…
Ela não respondeu.
O rosto pálido. Os lábios frios.
— Chama o médico! — ele gritou, a voz quebrada. — Chama agora! Se ela morrer… — a frase morreu na garganta.
Ele segurou o rosto dela com cuidado, encostou a testa na dela, lágrimas caindo sem controle.
— Fica comigo… — sussurrou, desesperado. — Eu não sei viver sem você. Nosso filho precisa de você. Eu preciso de você… não me faz isso, Sofia… não faz…
As sirenes improvisadas começaram a soar. Os homens abriram caminho. Alguém trouxe uma maca.
Mas Gabriel continuava ali, agarrado a ela como se pudesse segurá-la no mundo só com a força do amor.
— Se for pra levar alguém… — murmurou, com a voz destruÃda — leva a mim. Mas deixa ela. Por favor.
E o morro inteiro soube naquele instante:
O homem mais c***l dali
estava de joelhos,
quebrado,
implorando pela vida da única pessoa que o fazia humano.
A sirene improvisada cortava a noite enquanto a caminhonete descia o morro rápido demais. Sofia estava estendida na maca improvisada, pálida, respirando com dificuldade. O sangue manchava o lençol. Um dos homens pressionava o ferimento, outro segurava o soro.
Gabriel ia atrás, de moto, sem capacete, sem sentir o vento rasgando o rosto. Só enxergava a imagem dela caÃda no chão. Só ouvia a própria respiração descompassada.
No hospital, a porta da emergência se abriu com violência.
— Ferimento por arma de fogo! Gestante! — gritou alguém.
Os médicos tomaram Sofia dos braços deles. Gabriel tentou ir junto.
— Senhor, precisa esperar!
— É a minha mulher! — ele rugiu, sendo contido à força.
A porta do centro cirúrgico se fechou.
E levou tudo com ela.
O corredor ficou frio. Branco. c***l.
Gabriel afundou numa cadeira de plástico, os cotovelos nos joelhos, a cabeça baixa. As mãos tremiam. Ele rezava sem saber rezar. Prometia coisas que nunca acreditou.
— Fica comigo… — murmurava. — Eu faço qualquer coisa… qualquer coisa…
As horas passaram lentas, torturantes.
Um médico saiu. O rosto cansado. O olhar pesado.
Gabriel se levantou num pulo.
— Ela tá viva? — a voz dele saiu quebrada.
O médico respirou fundo antes de falar.
— Nós conseguimos estabilizar a Sofia… mas ela perdeu muito sangue. Ela está entre a vida e a morte. As próximas horas são crÃticas.
Gabriel assentiu, engolindo o pânico.
— E… o bebê? — perguntou, mesmo já sentindo o vazio no peito.
O silêncio respondeu primeiro.
— Sinto muito… — o médico disse baixo. — A gestação não resistiu ao trauma.
O chão desapareceu.
Gabriel levou a mão ao rosto, um som bruto escapando do peito, meio grito, meio choro. Ele virou de costas, apoiou a testa na parede fria e deslizou até o chão.
— Não… — sussurrou. — Não o nosso filho… não…
Aquela dor era diferente. Não era raiva. Não era ódio. Era perda. Uma perda que não se vinga.
Horas depois, ele foi autorizado a vê-la.
Sofia estava entubada, cheia de fios, máquinas apitando ao redor. Tão pequena naquela cama grande demais. Gabriel se aproximou devagar, como se tivesse medo de quebrá-la.
Segurou a mão dela com cuidado.
— Amor… — a voz falhou. — Me escuta… eu tô aqui. Não vai embora, tá? Já tiraram coisa demais da gente… não leva você também.
As lágrimas caÃram sobre a mão dela.
— Eu prometo… — sussurrou. — Eu prometo que ninguém mais encosta em você. Eu prometo que vou te proteger até o fim da minha vida. Só… fica.
A máquina continuava apitando.
A noite seguiu longa, silenciosa, pesada.
E entre o som dos aparelhos e o choro contido de um homem quebrado, Sofia lutava — presa num fio invisÃvel entre ficar… ou partir.