o baile que ela precisava

794 Words
Passaram-se algumas semanas. O silêncio ainda morava nela, mas já não doía do mesmo jeito — era um vazio cansado, não mais sangrando o tempo todo. Gabriel entrou no quarto e a encontrou sentada na cama, olhando o celular sem realmente ver nada. — Amor… — ele falou com cuidado. — Vamos no baile comigo hoje. Ela levantou os olhos devagar. — Não, Gabriel… não quero. Ele se aproximou, sentou ao lado dela, pegou a mão dela com delicadeza. — Só um pouco. Você precisa se distrair. Se não for bom, a gente volta na mesma hora. Eu prometo. Ela hesitou. Respirou fundo. — Tá bom… — disse baixo. — Mas se eu não me sentir bem, a gente vai embora. — Na hora. — ele garantiu, beijando a testa dela. No banho, a água quente caiu sobre o corpo dela como se lavasse um pouco do peso acumulado. Ela se olhou no espelho depois, demorou alguns segundos. Ainda estava ali. Viva. Bonita à sua maneira cansada. Vestiu um short curto, uma blusinha leve. Soltou os cachos, fez uma maquiagem discreta — só o suficiente pra se reconhecer de novo. Quando saiu do quarto, Gabriel levantou no mesmo instante. Parou. Olhou. Sorriu daquele jeito que só aparecia pra ela. — Tá maravilhosa… — disse, sincero. — Sempre foi. Ela sorriu de volta, pequeno, tímido, mas real. — Para… — murmurou. Ele se aproximou, ajeitou uma mecha de cabelo dela atrás da orelha. — Não tô dizendo pra te convencer. Tô dizendo porque é verdade. Desceram juntos. O morro já estava aceso. Luzes, música, gente rindo, dançando, vivendo. O baile pulsava vida — aquela mesma vida que ela achou que tinha perdido. Gabriel manteve a mão firme na cintura dela. Não por posse. Por cuidado. Quando chegaram ao camarote, ele inclinou a cabeça e falou baixo no ouvido dela: — Fica do meu lado. Se quiser dançar, dança. Se quiser sentar, a gente senta. Hoje você manda. Ela assentiu. A música começou. No início, ela ficou quieta. Observando. Respirando. Depois, sem perceber, o pé começou a marcar o ritmo. O corpo lembrou antes da mente. Gabriel percebeu. Sorriu de canto. — Vai… — incentivou. — Você sempre amou isso. Ela dançou devagar. Sem exagero. Sem provocar. Só sendo ela. E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu algo diferente da dor. Sentiu presença. Sentiu que ainda existia. Gabriel a observava como quem guarda um milagre frágil. Não tirava os olhos. Não soltava a mão. E ali, no meio do som alto e das luzes, Sofia deu um passo pequeno — mas real — de volta à vida. E Gabriel soube: Ele não precisava salvá-la. Só precisava caminhar ao lado enquanto ela aprendia a viver de novo. A música mudou, mais envolvente, mais lenta. Sofia se virou pra ele sem dizer nada. Só subiu as mãos pelo peito dele, devagar, sentindo o calor conhecido, seguro. Gabriel abaixou a cabeça e beijou ela com carinho — não foi fome, não foi pressa. Foi um beijo profundo, protetor, daqueles que dizem eu tô aqui. O baile inteiro pareceu diminuir. Os olhares vieram. Muitos. Admiração. Desejo. Respeito forçado. Porque ali já não havia dúvida nenhuma: Aquela mulher não era mais “a irmã do chefe”. Ela era a mulher do chefe. E ai de quem confundisse as coisas. Gabriel sentiu os olhares, claro que sentiu. Mas não se moveu. Só manteve a mão firme na cintura dela, o polegar desenhando círculos lentos, marcando território sem precisar de palavra. Sofia começou a dançar encostada nele. Corpo com corpo. Sem exagero, sem vulgaridade — era i********e. Era conexão. O jeito que ela se encaixava nele dizia tudo o que ninguém precisava ouvir. Ela fechou os olhos por um instante, respirando o cheiro dele. A música vibrava nos dois. Gabriel observava cada detalhe: o jeito que ela se movia, a respiração voltando ao ritmo, o brilho discreto nos olhos. Não havia ciúme ali. Havia orgulho. E vigilância. Porque enquanto ela dançava segura nos braços dele, o morro inteiro aprendia, em silêncio, uma regra simples: Ela era intocável. Intocável porque era amada. E amada pelo homem mais perigoso dali. Gabriel inclinou a boca até o ouvido dela. — Tá tudo bem? — perguntou baixo. Ela assentiu, encostando a testa no pescoço dele. — Tá… — respondeu. — Tô me sentindo viva de novo. Ele fechou os olhos por um segundo, apertando-a um pouco mais contra si. — Então fica. — murmurou. — Eu cuido do resto. E ali, sob as luzes do baile, entre música, olhares e respeito imposto, Sofia dançava não mais pra esquecer a dor — mas pra lembrar quem ela era. E Gabriel observava tudo, sabendo que proteger aquela mulher era a única guerra que ele nunca perderia.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD