A porta do quarto de Sofia fechou devagar.
Sem grito.
Sem drama.
Sem volta.
E foi ali que Gabriel caiu.
Literalmente.
Ele encostou a mão na parede, o corpo pesado demais pra sustentar. O ar não entrava direito. O peito ardia como se alguém tivesse enfiado fogo por dentro.
— p***a… — murmurou, passando a mão no rosto.
A casa ficou silenciosa.
Silenciosa demais.
O tipo de silêncio que grita.
Ele foi até a sala, depois voltou. Andou de um lado pro outro, os punhos cerrados, a mandíbula travada.
“Ela vai embora amanhã cedo.”
A frase martelava.
Não era ameaça.
Era decisão.
Gabriel bateu a mão na mesa com força.
— Eu fiz merda… — disse pra ninguém.
A imagem dela chorando na cama voltou como um soco. O jeito que ela disse “o único homem que eu pensei que não fosse me machucar” rasgou ele por dentro.
Ele passou a mão pelo cabelo, nervoso, os olhos marejados — e isso já dizia tudo.
Gabriel não chorava.
Nunca.
Mas naquela madrugada, os olhos queimavam.
Ele foi até o quarto dela.
Parou na porta.
Não entrou.
Ela estava deitada de costas, encolhida, como se tentasse ocupar menos espaço no mundo. A respiração falha denunciava que ela ainda chorava.
E algo quebrou de vez nele.
— Sofia… — sussurrou, quase sem voz.
Ela não respondeu.
Ele deu um passo à frente.
— Eu não fiz pra te machucar… — disse baixo. — Eu juro.
Ela se virou devagar.
Os olhos inchados. Vermelhos. Cansados.
— Mas machucou. — respondeu simples.
Aquilo doeu mais que qualquer grito.
— Você é tudo que eu tenho. — ele confessou, a voz falhando. — Eu não sei existir sem você aqui.
Ela respirou fundo.
— Engraçado… — disse com amargura. — Porque você vive muito bem sem mim quando quer.
Gabriel sentiu como se tivesse levado um tiro.
— Eu tô tentando te proteger.
— De quem? — ela perguntou. — De você mesmo?
Silêncio.
Ela se sentou na cama.
— Eu não aguento mais essa guerra dentro de você. — disse. — E nem essa prisão que você chama de proteção.
— Se você for embora… — a voz dele tremeu — eu não vou sobreviver a isso.
Ela levantou.
Ficou frente a frente com ele.
— Eu já não tô sobrevivendo ficando.
As lágrimas escorreram de novo.
— Eu te amo, Gabriel. — confessou pela primeira vez. — E isso tá me destruindo.
Ele fechou os olhos.
O colapso veio inteiro.
O corpo cedeu. Ele se ajoelhou no chão, a cabeça baixa, respirando com dificuldade.
— Não vai… — pediu, quebrado. — Fica. Mesmo que seja me odiando.
Ela levou a mão à boca, chorando em silêncio.
— Eu não sei mais como ficar sem me perder de mim.
Ele levantou o rosto.
Os olhos molhados.
Desesperados.
— Então me deixa te perder junto com você. — implorou. — Mas não me deixa aqui sozinho com isso.
Ela não respondeu.
Só voltou pra cama.
Virou de costas.
E aquela foi a pior resposta de todas.
Naquela madrugada, Gabriel entendeu tarde demais:
O maior erro da vida dele não foi amar Sofia.
Foi acreditar que o amor podia ser trancado
sem cobrar um preço.