Quando o controle some

542 Words
A porta do quarto de Sofia fechou devagar. Sem grito. Sem drama. Sem volta. E foi ali que Gabriel caiu. Literalmente. Ele encostou a mão na parede, o corpo pesado demais pra sustentar. O ar não entrava direito. O peito ardia como se alguém tivesse enfiado fogo por dentro. — p***a… — murmurou, passando a mão no rosto. A casa ficou silenciosa. Silenciosa demais. O tipo de silêncio que grita. Ele foi até a sala, depois voltou. Andou de um lado pro outro, os punhos cerrados, a mandíbula travada. “Ela vai embora amanhã cedo.” A frase martelava. Não era ameaça. Era decisão. Gabriel bateu a mão na mesa com força. — Eu fiz merda… — disse pra ninguém. A imagem dela chorando na cama voltou como um soco. O jeito que ela disse “o único homem que eu pensei que não fosse me machucar” rasgou ele por dentro. Ele passou a mão pelo cabelo, nervoso, os olhos marejados — e isso já dizia tudo. Gabriel não chorava. Nunca. Mas naquela madrugada, os olhos queimavam. Ele foi até o quarto dela. Parou na porta. Não entrou. Ela estava deitada de costas, encolhida, como se tentasse ocupar menos espaço no mundo. A respiração falha denunciava que ela ainda chorava. E algo quebrou de vez nele. — Sofia… — sussurrou, quase sem voz. Ela não respondeu. Ele deu um passo à frente. — Eu não fiz pra te machucar… — disse baixo. — Eu juro. Ela se virou devagar. Os olhos inchados. Vermelhos. Cansados. — Mas machucou. — respondeu simples. Aquilo doeu mais que qualquer grito. — Você é tudo que eu tenho. — ele confessou, a voz falhando. — Eu não sei existir sem você aqui. Ela respirou fundo. — Engraçado… — disse com amargura. — Porque você vive muito bem sem mim quando quer. Gabriel sentiu como se tivesse levado um tiro. — Eu tô tentando te proteger. — De quem? — ela perguntou. — De você mesmo? Silêncio. Ela se sentou na cama. — Eu não aguento mais essa guerra dentro de você. — disse. — E nem essa prisão que você chama de proteção. — Se você for embora… — a voz dele tremeu — eu não vou sobreviver a isso. Ela levantou. Ficou frente a frente com ele. — Eu já não tô sobrevivendo ficando. As lágrimas escorreram de novo. — Eu te amo, Gabriel. — confessou pela primeira vez. — E isso tá me destruindo. Ele fechou os olhos. O colapso veio inteiro. O corpo cedeu. Ele se ajoelhou no chão, a cabeça baixa, respirando com dificuldade. — Não vai… — pediu, quebrado. — Fica. Mesmo que seja me odiando. Ela levou a mão à boca, chorando em silêncio. — Eu não sei mais como ficar sem me perder de mim. Ele levantou o rosto. Os olhos molhados. Desesperados. — Então me deixa te perder junto com você. — implorou. — Mas não me deixa aqui sozinho com isso. Ela não respondeu. Só voltou pra cama. Virou de costas. E aquela foi a pior resposta de todas. Naquela madrugada, Gabriel entendeu tarde demais: O maior erro da vida dele não foi amar Sofia. Foi acreditar que o amor podia ser trancado sem cobrar um preço.
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