A madrugada avançava pesada, sufocante.
Gabriel estava sentado ao lado da cama, segurando a mão de Sofia, quando o som mudou.
Não foi alto no começo.
Foi errado.
O bip dos aparelhos começou a falhar, o ritmo irregular, nervoso. A linha no monitor tremulou de um jeito que fez o sangue dele gelar.
— Ei… — ele se inclinou. — Amor? Sofia?
Nada.
O monitor disparou.
BIIIIIIIII—
— PARADA! — alguém gritou.
Em segundos, o quarto se encheu de gente. Gabriel foi puxado pra trás à força.
— Senhor, sai agora!
— Não! — ele resistiu. — Não tira ela de mim! Pelo amor de Deus!
Um médico subiu na cama, começou as compressões. Outro preparava o desfibrilador.
— Carrega!
— Afastem!
O choque fez o corpo dela arquear.
Gabriel assistia paralisado, como se estivesse vendo a própria alma sendo arrancada.
— De novo!
— Carrega mais!
O som do impacto ecoou no quarto.
Nada.
— Vamos, Sofia… — Gabriel sussurrou, a voz destruída. — Volta pra mim… eu não sei respirar sem você…
Mais compressões. Mais choque.
O monitor continuava em linha reta.
Gabriel caiu de joelhos no chão.
— Eu prometo… — chorou, alto, sem vergonha nenhuma. — Eu prometo que vou ser melhor… que vou te amar direito… que nunca mais vou te machucar… mas não vai agora… não vai…
O médico olhou o relógio.
— Estamos perdendo ela…
— Não! — Gabriel gritou, num desespero animal. — Não perde! Não perde ela!
Última tentativa.
— Carrega máximo.
— Afastem!
O choque foi mais forte.
Um segundo eterno.
Dois.
Então—
BIP.
Outro.
Outro.
O ritmo voltou fraco, instável, mas vivo.
— Temos pulso! — alguém anunciou.
Gabriel levou a mão ao rosto, soluçando, completamente quebrado. O corpo inteiro tremia.
— Obrigado… — repetia, sem saber pra quem. — Obrigado… obrigado…
Os médicos estabilizaram Sofia às pressas. Tubos. Medicamentos. Oxigênio.
Antes de saírem com ela novamente, Gabriel conseguiu se aproximar por um segundo. Tocou o rosto dela com cuidado extremo.
— Você voltou… — sussurrou, encostando a testa na dela. — Não me assusta assim de novo… eu não sobrevivo a te perder.
Ela não respondeu.
Mas o coração dela batia.
E naquela noite, Gabriel aprendeu a coisa mais c***l de todas:
O homem mais temido do morro
quase morreu ali também —
sem levar um tiro,
sem enfrentar inimigo algum,
apenas por amar demais.
Quinze dias.
Quinze dias em que o mundo ficou suspenso.
Sofia abriu os olhos devagar, como se o próprio corpo tivesse medo de voltar. A luz branca do quarto feriu a vista. O ar tinha cheiro de remédio. O corpo inteiro doía — uma dor funda, pesada, que não vinha só dos ferimentos.
Ela tentou se mexer. Não conseguiu.
Um som escapou da garganta.
— Sofia… — a voz veio rouca, quase um sussurro.
Gabriel.
Ele estava ali. Sempre esteve. Dormia sentado na poltrona ao lado da cama, barba por fazer, olhos fundos, a mão ainda segurando a dela como se tivesse medo de soltar e ela desaparecer.
Quando sentiu o leve aperto dos dedos dela, despertou num pulo.
— Amor…? — a voz dele quebrou. — Sofia?
Ela piscou algumas vezes até focar o rosto dele. O coração apertou ao vê-lo assim… destruído.
— Gabriel… — sussurrou.
Ele caiu de joelhos ao lado da cama, levando a mão dela ao rosto, beijando com cuidado, com desespero contido.
— Você voltou… — chorou. — Meu Deus… você voltou…
Ela tentou sorrir, mas os olhos se encheram de lágrimas sem entender por quê.
— Quanto… quanto tempo? — perguntou fraca.
— Quinze dias. — ele respondeu, passando a mão pelos cabelos dela. — Quinze dias lutando… e quase me levando junto.
Ela respirou fundo. Algo dentro dela doía mais do que o corpo.
— Gabriel… — a voz falhou. — Eu sinto um vazio… aqui…
Ela levou a mão ao ventre instintivamente.
O mundo parou.
O rosto dele mudou. O silêncio respondeu antes das palavras.
— Amor… — ele disse baixo, com cuidado extremo. — A gente perdeu…
Ela entendeu na hora.
Os olhos dela se arregalaram, e então as lágrimas vieram — silenciosas, profundas, esmagadoras. Um choro sem som, de quem não tem força nem pra gritar.
— Não… — sussurrou. — Não… meu bebê…
Gabriel subiu na cama com cuidado, abraçou ela com todo o corpo, como se pudesse protegê-la agora do que já tinha acontecido.
— Eu tô aqui. — ele repetia. — Eu tô aqui… você não tá sozinha… nunca mais.
Ela se agarrou a ele, o rosto enterrado no peito dele, chorando como nunca tinha chorado na vida.
— Eu quase morri… — disse entre soluços. — Eu senti… eu senti indo embora…
Ele fechou os olhos, apertando ela contra si.
— Eu vi você morrer. — confessou, a voz em pedaços. — Seu coração parou… e eu morri junto ali.
Ela levantou o rosto devagar, os olhos vermelhos.
— Você ficou?
— Eu não saí daqui um segundo. — respondeu. — Dormi sentado. Rezei. Prometi coisas que eu nem sabia dizer. Implorei pra tudo que existe.
Ela tocou o rosto dele com cuidado.
— Você parece… cansado.
— Porque eu te amo. — simples. c***l. Verdadeiro.
Ela encostou a testa na dele.
— Eu achei que nunca mais ia te ver…
— E eu achei que nunca mais ia ouvir você me chamar pelo nome. — ele respondeu. — A gente sobreviveu, Sofia. Mesmo quebrados.
Ela respirou fundo, sentindo a dor, o luto, o amor — tudo misturado.
— Nosso bebê… — murmurou.
— Vive em você. — ele disse firme. — E vive em mim. Nada apaga isso.
Ela fechou os olhos, exausta, mas segura.
Porque quando acordou entre a vida e a morte,
a primeira coisa que viu
foi o homem que nunca soltou a mão dela.