a dor da perda

973 Words
A madrugada avançava pesada, sufocante. Gabriel estava sentado ao lado da cama, segurando a mão de Sofia, quando o som mudou. Não foi alto no começo. Foi errado. O bip dos aparelhos começou a falhar, o ritmo irregular, nervoso. A linha no monitor tremulou de um jeito que fez o sangue dele gelar. — Ei… — ele se inclinou. — Amor? Sofia? Nada. O monitor disparou. BIIIIIIIII— — PARADA! — alguém gritou. Em segundos, o quarto se encheu de gente. Gabriel foi puxado pra trás à força. — Senhor, sai agora! — Não! — ele resistiu. — Não tira ela de mim! Pelo amor de Deus! Um médico subiu na cama, começou as compressões. Outro preparava o desfibrilador. — Carrega! — Afastem! O choque fez o corpo dela arquear. Gabriel assistia paralisado, como se estivesse vendo a própria alma sendo arrancada. — De novo! — Carrega mais! O som do impacto ecoou no quarto. Nada. — Vamos, Sofia… — Gabriel sussurrou, a voz destruída. — Volta pra mim… eu não sei respirar sem você… Mais compressões. Mais choque. O monitor continuava em linha reta. Gabriel caiu de joelhos no chão. — Eu prometo… — chorou, alto, sem vergonha nenhuma. — Eu prometo que vou ser melhor… que vou te amar direito… que nunca mais vou te machucar… mas não vai agora… não vai… O médico olhou o relógio. — Estamos perdendo ela… — Não! — Gabriel gritou, num desespero animal. — Não perde! Não perde ela! Última tentativa. — Carrega máximo. — Afastem! O choque foi mais forte. Um segundo eterno. Dois. Então— BIP. Outro. Outro. O ritmo voltou fraco, instável, mas vivo. — Temos pulso! — alguém anunciou. Gabriel levou a mão ao rosto, soluçando, completamente quebrado. O corpo inteiro tremia. — Obrigado… — repetia, sem saber pra quem. — Obrigado… obrigado… Os médicos estabilizaram Sofia às pressas. Tubos. Medicamentos. Oxigênio. Antes de saírem com ela novamente, Gabriel conseguiu se aproximar por um segundo. Tocou o rosto dela com cuidado extremo. — Você voltou… — sussurrou, encostando a testa na dela. — Não me assusta assim de novo… eu não sobrevivo a te perder. Ela não respondeu. Mas o coração dela batia. E naquela noite, Gabriel aprendeu a coisa mais c***l de todas: O homem mais temido do morro quase morreu ali também — sem levar um tiro, sem enfrentar inimigo algum, apenas por amar demais. Quinze dias. Quinze dias em que o mundo ficou suspenso. Sofia abriu os olhos devagar, como se o próprio corpo tivesse medo de voltar. A luz branca do quarto feriu a vista. O ar tinha cheiro de remédio. O corpo inteiro doía — uma dor funda, pesada, que não vinha só dos ferimentos. Ela tentou se mexer. Não conseguiu. Um som escapou da garganta. — Sofia… — a voz veio rouca, quase um sussurro. Gabriel. Ele estava ali. Sempre esteve. Dormia sentado na poltrona ao lado da cama, barba por fazer, olhos fundos, a mão ainda segurando a dela como se tivesse medo de soltar e ela desaparecer. Quando sentiu o leve aperto dos dedos dela, despertou num pulo. — Amor…? — a voz dele quebrou. — Sofia? Ela piscou algumas vezes até focar o rosto dele. O coração apertou ao vê-lo assim… destruído. — Gabriel… — sussurrou. Ele caiu de joelhos ao lado da cama, levando a mão dela ao rosto, beijando com cuidado, com desespero contido. — Você voltou… — chorou. — Meu Deus… você voltou… Ela tentou sorrir, mas os olhos se encheram de lágrimas sem entender por quê. — Quanto… quanto tempo? — perguntou fraca. — Quinze dias. — ele respondeu, passando a mão pelos cabelos dela. — Quinze dias lutando… e quase me levando junto. Ela respirou fundo. Algo dentro dela doía mais do que o corpo. — Gabriel… — a voz falhou. — Eu sinto um vazio… aqui… Ela levou a mão ao ventre instintivamente. O mundo parou. O rosto dele mudou. O silêncio respondeu antes das palavras. — Amor… — ele disse baixo, com cuidado extremo. — A gente perdeu… Ela entendeu na hora. Os olhos dela se arregalaram, e então as lágrimas vieram — silenciosas, profundas, esmagadoras. Um choro sem som, de quem não tem força nem pra gritar. — Não… — sussurrou. — Não… meu bebê… Gabriel subiu na cama com cuidado, abraçou ela com todo o corpo, como se pudesse protegê-la agora do que já tinha acontecido. — Eu tô aqui. — ele repetia. — Eu tô aqui… você não tá sozinha… nunca mais. Ela se agarrou a ele, o rosto enterrado no peito dele, chorando como nunca tinha chorado na vida. — Eu quase morri… — disse entre soluços. — Eu senti… eu senti indo embora… Ele fechou os olhos, apertando ela contra si. — Eu vi você morrer. — confessou, a voz em pedaços. — Seu coração parou… e eu morri junto ali. Ela levantou o rosto devagar, os olhos vermelhos. — Você ficou? — Eu não saí daqui um segundo. — respondeu. — Dormi sentado. Rezei. Prometi coisas que eu nem sabia dizer. Implorei pra tudo que existe. Ela tocou o rosto dele com cuidado. — Você parece… cansado. — Porque eu te amo. — simples. c***l. Verdadeiro. Ela encostou a testa na dele. — Eu achei que nunca mais ia te ver… — E eu achei que nunca mais ia ouvir você me chamar pelo nome. — ele respondeu. — A gente sobreviveu, Sofia. Mesmo quebrados. Ela respirou fundo, sentindo a dor, o luto, o amor — tudo misturado. — Nosso bebê… — murmurou. — Vive em você. — ele disse firme. — E vive em mim. Nada apaga isso. Ela fechou os olhos, exausta, mas segura. Porque quando acordou entre a vida e a morte, a primeira coisa que viu foi o homem que nunca soltou a mão dela.
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