CAPÍTULO 11-- O NOVO NAMORADO DA MINHA IRMÃ

1107 Words
UM ANO DEPOIS Tudo parecia ter sido apenas um sonho. Acho que no último ano não houve um dia sequer em que eu não tivesse pensado naquela loucura que passei no morro. Tudo ocorreu em uma noite só: a descoberta da traição do Samuel, o meu sequestr0 por aqueles dois patetas, a fuga, meu sequestr0 de novo, só que desta vez pelo The Killer e, finalmente, a invasão da polícia. Eu estava no meu quarto, mas conseguia ouvir a conversa que a minha madrasta mantinha na sala. Eu acho que ela pensou que eu estava dormindo. – Ela não sai de lá mais? – perguntou a amiga. – Alicia virou um completo bicho arredio, Sônia. Ela vive presa desde que supostamente foi sequestrada. – Como assim, ‘supostamente’, Christina? Eu ouvi minha madrasta rir com ironia. – Ah, Sônia, aquela garota pode convencer ao pai de que é inocente, mas para mim ela foi lá sozinha e inventou essa histŕoi@ toda para a polícia. – Acha que ela não foi sequestrad@? – Tenho minhas dúvidas – disse minha madrasta – mas isso pouco importa. Só torço todos os dias para que algum outro rapto ocorra e que essa garota vá para bem longe. As duas riram dessa vez. – Que maldade, mulher. – fala Sônia. – Talvez um pouco, mas lembre-se: de boa vontad o infern0 está cheio. Tempos antes eu com certeza me levantaria e confrontaria minha madrasta, mas eu já não era mais a mesma, bem como ela própria disse a sua amiga. Eu evitava ao máximo o contato. Desde aquela noite no morro, em que liguei para o meu pai e ele simplesmente disse que não poderia me ajudar, que eu fiquei em um estado de completo abandono. Eu estava , na verdade, com depressão. – Não chega a ser uma depressão maior, Alicia – me disse a psiquiatra da universidade. Lá os alunos tinham algum acompanhamento quando solicitado. – E por que me sinto assim? Parece que tudo mudou de cor, vejo tudo sem graça; – Sim, há um problema, uma depressão unipolar, menor, por assim dizer. Na depressão maior você tende a deixar de fazer quase tudo. No seu caso você ainda mantém sua vida de maneira quase normal, tirando essa melancolia que relata. Ninguém sabia sobre isso. Eu não comentei com meu pai ou minha madrasta. – Mas acha que preciso tomar remédios. – perguntei. – Acredito que por hora vamos observar seu caso. Estou te fazendo um encaminhamento para a psicóloga da universidade e quero que vá visitá-la semanalmente. Se as coisas pioraram e essa melancolia ficar mais grave, podemos iniciar alguma medicação, como Sertralina por exemplo. – Certo. Desde então eu passei a frequentar a psicóloga. Ajuda a ponto de não se fazer necessário o uso de medicamentos, mas acho que a melancolia continua ali me causando certo desânimo. Eu consegui manter meu ritmo de estudo, estava indo para o quinto período da graduação. Eu lidava com leis, estudava a constituição, e por conta disso, vez e outra me pegava pensando em The Killer. Eu pensava que talvez devesse ter ido com ele por aquela passagem secreta quando ele me chamou. Nada me tira da cabeça que a mãe dele e ele me trataram melhor do que minha família , mesmos e me conhecerem. Mas tudo isso não passava de uma verdadeira loucura, Nunca daria certo. Minha psicóloga me diz que eu penso sobre isso como uma espécie de fuga, ou de me auto culpar, como faço e já fiz com diversas coisas que ocorreram na minha vida. – Vocẽe tomou a melhor decisão dentro de uma gama de possibilidade. Tudo que poderia ter ocorrido se tivesse ido com ele, Alícia, não passa de especulação. A única coisa que podemos ter certeza é de que vocẽ talvez construa isso na sua mente para se culpar novamente. Nem tudo é sua culpa. CULPA. Eu tive essa sensação por quase tudo. Na verdade, eu fiz minha mãe descobrir que meu pai mantinha uma segunda família e, em tese, foi por isso que ela sumiu no mundo. Sem me levar. Talvez, se eu não tivesse dito, minha mãe ainda estivesse com a gente. Eram tópicos e mais tópicos a serem discutidos com a psicóloga. Na maioria das vezes eu esperava todos irem deitar para fazer alguma refeição. Não me sentava à mesa com eles para jantar já havia semanas. E quando o fazia não ficava muito tempo. Era insuportável ouvir as risadinhas de Cristina e Agatha na mesa. Mas nesse dia eu estava com uma fome fora do comum. Aguentei até onde consegui meu estômago roncando. Eu abri a porta do quarto e ouvi risadinhas vindas da sala. Acho que era uma reunião de família que eu não participava. – E o que você faz da vida, rapaz? – disse meu pai. – Eu tenho uma rede de supermercados na zona norte – respondeu uma voz grave, familiar. Eu parei no meio do corredor e fiquei escutando a conversa. – Ah, você é empresário? – disse Christina empolgada, interesseira. – Sim, mãe. Abel é um homem de negocios. – Disse Ágatha. Abel, eu nunca mais tinha ouvido esse nome depois de ter saído do morro. Mas era inesquecível, era o nome do The Killer. A curiosidade me deixou apavorada, mas continuei caminhando alguns passos para ver se via algo da sala. Não podia ser o que a minha mente estava criando. – E pretende levar ágatha a sério, rapaz? – perguntou meu pai. – Claro, claro que sim. – disse a voz grave que cada vez mais eu achava conhecer. Era uma reunião, então, onde meus pais conheciam o novo namorado da minha irmã. De onde eu estava, conseguia ver apenas meu pai e Cristina sentados de um lado. O outro sofá não dava para ver. Enxergava no máximo os peś de Agatha e do suposto namorado dela. – Fico feliz, meu querido. Além disso, você é muito bonito e combina com Ágatha. – disse Cristina com sua voz aguda irritante. – Eu ficarei grato de me deixarem namorar com ela. Aquela voz ficava cada vez mais familiar. Tomei coragem e inventei uma história na minha cabeça para poder entrar na sala. Eu senti meu coração ir de 80 a 100 em segundos e quase saltar pela boca. Os quatro olharam para mim assim que apareci na soleira da porta. Mas o único olhar que me importou foi o dele: The Killer sentado no sofá da minha casa abraçado com a minha irmã nojenta chamada Agatha. Isso não podia ser verdade: The Killer era o novo na morado dela. Era um pesadelo.
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