– Mãe, acorda.
Solto o ar dos pulmões forçando minhas pálpebras pesadas a abrir.
Renata está debruçada sobre mim, os cabelos crespos caindo em frente ao rosto, esperando como todas as manhãs pacientemente.
– Bom dia – digo rouca.
Ela sorri acariciando meu rosto.
Dividimos o mesmo quarto desde que nascerá, apesar de não ter outro quarto disponível para ela, preferia dessa forma.
Abro a porta do quarto, permitindo que o furacão de oito anos saia, com o cheiro de café nos dando bom dia como de costume.
Bato na porta do banheiro repentinas vezes, quando tento abrir a mesma.
Segundos mais tarde, minha irmã do meio, Gio, abre a porta com os cabelos preso num coque alto, com a toalha enrolada no corpo.
Balançando a cabeça e revirando os olhos, passa por nós.
Nos livramos dos pijamas, entrando em baixo do chuveiro.
Renata ri e brinca enquanto a ajudo a se lavar, cronometrando o tempo na minha cabeça para não nos atrasar.
Ela veste o uniforme da escola, enquanto me visto para mais um dia de trabalho, demorando em finalizar nossos cabelos 4 B.
O café da manhã já estava sobre a velha mesa de madeira de quatro lugares, onde sempre alguém ficava de pé.
Servia Renata com café com leite quando vó Alceu entra em casa com uma sacolinha com pães de sal.
Havia completado recentemente 87 anos e a única pessoa que não pegava no pé era Renata.
– Bom dia, pingo – diz puxando o nariz dela com os dois dedos.
Renata faz uma careta.
Passo margarina em dois pães, lhe entregando um.
Vó Marta era três anos mais nova que vó Alceu, era completamente diferente dele. Era conhecida pelo seu bom humor e o jeito leve se levar a vida, apesar das dificuldades que passávamos no dia a dia.
Terminando de molhar as plantas, entra em casa suspirando.
– Já não está na hora de vocês? – pergunta se servindo de dois dedos de café.
Olho para o relógio redondo na parede.
– Já estamos indo – Limpo a boca de Renata, tomando o restante do leite em seu copo. Me aproximo dela, beijando seu rosto – Até mais tarde, vó.
– Cuidado – É a única palavra que me diz antes de sair.
Seguro na mão de Renata, andando em passos rápidos. Apesar da escola ser de bairro, precisávamos andar pelo menos dez minutos para chegar lá.
Antes do início do ano letivo, havia feito planos com o dinheiro do estágio, na intenção de pagar uma van para ficar responsável em levar e buscar ela na escola. Mas com o dinheiro do vô praticamente retido no banco por causa de empréstimos e sobrando apenas a aposentadoria da vó, tive que me juntar com minhas irmãs para ajudar dentro de casa.
– Mãe, promete que não vai demorar hoje pra mim buscar? – Renata pergunta na porta da escola.
– Vou tentar. Só não saia daqui sem mim – Seguro seu rosto entre ás mãos – Tá bom? Posso demorar mais eu chego.
Ela assenti hesitante.
A vejo entrar na escola, para só então caminhar pelo menos mais uns oito minutos até o ponto de ônibus.
Naquele horário, como de costume, o ponto estava cheio. Estudantes, trabalhadores, mães com crianças de colo; Todos esperando o coletivo para seus respectivos lugares.
Era normal atrasar, nem tanto quando atrasada a semana inteira e no escritório já não acreditavam.
Gostaria de ir de Uber ou meu próprio carro, só que infelizmente minha situação estava longe de ser fácil.
O ônibus chega e em instantes lota. Parecíamos sardinhas amassadas.
Quinze minutos depois, dou sinal, pago o cobrador e com dificuldade para passar por algumas pessoas, inclusive homens, que complicavam apenas para tirar uma “casquinha”, desço do ônibus arrumando minha roupa amarrotada no corpo.
Soltando o ar dos pulmões, caminho mais três quadras antes de chegar em um prédio de porte médio.
Subo as escadas até o quarto andar, após pegar a correspondência.
Há pouco mais de um ano, havia conseguido me formar em Direito, depois de passar praticamente todo o ensino médio estudando e perseguindo os professores após as aulas para tirar dúvidas ou ensinar novamente.
Foi uma surpresa pra todos e até para mim mesma, que apesar de todo meu esforço, ainda acreditava que não tiraria uma boa hora, quando vi que havia tirado a nota máxima no ENEM e conseguido a bolsa integral.
Minha alegria deu lugar a preocupação quando fui informada que precisava pagar o transporte e outras pequenas coisas relacionadas a faculdade, além da alimentação. E naquele momento com Renata com 4 anos e sem emprego, a única opção viável que tinha era vender salgados na rua.
O dinheiro que ganhava dividida entre a faculdade e as despesas de casa, conseguindo com sacrifício me formar depois de cinco anos.
Depois de formada e de conversar com algumas pessoas, consegui um estágio num escritório de advocacia no centro. Não pagava muito bem, mas era o que sempre vó Marta dizia: “Muito sem Deus é nada e pouco com Deus é muito”.
– O ônibus atrasou de novo? – A voz de Maurício sentado atrás da mesa, folheando alguns papéis, me dão boas vindas – Deste jeito vai ficar difícil de manter você aqui. Sempre chegando fora do horário.
– Precisei deixar minha filha na escola e o ônibus atrasou.
– Não pode deixar ela ir sozinha? Não tem como sustentar ela sem emprego.
– Não posso deixar ele ir sozinha – digo séria, pressionando os lábios. Iria levar Renata para a escola até o momento que pudesse se defender, por enquanto era só uma criança que cabia à mim proteger.
Ela desvia o olhar para os papéis.
– Não fique aí parada. Tem trabalho á fazer.
Deixo minha bolsa de lado, colocando na frente dele a correspondência, antes de começar realmente meu dia.