Capítulo 2

1029 Words
Comecei a trabalhar com dez anos, na época não vai como trabalho e sim num modo de ajudar minha avó. Com cinco pessoas dentro de casa, precisando fazer três refeições básicas por dia, o básico acabou se tornando escasso e muitas vezes tive que presenciar minha avó poupando o almoço e a janta para sobrar para mim e as minhas irmãs no outro dia. Anos antes, ainda quando tínhamos de quatro para cinco anos, nossos pais nos deixou para trás usando o argumento de ter uma vida melhor e poder oferecer o que precisávamos. Mas eles nunca mais voltarão. Tempos depois, ficamos sabemos que haviam se separado e cada um tomado um caminho. Nunca o caminho de onde estávamos, sempre o caminho mais longe de nós. Minha mãe havia se casado novamente, tido mais dois filhos, um casal dessa vez e se mostrava contente e realizada toda vez que conversava com minha avó. Meu pai, bem, ele bebia quando ainda éramos crianças e com o passar dos anos, o vício apenas aumentou, ganhando forças com o jogo de apostas. Tudo o que ganhava era para seus vícios. Havia se casado novamente mas, era um casamento que só dava certo quando ele tinha dinheiro. Não importava se ele estava sóbrio ou não. Desde cedo aprendi com as minhas irmãs, vendendo balas no sinal, o valor do trabalho e o que o dinheiro poderia mudar em nossas vidas. – Precisamos arrumar um jeito de ganhar dinheiro – diz Gio a mais ambiciosa de nós três, encolhida ao nosso lado em baixo de uma árvore no sol quente. – Não sabemos fazer nada – diz Giulia mau humorada. Suadas observamos os carros de luxo e as pessoas bem vestidas passarem por nós. Poucas pessoas olhavam para aquelas três crianças com roupas velhas, cabelos desgrenhados e em baixo de um sol de sensação térmica de 40 graus. Mais tarde naquela noite, quando vovó me ajudava a tomar banho, uso a coragem que estava juntando o dia inteiro. – Vó – Chamo atraindo seu olhar. – O que foi, Gabi? – Quero ajudar você – Ela franze o cenho, parando de me saboar – Se você fizesse aquele bolo de chocolate, a gente podia vender na rua. Ela ouve as palavras com atenção, sorrindo levemente em seguida sem mostrar os dentes. – Sabe como você pode me ajudar? – pergunta, voltando a passar o sabão em meu braço. n**o com a cabeça – Estudando. Tendo um diploma e um bom emprego. Assim você irá poder me ajudar um dia. – Mais vai demorar e a gente precisa comprar comida. Afagando com a cabeça, noto seus olhos encherem de água e disfarçar imediatamente. – Vocês já me ajudam o bastante. Naquela noite no jantar não tive fome. Não por que a comida devia estar r**m, nunca estava, mesmo quando era arroz e ovo. Mas por não ter fome, por não entender realmente o que vovó queria dizer com suas palavras. Quando finalmente entendi, comecei a estudar e me interessar pelos assuntos que passava na TV. Vovó incentivava minhas irmãs a fazer o mesmo e logo perdíamos a noção do tempo, estudando juntas, após chegar da venda das balas no sinal. Sentada num sofá de couro perto da janela, termino de comer minha marmita, ascendendo a tela do celular para ver a foto de Renata no que em que consegui a levar pela primeira vez no shopping há dois anos atrás. Seus olhos brilhavam com as luzes das vitrines das lojas e principalmente da enorme loja de brinquedos que não pudemos entrar por não ter dinheiro o suficiente. Seu sorriso e sua animação, não diminuiu quando só pude lhe pagar um saco médio de pipoca salgada, quando nos sentamos na praça de alimentação. Para ela não importava se tínhamos muito dinheiro ou não. O fato de poder ter aquele momento com ela, era o que mais lhe importava. Maurício volta do almoço, como sempre ao telefone, bagunçando tudo ao redor ao passar. Tirando objetos do lugar e pastas sem precisão. Passando a mão pelo cabelo loiro liso e sedoso, ignora minha presença, acabando por se sentar atrás de sua mesa, até minutos atrás arrumada, depois de eu ter feito uma boa faxina. Nem sempre ele estava no escritório por causa das audiências ou pendências que precisava resolver no fórum. Só que quando estava, me sentia no verdadeiro purgatório. Meu trabalho ali parecia fácil, mas não era. Consistia em ajudar na rotina com atendimento aos clientes, preparação de defesas, recursos de processo e alegações, avaliações de pleito e participação de audiências. Além é claro de realizar pesquisas em doutrina e jurisprudência, controlando prazos de processos e pedidos de comparecimento em audiências e diligências técnicas. Fácil não? De tudo isto, naquela tarde iria fazer o que mais gostava: preparação de defesas. Pego um caso recente de um réu que cometeu um assalto a mão armada e que foi preso em flagrante, demorando pouco mais de meia hora para começar a traçar uma defesa. – O que acha que está fazendo? – Maurício pergunta de repente, me assustando. – Eu...Eu... – gaguejo. – Sem gaguejar. Fica patética – diz tirando o manuscrito da defesa da minha frente, lendo com os olhos – O que é isso? – questiona me olhando. – A defesa daquele réu que... – digo baixo. – Eu sei quem é – Me interrompe – Quero saber o motivo pelo qual está escrevendo a defesa dele. – Pensei que pudesse fazer. – Pensou errado – Ele amassa o papel – Ter a carteirinha da OAB não significa que está apta para ser uma advogada. Primeiro de tudo, precisa ter um escritório como este e você não tem dinheiro para isso – Sustento seu olhar sentindo meus olhos arderam. Fecho meus punhos com força, sentindo às unhas machucaram a palma da mão – Então não cometa este erro novamente. É a segunda vez. Não irei tolerar a terceira – Fico em silêncio, sentindo minhas bochechas corarem, mesmo que ele não pudesse ver por causa da cor da minha pele – Você entendeu? – Entendi, senhor Maurício – Ele se afasta voltando para sua cadeira e o celular.
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